Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias.

Esculturas sonoras: quando um piscar de olhos contém todas as formas do mundo

Envolva o bocal de um alto falante com uma membrana de borracha, pingue algumas gotas de tinta sobre ela, ligue o som e... você não verá nada demais. A não ser que fotografe tudo a 5000 quadros por segundo.


EsculturasSonoras1.jpg

A técnica da fotografia sequencial remonta aos experimentos de Eadweard Muybridge. Entre 1877 e 1878, o inglês registrou diversos animais em movimento e ficou conhecido pela obsessão em provar que os ilustradores da época tinham uma concepção visual incorreta da corrida do cavalo.

Muybridge.jpg A fotografia de Muybridge provou que as quatro patas do cavalo estão no ar não quando esticadas, mas quando juntas sob seu corpo.

Foi só 50 anos mais tarde, no entanto, que um professor de engenharia elétrica começou a aplicar a alta velocidade de captura à macrofotografia, causando uma pequena revolução no mundo da arte. Harold Edgerton tirou o estroboscópio da obscuridade do laboratório e o adaptou para disparar até 120 flashes de luz por segundo. Capturando uma enorme quantidade de imagens em um curto período de tempo, revelou detalhes antes imperceptíveis de movimentos cotidianos, como no caso de Milk Drop, uma de suas fotos mais famosas, e cuja semelhança estética com as esculturas sonoras nos interessa.

MilkDropEEsculputure.jpg "Milk Drop", de Edgerton, e uma escultura sonora.

A técnica da escultura sonora parte de onde Edgerton parou, agregando para si um elemento a mais: o som. Na prática, reveste-se o bocal de um alto falante com uma fina membrana de borracha, para depois pingar sobre ela, gota por gota, ínfimas porções de tinta. Então, liga-se o som do alto falante em uma determinada frequência, o que faz a membrana vibrar e arremessar a tinta para o alto. A uma taxa de 5000 frames por segundo, e sobre um fundo preto, a movimentação é fotografada nos seus mínimos detalhes.

O resultado são imagens que transbordam uma beleza inédita e invisível ao olho nu do espectador. E que são despidas de qualquer qualidade narrativa. As esculturas sonoras fragmentam tanto o tempo, em relação a nossa percepção normal, que o passar dele se torna inconcebível de tão abstrato (como pode um segundo conter 5000 frames, em vez dos 24 aos quais estamos acostumados!?). E, sem movimentação temporal, não há história que possa decorrer.

Há de se fatiar muito o tempo, é verdade, até que se capture um instante de harmonia em meio ao caos que é a minúscula explosão das cores sobre a membrana. E as imagens que expõem essa harmonia dentro do caos inevitavelmente traçam paralelos, tanto estéticos quanto conceituais, com as fotos igualmente fascinantes de cogumelos de bombas atômicas. O deslumbre diante da harmonia contida no instante de uma explosão – uma situação desarmônica por definição – deve ser parecido com aquele que move cientistas que se dedicam a colidir partículas e descobrir padrões dentro da aparente desordem que se sucede. E, a essa altura, a nossa aproximação com a física já não é mais mera coincidência. A cimática é uma área da física que estuda os efeitos das ondas sonoras em um meio físico. Lembra daquele estudo, famoso na internet, sobre as formas que moléculas de água assumem quando expostas a diferentes gêneros musicais? Serve de exemplo. A cimática toma para si a antiga ânsia que o homem tem de tangibilizar a música.

Bombass.jpg A explosão de uma bomba atômica e um cristal de água congelada enquanto exposta a uma sinfonia de Bach.

Vale lembrar que a palavra música, do grego mousikê, não tem mais a sua conotação original. No período helênico, mousikê designava não só a combinação artística de sons, mas sim quaisquer das nove formas de arte que se ligavam a uma das nove musas gregas, tais quais Euterpe (musa da música), Polínia (musa da poesia lírica) ou Terpsícore (musa da dança). Mousikê era, portanto, qualquer arte relativa a uma das musas gregas, e essas artes eram justamente as não plásticas. Tomemos a música e a sua irmã gêmea, a dança, como exemplos. A diferença quintessencial delas para a pintura ou a escultura é que aquelas variam a cada vez que são performadas, e estas permanecem fixadas ao suporte no qual foram produzidas (uma tela ou uma peça de bronze, por exemplo). Mousikê, para os gregos, eram as artes que existiam independentes de um meio. Por mais que o significado original da palavra tenha sido alterado, essa característica a música jamais perdeu. E é dela que se origina a tal ânsia humana de tangibilizar a música.

A música é etérea. Fugaz. Livre. Leve. Tão leve que, a determinadas frequências sonoras, já se atribuiu até o poder da levitação. Desde o início do milênio, diversos pesquisadores já conseguem fazer flutuar pequenos objetos, como gotículas de água ou bolinhas de isopor, somente através da canalização e ajuste de frequência de ondas sonoras.

Enquanto a levitação acústica não funciona com grandes volumes – e mantém o homem com os pés no chão – que ao menos o som continue erguendo bolinhas de isopor, arremessando pingos de tinta, esculpindo o tempo no ar. Não importa. Afinal, a sensação que o vislumbre de uma escultura sonora gera não é justamente a de que estamos em pleno vôo?


Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias..
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