Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias.

Memória e Esquecimento: quando a melhor foto é aquela que não foi tirada

Não conseguir tirar uma foto que se desejava pode não ser uma coisa tão ruim. Os maiores fotógrafos da história que o digam.


Ibira-2.jpg O olhar registrado instantes depois do momento certo.

A noite começava a se assentar no céu, e eu estava em uma fila no Parque do Ibirapuera. A fila serpenteava organizada, o que fazia com que, a cada novo zigue-zague realizado, as mesmas pessoas acabassem se conforontando. A espera era para entrar em uma das instalações de uma exposição. Esta, por fora, era feita de dezenas de barras luminosas que se contorciam umas sobre as outras, gerando a impressão de que a construção toda estava dançando em espiral.

Quando a fila voltou a andar, eu passei ao lado de uma mãe com quem já tinha cruzado há alguns zigue-zagues atrás. Mas, dessa vez, sua filhinha, no colo, estava virada para mim. Caminhei por ela e fui girando a cabeça para não perdê-la de vista. Durante essa rotação minha, ela foi erguendo o rosto e arregalando um par de gigantescos olhos azul-claros. Aquelas duas bolas de gude turquesas reluziram o brilho das lâmpadas da estrutura, e as pupilas espantadas foram emolduradas por listras de um branco fluorescente. Sua boca se abriu.

Aquela imagem teve o impacto de uma flecha no meu coração. E eu pedi à mãe da menina para fotografá-la.

Cliquei-a uma vez: parecia, agora, aborrecida. Mais uma: cansada. Outra: desanimada.

O fulgor de outrora – olhar que se apaixonava pela vida! - ficaria pra sempre aprisionado à minha memória.

Ibira.jpg Detalhe da instalação com as barras de luz.

Wallace Stevens, poeta americano, escreveu que “a morte é a mãe da beleza”. Defendia que a inevitabilidade da morte é o que faz a vida ser capaz de alcançar tantas façanhas. Que, se nunca morrêssemos, a preciosidade da nossa vida ia morrer.

Jonathan Safran Foer, autor também ianque, faz uma analogia a essa metáfora: “o esquecimento é a mãe do sofrimento”. “Se uma memória fosse registrada pra sempre”, ele explica, “ela não mais nos moveria. É só a memória no caminho rumo ao esquecimento, o esforço humano em se agarrar à sensação da experiência original, que é doce o suficiente para nos tocar”.

A ciência o respalda. A parte do cérebro que faz funcionar a memória não é a mesma que registra (memoriza) uma experiência sendo vivida. Para que um evento antigo, então, faça total sentido na parte do cérebro que relembra, a memória tem de ser buscada na parte do cérebro onde foi vivida originalmente, e não em um registro externo que não exija esforço imaginativo. Só assim ela vai ser viva.

Eu tenho certeza de que o rosto admirado daquela menina, no Ibirapuera, não ficaria carimbado tão nitidamente na minha lembrança caso eu tivesse conseguido fotografá-lo.

Há o outro lado da história. Cory Richards é um alpinista e fotógrafo americano. Depois de quase morrer em uma avalanche no Paquistão, escapar do soterramento, e perceber que estava vivo, ainda que coberto de gelo e lágrimas, a primera coisa que fez foi tirar um retrato de si mesmo. Não é preciso dizer o quão intensa ficou a fotografia. Algumas semanas depois, esse retrato foi a capa da National Geographic.

Capa Cory RIchards.jpg O retrato de Cory Richards foi uma das capas da edição comemorativa de 125 anos da National Geographic.

Cory Richards conta, no vídeo abaixo, sobre a sua necessidade impulsiva-obsessiva de compartilhar ao menos um pouquinho do que sentiu em determinados momentos. É por isso que ele recorre à fotografia. A cada vez que um leitor se depara com seu retrato na capa da National Geographic e sente um bocado do medo e do alívio que o próprio alpinista sentiu, sua necessidade é saciada.

Richards não busca registrar o momento para guardá-lo, mas sim para plurificá-lo nos olhares dos outros. E essa diferença de intenção é o abismo que separa o grande fotógrafo (o multiplicador de intensidade) do fotógrafo comum (guardador do instante).

A Tribute to Discomfort: Cory Richards from Blue Chalk on Vimeo.

Grandes fotógrafos são raros, mas fáceis de reconhecer. Nota-se de imediato. O olhar deles, numa intensidade incontida, na vida que flameja a partir da pupila... te faz enxergar não só um pouquinho da história por trás das fotos que ele já tirou, mas também faz sentir as marcas deixadas pelas fotos que ele não tirou: suas obras-primas.


Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias..
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