Ana Calazans

Os livros me criaram, a curiosidade me alimenta e o kung-fu me alegra

Chan, o Dharma da Natureza

O Chan,ramo do budismo chinês que originou o Zen no Japão, foi uma reação contra o formalismo dogmatico que havia afastado os fiéis da pureza dos ensinamentos originais de Buda.


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A escola bebe da essência revelada no Sutra do Lótus, em que Sakyamuni segura uma flor sem nada dizer e é compreendido apenas por Mahakasyapa: a luz da verdade é "trivial" e pode ser encontrada ao redor e dentro do homem. Este artigo é uma pequena reflexão recortada do imenso caudal do Chan e não trata da análise doutrinária e nem de um de seus traços mais distintivos, a ideia de iluminação repentina ou satori imediato.

O Chan, “pai e mãe” do Zen japonês, é um dos oito ramos[1] do budismo chinês. Seu nome advém da transliteração da palavra sânscrita Dhyana, que significa “pensar em quietude”, “reparar os pensamentos”. A história do Chan está diretamente ligada à história Shaolin. O Templo Shaolin foi construído pelo imperador Xiaowen em 495 DC entre as montanhas Shaoshi e Songsham, província de Henan. O monge indiano Batuo tornou-se seu primeiro abade e ensinou a seus discípulos o Budismo Theravada.

Anos depois, o monge Bodhidharma chegou ao mosteiro e transmitiu o Mahayana (Grande Veículo). Pragmático, Bodhidharma acreditava que a ênfase da prática não deveria recair sobre as escrituras, mas ser prioritariamente uma experiência existencial exercida no dia-a-dia. Os ensinamentos do patriarca foram a semente que fez florescer o ramo Chan do Budismo chinês transmitido oralmente a seus discípulos e sucessores.

Depois de Huineng, o sexto grão-mestre, a tradição passou a ser ensinada a um maior número de pessoas e o Chan foi dividido em vários ramos, dos quais apenas as escolas Linji e Caodong ainda existem. A idade do ouro do Chan no pensamento chinês cobriu cerca de quatrocentos anos (mais ou menos do século VIII ao século XII.

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Um dos traços distintivos do Chan é seu afastamento de uma prática ritualizada e canônica. Tanto o legado de Bodhidharma, como a reforma instigada pelos seguidores de Huineng no século VIII, insistem na necessidade do discípulo priorizar a letra viva, as lições da vida, em detrimento da exegese dos textos sagrados e das práticas devocionais. Estar atento ao chamado da natureza e à comunicação entre suas manifestações telúrica, intersubjetiva e do plano espiritual é a forma de percorrer o “Caminho” do Chan. Mas o credenciamento da experiência rotineira como uma via para o sagrado passa necessariamente por eixos bem consolidados na doutrina, como a insistência no autoaperfeiçoamento e na autoresponsabilidade, a integração no fluxo da natureza, o não-julgamento e o exercício da compaixão.

O Chan não acredita que a iluminação advém de algo externo ao mundo e ao próprio individuo (em linguagem cristã, não é adepto da doutrina da graça). Ela é o resultado de um longo processo que inclui erros e acertos, um aprendizado baseado na livre escolha; neste sentido é uma doutrina humanista, pois cabe unicamente ao sujeito ser seu próprio mestre. A pura e simples crença em Buda não vai levar ninguém à iluminação, nada externo virá salvar o homem, a luz está dentro dele, assim como a seu redor.

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Um dos traços do Chan é a forma como trata a questão causal. Ele não é determinista ou fatalista, posto que defende o auto-empoderamento e a autodeterminação, mas, assim como os hinduístas, seus adeptos sustentam que os atos, pensamentos e sentimentos são expressões da mente do homem que, necessariamente, provocarão efeitos adiante.

A ideia parece trivial, mas encerra um ponto chave: o de que nossas vidas são uma obra nossa e de mais ninguém; uma ideia que elimina todo sentimento de vitimização e de transferência de responsabilidade por nossa felicidade e futuro. Não importa se ao executarmos ou pensarmos algo – quer seja bom ou mau – isso seja feito de maneira publica ou privada, seus efeitos virão inexoravelmente. O Chan prescreve a autorregulação moral; uma ética altamente sofisticada e profunda. Nosso maior “ativo” é nosso Eu, se ele estiver em harmonia com o Dharma vamos não só conseguir viver sem negatividade, como expandir esse presente à nossa volta. O Dharma para o Chan significa “natureza”. E estar em harmonia com a natureza aqui significa abstrair o véu de maya e entender que os conceitos de bem e mal são forjados por nossa mente. Estar aberto ao fluxo da vida significa estar atento e se comunicar com todas as suas dimensões exteriores, os outros seres e o mundo natural, e interiores buscando a isonomia entre a energia espiritual, mental e física.Entender o corpo como uma parte sagrada de nosso Eu é um grande legado do Chan que, nesse ponto em particular, sofreu uma influência ainda maior do taoismo e do confucionismo, doutrinas menos formais e mais pragmáticas.

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O Chan adota uma postura quase amoral e antidogmática em sua relação com o mundo. Não há praticamente resquício de maniqueísmo: o encontro com um homem mau pode trazer sabedoria, um momento de felicidade pode nos impedir de realizar o ato justo. É também uma doutrina radicalmente iconoclasta; muitas correntes e mestres – em especial nos séculos VIII e IX – chegaram a pregar uma rejeição completa do Buda e dos ensinamentos e estimulavam a critica a seus próprios preceitos: “Se uma pessoa [de tanto meditar] fica com a mente vazia, não vale a pena falar com essa pessoa”, costumava dizer um mestre do século VIII.

Ao contrario de outras religiões que pregam que a sabedoria está no além, para o Chan mundo é um espaço de conhecimento inesgotável que pode estar tanto num sutra como no trabalho de quebrar pedras. A escola prega a integração e a troca amorosa entre o homem e o universo e está centrada no desenvolvimento da virtude; na persistência da prática moral, intelectual e espiritual na vida cotidiana, seja em tempos normais, de alegria ou tristes e confusos.

Um poema Chan do mestre Hsu Yun.

O Coração de Buda

Não é preciso ir e vir como as ondas

A mesma água que vem é a que vai

Não é preciso voltar-se para achar a água

Quando ela flui a seu redor em todas as direções

O coração de Buda e as pessoas do mundo

Onde está a diferença?

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[1] Os outros ramos são o Tiantai o Sanlun, o Faxiang, o Lu , o Jingtu, o Huayan e o Mi.


Ana Calazans

Os livros me criaram, a curiosidade me alimenta e o kung-fu me alegra.
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