Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias.

Taquile: as cores e lendas de uma das mais belas ilhas do lago Titicaca

Uma viagem fotográfica pelas cores e lendas de Taquile. A ilha fica no lado peruano do Lago Titicaca, berço mitológico da cultura Inca.


Ilha de Taquile - Praia Desert A praia deserta de Taquile, segundo alguns locais, "tão linda quanto as do Brasil"

Tenho o costume de me benzer com as águas novas que encontro. Fiz isso na primeira vez em que molhei os pés no Pacífico, no Índico, no Mediterrâneo e no Adriático. Chegando ao lago Titicaca (que, pelo tamanho, até podia ser mar), sucumbi ao mesmo impulso.

Tido como sagrado pelos quéchuas (ou Incas, como os espanhóis preferiram chamar), o lago é o berço mitológico do povo que ocupou Cusco e depois unificou todo um império no altiplano sulamericano. Talvez pela conotação histórica, emane da superfície d’água uma energia difícil de enjaular em palavras. Sendo um dos lagos mais altos do mundo, o Titicaca se agiganta em direção ao horizonte num azul cobalto encrespado pelos ventos constantes, e que rivaliza com o céu numa batalha pelo olhar reverenciado dos que o encaram: a cabeça se move para cima, e para baixo, contente com a própria indecisão.

Ilha de Taquile - Arco Crianças se protegem do sol debaixo das dezenas de pórticos ao redor da ilha

Foi a inércia desse movimento (olhar pra cima, olhar pra baixo...) que respondeu ao primeiro contato que tive com um nativo de Taquile, uma das maiores ilhas do lado peruano do lago (mais ou menos 60% dele ficam no Peru, e 40%, na Bolívia). Inês, uma agricultora, ofereceu-se para me hospedar caso eu quisesse passar lá mais do que o tempo estipulado entre a chegada e a partida do barco operado por uma agência de Puno, cidade a alguns quilômetros dali. Desembarquei em Taquile para ficar por duas horas, e acabei ficando por dois dias.

Aos azuis onipresentes, somavam-se as cores das roupas tradicionais. Os habitantes da ilha reivindicam ser donos das tecelagens mais finas de todo o Peru, e muitos dos tons que tingem as calças, cintos, coletes e capuzes tem um propósito mais do que estético. Chulia é o termo quéchua para a touca que encima os cabelos de todos os homens locais. As vermelhas simbolizam que aquele que a veste é casado; as brancas são usadas por solteiros; e as coloridas, em teoria, adornam somente cabeças que já foram ou são autoridades políticas na região.

Ilha de Taquile - Chulia Um líder local ajeita sua chulia, orgulhoso

- E onde vocês compram elas? – eu perguntei a Inês, minha anfitriã, enquanto ela cozinhava uma sopa de quinua recém colhida e me apontava a coleção de chulias do marido, pendurada na parede. - Comprar? – ela enrugou a testa e parou até de girar a colher de pau dentro da panela, para prestar atenção no canto religioso que vinha do seu radinho de pilhas. Em seguida, prosseguiu. – Nós nunca compramos roupas, Felipe, tirando um par de tênis para as crianças, vez ou outra. Cada um costura aquilo de que precisa. A resposta dela foi adquirindo sentido com o passar da tarde, enquanto eu me dirigia ao monte mais alto de Taquile: pelos caminhos de pedra (não há ruas, carros, bicicletas e nem mulas de carga na ilha), topei com dezenas de senhores e senhoras, sentados em muretas, com os queixos fincados no peito, e as agulhas, em emaranhados de lã.

No cume do monte, ruínas circulares protegem uma cruz de madeira, que reina solitária. No pórtico que dá acesso ao altar sob ela, uma inscrição raspada na pedra passa quase despercebida: no entrar. Sem saber se a ordem era de cunho espiritual ou meramente vandalístico, achei melhor não arriscar. Ajoelhei-me, toquei algumas pedras, fechei os olhos e, distante da água, deixei que o vento me abençoasse dessa vez.

Ilha de Taquile - Senhora Tímida Uma senhora desvia a atenção da manta que costura para posar para a foto - o olhar continua pendendo para baixo

Durante a janta, servida logo depois do pôr do sol, Inês disse ter sido sensata a minha relutância. O cume do monte é sagrado para os taquileños: é lá que, somente uma vez por ano, realiza-se a cerimônia de oferenda a Pachamama.

Uma das duas filhas de Inês, que jantavam ao meu lado, anteviu a pergunta engasgada em minha garganta e se prontificou em responder:

- Pachamama: a Mãe Terra. Nós nunca fomos lá em cima, mas papai diz que é preciso respeitar a tradição. Todos os quéchuas fazem oferendas pra Ela, e, em troca, ela cuida das nossas plantações.

E com quanto carinho Pachamama vinha cuidando das terras daquela família! As batatas selvagens, o arroz branco, e o chá de muña que me eram servidos tinham um gosto marcante, com um quê de terroso, e um toque que só podia ser divino, mesmo.

Para as duas garotas, a janta não tinha todo esse ineditismo. A caçula acompanhava o radinho já rouco (a essa altura, as pilhas já precisavam ser trocadas), sabendo de cor todas as sílabas do canto adventista que não parava de ser entoado.

- Eu vou na igreja todos os dias de manhã. – ela contou orgulhosa, quando percebeu ter minha atenção, entre uma garfada de batata e um gole de chá. – Minha irmã vai quase sempre. E mamãe vai uma vez por semana. Parece pouco, mas pra quem era católica, já está mais do que bom... – ela piscou para mim como se o gesto pingasse um pouco de zombaria no que recém dissera.

Inês veio da cozinha com mais um bule de água quente, e explicou a brincadeira da filha: a igreja católica, erguida na praça central, e outrora sempre cheia, vinha perdendo popularidade. Parte da população migrara para uma das três igrejas adventistas, construídas nas últimas décadas, e que vinham conquistando a simpatia de nativos através de suas cerimônias, mais entusiasmadas que as católicas, e mais frequentes que as relacionadas a Pachamama e companhia.

Ilha de Taquile - Caminho de Pedra Taquile não tem ruas, carros, bicicletas ou mulas: tudo e todos transitam por caminhos como esse

Findo o papo e a comida, espiei o céu, antes de dormir. O azul quase despido de nuvens, da tarde, deixara como legado uma noite pontilhada de brilho. Eram tantas – e tão luminosas! - as estrelas, que parecia que a própria Pachamama tinha espirrado glitter no espaço.

A manhã seguinte foi ocupada com um passeio rumo ao lado sul da ilha. Mais esparsamente populado, abriga uma praia deserta que, nas palavras de Inês, “deve ser tão linda quanto as do Brasil”. Ela não estava exagerando. Enfeitiçado de novo, pelo mesmo par de azuis, sentei em uma pedra e fiquei intercalando a leitura de um romance barato com a contemplação dos arredores durante horas. Só voltei a mim quando um barquinho adentrou a baía pela lateral, ancorou na praia e despejou meia dúzia de turistas na areia. O guia, que veio na frente, me acenou com a cabeça.

- Tá sozinho há muito tempo aqui, menino? – ele se aproximou estendeu a mão.

Aquiesci e o cumprimentei.

- O rei da praia. – ele sorriu, complacente, e arrumou a chulia que já pulava pra fora da cabeça. – Como um deus.

O grupo caminhou ilha adentro, não sem que antes todos se despedissem de mim. Achei graça do gesto, e do respeito que o envolveu. Qualquer que fosse a crença que o guia tinha em mente, eu era só um discípulo.


Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias..
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