Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias.

Jill Greenberg: a fotógrafa mais alvejada do mundo?

Jill Greenberg não esperava que uma criança chorando fosse lhe render um punhado de acusações de morte, contratos cancelados e doses ferozes de criticismo por parte da mídia. Tudo bem, não foi só uma criança. Foram várias.


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Para a série “End Times” (“Tempos Finais”), de 2006, a artista canadense retratou dezenas de crianças chorando histericamente. Uma vez no estúdio, as mães dos modelos em questão ofereciam-lhes pirulitos, e depois recuavam, entristecendo os pimpolhos. Greenberg, por detrás da lente, retratava o auge da angústia nas expressões faciais dos pequenos, buscando refletir sua frustração com o governo Bush e o avanço do fundamentalismo cristão nos Estados Unidos.

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“Os piores fundamentalistas não estão só fomentando a guerra no Iraque. Estão atacando a evolução, barrando pesquisas médicas e ignorando o meio ambiente. É como se acreditassem que o apocalipse se aproxima, e, portanto, que o futuro das nossas crianças é fútil”, ela diz, na introdução do livro que compila as imagens da série.

Pois se Greenberg plantou aí a semente de um debate, ele germinou, encorpou e depois se voltou contra ela. Se, por um lado, parte da comunidade artística internacional venerou a série, por outro, a internet fervilhou com artigos desdenhosos em relação ao trabalho da artista. Talvez o mais famoso deles – e certamente o mais agressivo – tenha sido o que um escritor convidado escreveu no blog de Thomas Hawk. O título fala por si só: “Jill Greenberg é uma mulher doente que deveria ser presa e julgada por abuso infantil”.

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“O problema é que nós nos dessensibilizamos em relação a imagens perturbadoras”, a fotógrafa respondeu. “Uma criança de dois ou três anos deve chorar por mais ou menos um terço do tempo no qual está acordada. Retratá-la nessas condições é tão anti-natural quanto retratá-la sorrindo e posando para a foto”.

A polêmica se estendeu por anos, mas Greenberg não abriu mão do tempero político na receita de seu trabalho. Em 2011, produziu a série “Glass Ceiling” (“Teto de Vidro”), na qual fotografou uma equipe feminina de nado sincronizado vista, performando, de dentro da água. Ao olhar do leigo, chama atenção um detalhe: todas as atletas calçam sapatos de salto alto enquanto atuam. Mas quem conhece o esporte sabe que a prática é relativamente comum entre quem compete. O artefato serve para realçar a feminilidade do espetáculo, ainda que dificulte a execução dos movimentos. É dessa duplicidade que emerge o feminismo crítico da série: o que a artista mostra é um grupo de mulheres lutando para manter a cabeça acima d’água enquanto dança graciosamente.

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“Horse” (“Cavalo”), de 2012, traz de volta esse feminismo ao trabalho de Greenberg. Em uma série de closes de cavalos, a fotógrafa recorta texturas e curvas sensuais, em ângulos inusitados que chegam a transformar a junção do pescoço e da cabeça do bicho em um nítido símbolo fálico. A “brincadeira” visual, porém, não é despropositada. A série trata a virilidade domada do cavalo como analogia à opressão sofrida pela mulher na sociedade contemporânea.

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Tanto “Horse” quanto outros trabalhos - nos quais Greenberg fotografa macacos e ursos em estúdios montados ao ar livre - costumam suscitar críticas de caráter menos ético e mais estético que as que choveram sobre as suas fotos de crianças chorando. Acontece que os retratos da artista são carregados de lustro, a ponto de parecerem artificalmente lubrificados. E o são, de certa maneira: a fotógrafa usa e abusa dos softwares de edição na pós-produção. Seu apelido de início de carreira, inclusive, era “The Manipulator” (“A Manipuladora”). Mas se engana quem pensa que a maior parte de seu trabalho acontece na frente do computador.

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Greenberg faz uso de um esquema de luzes complexo, que, segundo a própria, consta normalmente de oito lâmpadas diferentes. No entanto, precisar a localização e a intensidade delas – e desvendar o esqueleto luminário que suporta o efeito dramático das fotos da artista – é um pouco mais difícil.

Baseados em vídeos de bastidores disponibilizados por clientes de Greenberg, internautas já tentaram desconstruir a iluminação dela e ensinar qualquer leigo a reproduzi-la. Críticos se apoiaram nesses tutoriais para desdenhar de um suposto excesso de equipamento na preparação de suas sessões de foto. Colegas se apropriaram da técnica e passaram a vender um estilo similar E pessoas ligadas à artista se manifestaram defendendo-a e colocando a culpa pelo surgimento da polêmica naqueles que, em primeiro lugar, filmaram os bastidores e colocaram o material na internet.

Com quem está a razão? É difícil determinar. Só se pode dizer que, nesse caso, é Jill Greenberg quem está sob os holofotes. E que, ao contrário de suas crianças em “End Time”, ela não está chorando de angústia por causa disso.

Todas as fotos desse artigo pertencem a Jill Greenberg, e mais do seu trabalho pode ser conferido em http://www.jillgreenberg.com


Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias..
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