Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias.

Georgetown, Malásia: uma vitrine quebrada da globalização

Como uma cidade costeira acolheu imigrantes do mundo todo, gestou uma culinária exótica (pra não falar bizarra), e se tornou uma ilustração perfeita do problema da identidade fragmentada.


1.jpg Vista aérea de Georgetown.

Uma porção imensurável do destino da humanidade foi moldada pela língua do homem. Não a que fala, mas a que come e bebe, a do paladar, dos gostos, da jornada gastronômica. Todo brasileiro, por exemplo, é um produto desse apetite: as Grandes Navegações que acabaram por nos colonizar, no fim das contas, eram nada mais do que um passeio nos mercados em busca de novos temperos. Acontece que os mercados ficavam nos outros cantos do mundo.

A ilha malaia de Penang também é uma consequência dessas viagens. Ela abriga, hoje, uma mistureba social típica de países que nasceram como pit-stops para potências internacionais durante as navegações do século XVI: indianos, chulias (indianos muçulmanos vindos do sul do subcontinente), chineses, siameses, armênios e outros povos coabitam Georgetown, a maior cidade da ilha. O convívio é harmonioso, ainda que todos esses grupos aparentem estar segregados mesmo que estejam próximos. É impossível ignorar a significância dos avizinhados (mas bem demarcados) molhes – onde cada clã tradicional reivindica sua fatia do píer da cidade -, e da divisão de diferentes heranças em áreas distintas: há o bairro armênio, o bairro indiano, o bairro chinês e assim por diante.

2.jpg O molhe do clã Chew é o maior do píer. Copyright de Loke Yin Keet

Até aí, tudo bem: cidades “segregadas” não são tão raras assim. Todos já ouvimos falar da Berlim durante a Guerra Fria, e existem até exemplos menos conhecidos (e mais extremos), como Mitrovica, no Kosovo, onde albaneses são proibidos de atravessar uma ponte para o lado sérvio do rio, e vice versa. Entretanto, a diversidade de influências na Malásia – e em Georgetown, consequentemente – também deixa seu legado em uma culinária relativamente bizarra.

3.jpg A cidade dividida de Mitrovica.

O típico café malaio, por exemplo, não é feito da torra do grão. O grão deve ser frito com manteiga e açúcar, antes de o café ser passado e servido. Uma das mais populares sobremesas do país não fica muito atrás em termos de exotismo. O Cendol é uma sopa doce composta de feijões vermelhos cozidos, raspas de gelo, leite de coco e fiapos de gelatina verde. E qual é o gosto? Bem, o gosto é de feijões vermelhos, leite de coco e gelatina, é claro! Os ingredientes do Cendol parecem incapazes de se combinar em um único sabor, e essa é uma metáfora de dar água na boca para ilustrar o problema da identidade fragmentada gerado pela falta de unidade.

4.jpg O Cendol.

O sociólogo jamaicano Stuart Hall propõe cinco elementos que constroem uma comunidade imaginária derivada de uma identidade nacional – em termos menos acadêmicos, uma nação. Um desses elementos é a ideia de um povo original, um povo puro, como os maoris na Nova Zelândia, ou os persas no Irã. Algo assim inexiste na ilha de Penang (por mais que a porção peninsular da Malásia tenha seu povo indígena).

O mesmo Stuart Hall ainda postula três conceitos de sujeito/identidade cronologicamnte sucessivos, que iluminam o problema aqui discutido de um ângulo mais subjetivo.

A identidade do Sujeito do Iluminismo era a essência de um self centrado, racional, autônomo e relativamente imutável ao longo de sua existência. Mais adiante, o Sujeito Sociológico, forjado no seio dos tempos modernos, tinha sua identidade formada pela relação entre o indivíduo e todos ao seu redor. De acordo com esse conceito, a identidade era o que preenchia o espaço entre o interior e o exterior de um ser; era o que costurava o sujeito à estrutura social à qual ele pertencia, tornando ambos mais estáveis.

O Sujeito Pós-Moderno, por sua vez, testemunhou a desestabilização e a descentralização das instituições sociais, causadas pela globalização. Como um reflexo dessas mudanças, sua identidade tornou-se fragmentada, e adquiriu novos significados. A identidade passou a ser uma celebração móvel (nos termos de Hall), não unificada, impermanente. A identidade virou efêmera, múltipla, variável. E é mais ou menos assim que alguém se sente, ao dobrar uma esquina na cidade malaia de Georgetown e passar de um universo armênio a um chinês, num piscar de olhos.

5.jpg Um pedaço da China dentro de Georgetown. Copyright de Robert Francis


Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias..
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