Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias.

A obra de Chuck Palahniuk é uma carta de repúdio ao Homem

"Enfiar penas na bunda não te transforma numa galinha" pode soar como uma piada. Mas é a moral profunda que se extrai da obra do escritor mais amado e odiado do nosso tempo: Chuck Palahniuk, o pai do Clube Da Luta.


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Quando o diretor David Fincher pinçou aquele livro fino e repugnante em meio à sua coleção de referências, e decidiu levar O Clube Da Luta aos cinemas, mal sabia o estrago que estava causando.

Estrago no sentido mais abstrato do termo. Estrago na imagem puritana e ilusória em que cada um de nós acredita refletir-se no espelho da consciência. Estrago no conforto sufocante em que a rotina nos afoga. Estrago no mais primaz dos valores dogmático-religiosos: amai ao próximo. Porque Chuck Palahniuk, em sua escrita, não ama o próximo. Pelo contrário. Enoja-se dele.

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“Misantropia” define o escritor americano em uma palavra. E se fosse pra definir o escritor americano, tinha mesmo que ser em uma só palavra. O estilo minimalista e ritmado, construído pela repetição de sentenças nas quais se muda um ou outro termo conforme a história progride, é uma marca autoral tão inconfundível quanto a “hip hop montage” com que Darren Aronofsky assina visualmente os filmes que dirige. As reviravoltas no fim da trama, e a linguagem crua e picotada fazem do texto um retrato da automutilação que tanto serve de tema ao autor.

É o caso, por exemplo, de O Clube Da Luta. O livro virou filme nas mãos de David Fincher, que virou cult nas mãos de uma geração ávida por motivos para sentir repulsa a si mesma, quando na verdade tem nojo daquilo que produz. É o desgosto por esse produto - invariavelmente materialista - que a leva ao apreço pelos ideais budistas que permeiam o a história de Tyler Durden e companhia: a efemeridade, o desapego, a iluminação por meio do flagelo autoimposto. Acontece que a repulsa, nas veias de Palahniuk, corre em sentido contrário: daquilo que o autor não foi capaz de produzir - a vida pessoal pontuada por acasos trágicos - para a obra, que escancara a impotência de um Homem cuja tragédia maior é a incapacidade de lidar com as próprias ojerizas.

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É indispensável contextualizar os livros de Chuck Palahniuk para conseguir compartilhar um pouco do seu asco pelo que a raça humana faz, ou não consegue fazer. O autor escreveu Cantiga de Ninar enquanto o homem que assassinara seu pai e sua namorada (a de Chuck) era julgado. O romance, que acompanha a cruzada de um par de maníacos através dos Estados Unidos em busca de uma música milenar capaz de matar pela melodia, lapida a convicção melancólica de que as obsessões alheias são incontroláveis e, quando entram em nosso caminho, desesperadoras.

"Damned", livro que conta a história de uma menina recém chegada ao inferno, foi escrito enquanto a mãe do autor morria de câncer. A protagonista da trama, determinada a descobrir a maneira pela qual morreu, antropomorfiza a preocupação banal em direcionarmos e justificarmos nossos nojos, que Palahniuk critica subliminarmente. Não importa como morremos. O que importa é que estamos todos no inferno.

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Só que o inferno, ainda que inadequado para uma criança, não é o pior dos cenários para quem - sutilezas à parte - é mais capeta do que anjo. E é essa a moral que fundamenta toda a obra do escritor americano, e que justifica o seu sucesso apesar das temáticas ultrapessimistas. O niilismo vira pop nas mãos de Chuck Palahniuk porque prova a fidelidade do autor a si mesmo. Em tempos de ghostwriting, escritores subordinados a interesses corporativos, estúdios de cinema tirando o direito de corte final de diretores, e outros tipos de imposição antiautoral, Palahniuk permanece como um dos últimos baluartes da autenticidade na arte. Faz parte de uma humanidade narcisista e inescrupulosa, mas assume isso para si em vez de metralhar culpas para todo lado e parir ojerizas a todo instante. Se tem nojo de alguém, o autor tem nojo se si. De nós.

A identidade do americano beira a incorruptibilidade. Tanto que, mesmo que leitores do manuscrito de O Clube da Luta tivessem alertado-o dezenas de vezes de que a obra jamais sairia da gaveta, ele levou o projeto em frente. E deu no que deu. É claro que nem todos aprovaram o trabalho. À época do lançamento do filme, inclusive, a bilheteria foi um fracasso. Acontece que nem todo mundo se identifica com a autocrítica pregada pelo autor. E ninguém melhor do que ele para defender a liberdade de cada um em desgostar suas histórias de ode ao desgosto. A identidade pertence a cada um, ainda que Palahniuk talvez reprove aquelas que tentam omitir falhas que ele julga intrínsecas ao Homem. Mas não tem jeito. Nas palavras do próprio, "enfiar penas na bunda não te transforma numa galinha".

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Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias..
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