Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias.

A poética da evolução nas ilustrações de Dibis

Camaleões, primatas e árvores ancestrais: bem vindo ao mundo onírico das ilustrações de Dibis. Diante de tantos traços e espécies familiares, é impossível você não se sentir em casa.


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No começo, eram os dinossauros. Dibis os desenhava, durante as aulas do primário, a partir do que via nos filmes de Jurassic Park. Qualquer aproximação de professores o compelia a esconder suas criações, mas essa dinâmica seria invertida em breve. Ainda com 12 anos, adentrou um curso de arte cuja professora se dedicava ao desenho de animais. E cujo trabalho, provavelmente, semearia o plano de fundo estético sobre o qual Dibis viria a desenvolver seu estilo.

Dono de um traço irretocavelmente firme, Dibis mescla a elegância do nanquim com a expressividade da aquarela para dar vida a primatas, raízes e árvores ancestrais. É clara a relação estética entre os elementos recorrentes no seu trabalho, e a relação simbólica não deixa por menos. Essas três figuras remetem a estágios anteriores ao homem na odisseia evolutiva da vida na Terra. Quando se traz à tona, então, os dinossauros que Dibis desenhava na infância, o simbolismo fica ainda mais evidente. Sua arte é uma arte original, e não só no sentido de que parece não ter precedentes, como também pela constante referência ao momento da origem.

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A poética da originalidade (em seu sentido ambíguo) permeia não só a obra de Dibis, mas também suas opiniões acerca da arte. “A internet, com sua predisposição a valorizar estética em detrimento de conteúdo, fez surgirem cada vez mais artesões e cada vez menos artistas”. E a diferença entre eles, Dibis propõe em seguida, é justamente a capacidade de articular a linguagem visual em torno de uma poética. “O artista busca sempre se libertar da preocupação estética. Já o artesão preza mais pela casca estética. E é aí que o estilo vira uma armadilha: quando ele sufoca a expressão, monotoniza o sentimento. O desenho, pra mim, tem que ser um termômetro do artista no momento da produção”. Prodígio no detalhamento de troncos e madeiras, Dibis volta e meia recorre à imagem da casca. Muitas vezes, quebrada ou em rompimento. A metáfora da tentativa de desapego à estética não poderia ser mais clara.

“Me considero um pouco artista e um pouco artesão”, ele responde à indagação que, mais cedo ou mais tarde, acabaria despontando. “É difícil delinear uma fronteira entre os dois porque a contemporaneidade prostituiu o conceito de arte, deixou ele vago. Hoje é difícil diferenciar aquilo que é belo daquilo que é arte. O pôr-do-sol é belo. Mas será que é arte? Ao mesmo tempo em que eu quero criar aquilo que os outros acham bonito, me sinto obrigado a ser fiel a uma história poética própria”.

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Uma história excepcionalmente pautada pela evolução, como não poderia deixar de ser.

“Acho que toda história individual, incluindo a minha, segue um padrão arquetípico. Primeiro se nasce. Depois se constrói um ‘eu’ com forte influência dos pais e do ambiente. Aí, num momento de crise, o ‘eu’ se descontrói, pra, finalmente, se reconstruir. Só que se desconstruir não é fácil: numa dessas, eu passei por um dos períodos mais sombrios da minha vida. Sentia os mesmos medos que senti quando tinha, sei lá, 6 anos de idade: medo de escuro, de ficar sozinho, de morrer”. No entanto, não é só a fase da desconstrução que postula dificuldades. A dureza atribuída à etapa da reconstrução é atestada por outros dois aspectos simbólicos para os quais o artista se volta. Primeiro, a recorrência do peixe nas suas ilustrações: símbolo cristão do renascimento. Segundo, a busca metafórica pela figura materna – a primeira professora de arte – que criou o artista num primeiro momento e na qual ele procura apoio para se “recriar”. Não será para ela que apontam os símbolos nostálgico-evolutivos tão presentes na obra de Dibis?

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Desde sempre um mau aluno, preguiçoso confesso, e muito mais chegado aos colegas que aos livros acadêmicos, vê no próprio traço metódico e perfeccionista uma maneira de compensar a desorganização que assola sua mente. “Minha cabeça tá sempre a milhão”, Dibis conta. “É como se ela fosse uma sala cheia de bichos voando pra todo lado. Como eu resolvo essa confusão? Pregando os bichos nas paredes. Quero dizer, imobilizando todo o movimento. Desenhando. O que pode ser mais palpável que um papel riscado?”

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Para ele, a função última do desenho, então, seria a de visualizar o que se passa na mente?

“Também”, Dibis responde minha proposta. “Mas mais do que um jeito de eu me enxergar, é meu jeito de me reconstruir”. Aí Dibis se empertiga, relaxa os braços, coça a barba vasta e, inevitavelmente, me vêm à cabeça a figura de um de seus macacos. Seu leque de referências visuais aponta sim para nossos ancestrais darwinianos. Mas não somente.

“Se eu diria que minha arte é nostálgica?”, ele pondera uma sugestão minha. “Sim. Mesmo que a nostalgia não seja paralisante. Pensa nas imagem das raízes: sempre fincadas, e sempre brotando”. Afinal, assim como qualquer outra espécie, o artista é um ser em movimento: elo ligado ao passado, mas, além disso, parte de uma constante evolução.

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Diego de Arruda é ilustrador, além de trabalhar numa editora e planejar o lançamento de sua marca de camisetas. Seu trabalho pode ser conferido em http://www.behance.net/dibis.


Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias..
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