Ana Calazans

Os livros me criaram, a curiosidade me alimenta e o kung-fu me alegra

Uma Religião Chamada Vazio I

Para além de modismos e apropriações, o zen permanece em boa parte um mistério para a mente ocidental. Uma doutrina que é,por sua própria natureza e definição, incomensurável e intransmissível e que escapa a linguagem desmonta por completo nosso mecanismo racionalizante e encapsulado - o único que a maioria de nós conhece. Talvez sejamos avessos a simplicidade da vida e por demais aferrados a nós mesmos para alcançar a beleza luminosa e despida do zen, mas nada nos impede de apreciá-la.


david_maisel-07.jpg Meu primeiro contato intelectual com o budismo zen ocorreu por volta dos 16 anos com a leitura de Introdução ao Zen Budismo de Daisetz Teitaro Suzuki. Minha curiosidade sobre a doutrina, no entanto, era bem mais antiga, parte de meu interesse generalizado por religiões. A inclinação pelas doutrinas orientais foi reforçada por ter lido e relido antes dos dez anos O Fio da Navalha, de Maugham, livro predileto de minha avó paterna e até hoje também um dos meus.

Como latina de herança mediterrânea, hedonista e apegadíssima a meu ego, nunca me senti naturalmente inclinada à ideia de dissolvência do eu tão cara ao zen, mas confesso, não sem um pouco de vergonha, que, a despeito disso, desde a adolescência utilizo aqui e ali “técnicas” zen de forma utilitarista: dispensei duas funcionárias apelando para o zen, por exemplo.

Jung, um portento de bom senso, lucidez e erudição, estava convencido de que adequar a mente ocidental à concepção e estrutura “religiosa” oriental era uma tarefa (quase) impossível; dizia também que falar do zen é sempre cometer um crime contra seu espírito – pois o zen é, por sua própria natureza e definição, incomensurável e intransmissível. Mas, ocidental perfeita e acabada, resultado de séculos de herança grega e judaica, me dou o presente de me contentar com a apreciação ética e estética do zen; sua beleza e simplicidade misteriosa bastam-se para mim, que acredito no Endimião de Keats: a thing of beauty is a joy for ever.

O zen foi forjado na China, mas o uso comum refletiu a sedimentação da doutrina no Japão: a expressão japonesa “zen” deriva da palavra chinesa chan ou ch’an-na, que é uma corruptela do sânscrito dhyana – estado meditativo ou reflexivo em que o praticante experimenta a união com a “realidade” do universo.

A experiência do zen se dá em um plano eminentemente não-discursivo, não-verbal: o que o define é o satori (palavra pobremente traduzida por iluminação). O satori não pode ser descrito em palavras; até mesmo os expedientes da analogia e da metáfora – tão queridos dos místicos ocidentais – não lhe caem bem e foram raramente usados pelos iluminados. Seu “território” psicológico está fora da consciência, pátria do pensamento discursivo – o que bem pode ser entendido por nós como situado num plano não-racional. Os mestres zen levam muito a sério a ideia de que a descrição da verdade não pode ser confundida com a verdade e, por isso, são muito reservados ao expor sua experiência de iluminação, o que se conforma ao caráter não-intelectual da doutrina.

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O zen (ou chan) foi levado para a China pelo monge budista Bodhidharma em algum período entre os séculos V e VI – quase mil anos após Sidarta Gautama ter alcançado o satori sentado sob a figueira[ii]. Filho de um príncipe do Sul da Índia, Bodhidharma se tornou discípulo do patriarca budista Prajnatara (diz-se que Prajnatara era um mestre de vajramushti, arte marcial indiana que alguns historiadores reconhecem como a matriz das demais lutas orientais). Após transmitir a Bodhidharma seus ensinamentos, Prajnatara orientou o jovem monge a difundir o budismo na China. Diz a lenda que ao chegar a China ele primeiro passou pelo Sul e depois foi acolhido pelo mosteiro budista Shaolin nas montanhas de Honan, no Norte do país. Considerado o 28° patriarca de uma linhagem que se inicia com Sidarta Gautama, Bodhidharma é reconhecido também como o codificador do kung fu[iii].

Peregrino do dharma

Conta-se que Bodhidharma passou nove anos meditando em frente à parede de uma caverna próxima ao templo e que, para se manter desperto, cortou as pálpebras (por isso, e para denotar o estado de atenção do zen, ele é sempre representado com os olhos arregalados); suas pálpebras caíram no chão e no local nasceu o chá (linda mitologia que reflete o caráter divino do monge e da planta para os chineses). O mestre deixou apenas três discípulos, Sheng-fu, Tao-yu e Hui-ko; ao último ele transmitiu seu manto e a tigela de sua linhagem – os escritos contam que para ser aceito como discípulo, Hui-ko passou muitos dias na neve e chegou a cortar um braço como prova de sua intenção. Teria também entregue a Hui-ko uma cópia do sutra Lankavatara, um dos mais importantes no desenvolvimento do budismo não só na China e no Japão, como no Tibete.

A abordagem do budismo de Bodhidharma se diferenciava do então praticado na China; ele atuou como um reformador da doutrina, despojando-a do que não era essencial e integrando-a a vida. Sua herança fez mais do que isso: abriu a cortina da religião para a grande obra de Buda, o mundo, e restaurou a capacidade de maravilhamento e de exercício prático do dharma no contato com os outros seres em contraposição à veneração ritualizada e a ênfase na hermenêutica e exegese dos textos sagrados.

Não se sabe até que ponto Bodhidharma influenciou ou foi influenciado. Certamente no monastério Shaolin ele encontrou o ambiente perfeito para moldar as bases do chan. A ritualística e a inclinação pela complexidade e interpretação das escrituras e a tradição de ascese e isolamento dos indianos – herdada do bramanismo e relacionada a imersão mística dos santos hindus – se contrapunham na China a necessidade de uma abordagem mais prática e mais comunal do budismo. Não é descabido supor que a tensão política entre o Sul e o Norte, que marcou o período compreendido entre os séculos III e VI chineses, e o isolamento do mosteiro, tenham sido fatores críticos para direcionar a prática da doutrina para um caminho mais pragmático e integrado ao dia-a-dia dos mestres e aspirantes.

Assim, a mentalidade chinesa e o desenvolvimento do chan aprofundaram a ideia de que o importante não é apenas a iluminação, mas o caminho percorrido para sua conquista aqui, em meio aos homens, na vida diária. A atitude mental do zen pode desta forma ser aplicada da meditação à lavagem de pratos.

Com o passar do tempo os ensinamentos de Bodhidharma foram se mesclando ao taoismo, a grande religião popular da China[iv]. Como destaca Alan Watts, o chan uniu o idealismo imóvel, a serenidade e austeridade do budismo com a poesia e fluidez do taoismo e sua reverência pelo incompleto, o imperfeito e o mutável como reveladores da presença divina da vida no fluxo do tao; até hoje a expressão “tao” é usada como sinônimo da natureza búdica ou dharma (lei). Além disso, a veia bem humorada do taoismo também foi transmitida ao chan.

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“O zen encontrou os seguidores do Mahayana procurando a verdade nas escrituras, em homens santos e em budas, crendo que eles a revelariam, caso vivessem uma vida pura. Uma vez que a aparente humildade humana, que julga que a sabedoria é algo sublime demais para revelar-se nas coisas comuns desta vida, é uma forma sutil de orgulho, intimamente o homem sente que deverá ser tão grande a ponto de retirar-se das coisas do mundo antes que possa receber a verdade, e, em seu orgulho, pensa que só poderá recebê-la dos lábios dos sábios ou das páginas das escrituras sagradas. Ele não a vê nos seres humanos ou nos incidentes da vida diária. Não a vê em si mesmo, pois novamente é muito orgulhoso para se ver tal como é. Ao buscar essa verdade ele oculta as imperfeições sob suas ações meritórias e aproxima-se dos budas por trás de uma máscara.[ ... ] O zen ensina que ninguém pode encontrar Buda num paraíso, ou em qualquer reino celestial, até que primeiramente o tenha encontrado em si mesmo e nos outros seres sensíveis, e ninguém poderá esperar encontrar a iluminação num eremitério, a não ser que possa encontrá-la na vida do mundo. O primeiro principio do Mahayana é o de que todas as coisas, mesmo que sejam vis na superfície e aparentemente insignificantes, são aspectos da natureza búdica, e isso significa que cada ser ou coisa tem de ser aceito; nada pode ser excluído da Terra do Lótus da Pureza como sendo mundano, trivial ou baixo. Como Thomas a Kempis escreveu na Imitação de Cristo: ‘“Se teu coração estiver correto então cada criatura será um espelho da vida e um livro da santa doutrina’.”[v]

O chan teve sua era de ouro na China durante a dinastia T’ang entre os séculos VIII e XIV; a partir do século XV sua influência foi decrescendo – em especial entre as classes populares – dando lugar ao Budismo da Terra Pura e sua devoção por Amitabha[vi] (Amida no Japão), o buda da compaixão.

Continua... ______________________

[i] Em seus primeiros anos na Índia o budismo se dividiu em duas grades correntes, a Mahayana, ou grande veiculo, e a Hinayana, pequeno veículo, também chamada de Theravada. O budismo Theravada, que se expandiu pela sudeste asiático Indochina e Malásia, se baseia na chamada versão pali dos primeiros escritos budistas e tem um caráter doutrinário mais formal e rígido, tendo sofrido pouquíssimas alterações ao longo dos séculos. O Mahayana, por sua vez, é composto por uma série de escritos sânscritos que foram reelaborados, interpretados e enriquecidos com o passar dos anos e se espraiou, dando origem a leituras tão distintas quanto o lamaismo tibetano e o zen.

[ii] O kung fu se segmenta primariamente em duas escolas: a escola interna (tai chi chuan, pakua etc.) deriva da tradição taoista e a escola externa (choy li fut, garra de águia, tong long…) do budismo chan.

[iii] Enquanto o confucionismo permaneceu uma religião de elite, o taoismo era a grande religião das massas chinesas, rica em lendas, mitologia e superstições. Muitos sustentam, inclusive, que Lao Tsé, ou Lao Tzu, tido como o autor do Tao te king, é um ser lendário.

[iv] WATTS, Alan. O espírito do zen. Porto Alegre, L&PM,2010. pp-46-48

[v] Pode parecer confuso para o ocidental a devoção a “vários” budas. O significado mais usual da palavra ”buda” é “o iluminado” no sentido de “desperto”, aquele que acordou do sonho do samsara. Sidarta Gautama encarna todas as “qualidades” do estado búdico, é o buda arquetípico. Mas, assim como ocorre em outras doutrinas e religiões, as divindades, santos e avatares podem se manifestar de formas diversas e com atributos variados; assim Amitabha é o buda da compaixão, Mayttreia o buda messiânico, Amytaius o buda da longevidade, Aksobhya o buda da sabedoria etc. [vi] Para Jung o zen budismo é extremamente heterodoxo, sendo uma espécie de heresia no seio do budismo


Ana Calazans

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