Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias.

Menino tem Facebook trollado, avó dele vê, acredita e morre do coração

O título desse artigo é um troll como o que inspirou a sua escrita. A história contada é real, ainda que o desfecho tenha sido menos trágico. Os que lerem superficialmente, no entanto, devem ter o mesmo susto que quase apagou a velhinha.


Avó É difícil, para um jovem, prever a reação de um idoso diante de movimentos em redes sociais

O Facebook foi programado por um jovem nerd num campus universitário californiano, com o simples intuito de permitir a avaliação das menininhas de Stanford, e aproximar delas o criador do site. Em suma, começou como o passatempo de um garoto em busca de diversão.

Mas a rede social virtual cresceu. Enquanto o Orkut e outros concorrentes restringiam a distribuição de qualquer conteúdo gerado por usuários à rede de contatos deste, ou aos limites de uma comunidade onde o conteúdo fora postado, o Facebook fazia diferente. Tudo o que era produzido ali dentro tinha o potencial de se alastrar de timeline em timeline, através de curtidas e compartilhamentos. Morriam os scraps e os testmonials; nasciam os desabafos sem alvo e as @marcações públicas.

O alcance de um post, um vídeo, uma foto, ou o que quer que fosse, tornara-se ilimitado: o passatempo de Mark Zuckerberg matou as comunidades porque se tornou, ele próprio, uma grande e aberta comunidade. Foi ao perceberem esse potencial de disseminação que os anunciantes começaram a chover no Facebook, e daí para o primeiro bilhão de usuários foi uma questão de tempo.

Mark Zuckerberg Sim: esse menino franzino atraiu mais de um bilhão de pessoas para o site dele

O que ninguém esperava é que o feitiço fosse se virar contra o feiticeiro. A expansão da comunidade a heterogenizou. Usuários mais jovens começaram a migrar de volta para redes sociais nas quais a pluralidade e a privacidade escanteam a unidade e o voyeurismo quanto às vidas alheias. O público nascido antes da Internet aprendeu a brincar de postar fotos e mandar inboxs. Mas o contexto e o significado das redes sociais virtuais, nas suas cabeças, difere daquele que os mais jovens têm para si. E, nesse abismo que se interpõe entre as gerações, reverberam as bizarrices como o troll que inspirou esse texto.

Eis o que um menino, logado na conta do amigo, escreveu no “próprio” mural: “Aprendi muito sobre a maneira como as pessoas se relacionam com o dinheiro. Discordando de algumas coisas, resolvi que vou doar meu celular e excluir meu Facebook. Me apaixonei por Shinram, um incrível monge budista que me ensinou muito, e, com ele, vou deixar a cidade. A partir de agora, provavelmente, morarei nos Andes.”

O troll, nítido para a maioria dos que o leram, não foi recebido da mesma maneira pela avó da "vítima". Depois de passar mal e reclamar de dores no peito, ligou para o filho e para o neto, desesperada para saber se a história era verdadeira. O que se sucedeu foi uma série de discussões entre pai e filho acerca do que deveria ser feito, sendo que as propostas correram sobre um eixo cujos extremos eram: punir o troll e/ou bloquear a avó no Facebook. A nenhum consenso se chegou. E a culpa não foi nem do pai, nem do filho, mas sim da distância temporal e comportamental entre eles. Acontece que:

1- Idosos tendem a ver o Facebook como um espelho ou uma janela do cotidiano: o que acontece de verdade está ali, e o que está ali aconteceu de verdade. Na concepção mais maleável dos jovens, a rede social distorce, mascara, amplifica, opina sobre e zomba da realidade, por vezes até chegando a se aproximar dos fatos.

2- Essa diferença de visão faz com que qualquer tipo de comunicação via Facebook surta efeitos diametralmente opostos em públicos de gerações distintas.

3- A culpa do mal entendido não foi nem do troll, nem da avó: foi da diferença de contexto através do qual cada um pensou a mensagem transmitida.

4- A solucão para essa incompatibilidade, a curto prazo, passa pela separação desses públicos. É preciso bloquear o acesso da avó ao conteúdo gerado pelo neto (e pela sua rede) no Facebook, até que ela aprenda a ler mais de um contexto dentro de uma mesma plataforma.

Senhor na Grama Outras gerações, outros contextos, outras interpretações

Quero dizer, então, que o Facebook deve se enxugar radicalmente, em breve, ou se restringir a um só grupo? Não.

A expansão da rede deve sim ser freada durante um período no qual gerações mais antigas aprendem a malabarizar contextos. Nem tudo o que sobre na timeline é real. Nem tudo o que é real precisa ir para a timeline. Nesse mesmo tempo, gerações recentes se acostumarão com reações que destoam da média, e aprenderão a interpretá-las. Para eles, também, a capacidade de contextualização será útil. Só assim evitarão que brincadeiras com o potencial de causar estragos cardíacos cheguem aos ouvidos (ou seja, às notificações) dos mais velhos. Passada a curva de aprendizagem, no entanto, as coisas voltarão ao normal.

Mark Zuckerberg com Meninas É isso aí: O Facebook servindo o seu propósito original

Idosos entenderão a graça das campanhas virais. Jovens perdoarão a tia que mandou uma mensagem fofa no mural (o equivalente virtual ao aperto na bochecha). E anunciantes entenderão que é preciso entender cada público à sua maneira.

O recado (a todos) que fica é: Não dê uma mensagem por recebida antes de lê-la por completo. E não leve as redes sociais virtuais tão a sério. Qualquer dúvida, pode ligar para a fonte de conteúdo (como a vovó ligou para o neto prestes a fugir para os Andes com o monge Shinram). Celulares funcionam bem, e nem são tão velhos assim.

Por fim, lembre-se: o Facebook não é, e jamais será, um repositório de notícias confiáveis sobre o mundo real. Afinal, foi feito só para que um nerd pudesse chegar perto de algumas garotas...


Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias..
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