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Ambiental, sustentável e o que mais couber em uma mente complexa

Marcel da Silva

A "Insustentável" História do "Love Canal"

O resumo de um triste capítulo da história americana, que ainda hoje, nos traz reflexões sobre a forma com que tratamos os resíduos perigosos e as consequências que tais ações (ou falta delas) podem nos trazer.


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O ano era 1892, com a crescente demanda das industrias e a procura cada vez maior de lugares que pudessem oferecer espaço para expansão e sobre tudo próximo a fontes hidráulicas (o que era um requisito básico na época para instalação de qualquer indústria nos EUA), William T. Love, viu a chance de criar uma cidade industrial totalmente planejada aos arredores do Niagara Falls, no Estado de Nova York. A Ideia de Love era criar uma ligação entre a parte baixa e a parte alta do Rio Niágara, desta forma ele obteria um canal de aproximadamente 9,6 km de extensão e 85 m de profundidade, o que geraria uma cachoeira artificial, para obtenção de energia barata. Love conseguiu o apoio do governo e de instituições financeiras. Seu projeto abrigaria 600 mil pessoas.

Em 1893, teve início a operação da primeira fábrica na região e em maio do ano seguinte empresas de siderurgias começaram a realizar construções no decorrer do canal. Contudo, devido à crise que teve início em 1891, Willian Love viu seu sonho fracassar. A perda do apoio de empresas e financiadores levou Willian a hipotecar a região de canal. O que sobrou foi uma grande escavação, que por um bom tempo serviu de local para recreação e práticas de esportes, como natação em períodos de chuva e patinação em períodos de nevascas.

Em 1920, o canal foi adquirido pela empresa Hooker Chemical Co. e tornou-se um perigoso depósito de resíduos químicos, que também era usado pelo Exército americano para despejo de resíduos de armamento químico, bem como, por outras empresas químicas, já que este ramo havia se tornado a base da economia da região naquele período. Estima-se, de acordo com dados dos anos 70 do Departamento Estadual do Comércio de NY, que 9 grandes empresas e cerca 5.267 funcionários estavam situados na região no período. Entre o período de 1942 e 1953 foram depositados mais de 21 mil toneladas de produtos químicos. Compostos como DDT, solventes, PCB, dioxinas, metais pesados, entre muitos outros, não só tinham o contato direto com o solo - gerando reações com o meio ambiente - como também reações químicas entre si, o que resultava em novos tipos de substâncias com efeitos desconhecidos. Quando o local atingiu sua capacidade máxima, a Hooker apenas cobriu o canal com uma camada de terra e abandonou local.

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O terreno permaneceu abandonado até 1950, quando houve uma crescente ocupação populacional, o que trouxe a necessidade imediata da criação de uma escola para o local. Cinco anos depois, o Conselho Escolar do Estado de NY viu no promissor terreno de Hooker a possibilidade de criação da tão aguardada escola. Em uma negociação duvidosa, a empresa vendeu o terreno do antigo canal para o governo, por míseros 1 dólar, e a escola foi construída. Segundo informações posteriores, no contrato de vendas, havia uma claúsula que eximia a empresa de qualquer responsabilidade futura envolvendo a saúde ou até morte de qualquer pessoa pela contaminação dos produtos químicos ali enterrados.

Do período de 1950 à 1970 eram comuns relatos de pessoas que sentiam cheiro forte de produtos químicos ou substâncias estranhas que vertiam perto ou em seus próprios quintais. A prefeitura, atendendo as queixas cada vez mais recorrentes, cobriu as tais “substâncias” com solo, julgando assim, ter solucionado o problema.

Na época havia cerca de 800 casas privadas e 240 apartamentos de baixa renda construídas ao redor do canal. A escola ficava próximo ao centro do antigo aterro, no terreno vendido por irrisórios 1 dólar. É claro que o problema do aterramento nunca tinha sido resolvido por completo, o mau cheiro continuava e produtos estranhos continuavam vertendo do solo. Foi só após anos de reclamações que o Conselho Municipal contratou um consultor para investigar a região e toda a problemática que poderia estar relacionado a isto. Em 1976, foi concluído um estudo da área próxima ao canal, o estudo encontrou resíduos químicos em elevado nível tóxico nas bombas de ar e em porões de um grande número de casas no extremo sul do canal. Eles encontraram logo abaixo da superfície, no sistema de galeria de águas pluviais, um número elevado de PCB. A empesa responsável pelo estudo sugeriu que toda a área fosse coberta por uma camada de argila, e que as bombas de ar de todas as casas fossem lacradas. No entanto, nada foi feito pela prefeitura.

Com os resultados obtidos, o Departamento de Saúde do Estado de Nova York começou a coleta de amostras de ar e do solo e um estudo com 239 famílias que residiam nas imediações do canal. Como conclusão, o Departamento encontrou um aumento em problemas reprodutivos entre as mulheres e altos níveis de contaminantes químicos no solo e no ar.

Diante das conclusões obtidas pelo departamento, os moradores da região criaram uma associação para dar voz a crise ambiental e mostrar o risco que estavam expostos. A líder do movimento era a dona de casa Lois Gibbs, que entrou na causa pelos direitos dos moradores logo após desconfiar que o problema de saúde de seus filhos poderia estar ligado ao local da escola onde estudavam –a primeira escola da região, construída em cima do aterro do Love Canal, em 1960.

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Gibbs, enfrentou longas batalhas com o Governo. Após uma intervenção da Secretaria da Educação impedindo ela de transferir seus filhos com problemas de saúde para outra escola, Gibbs decidiu se unir com outros pais, e se surpreendeu com a quantidade de crianças que, assim como seus filhos, também passavam por sérios problemas de saúde e teve certeza que todo o local estava contaminado, foi nesse momento que o movimento ganhou força.

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Em 2 de agosto de 1978 a Secretária de Estado da Saúde de Nova York emitiu uma ordem de saúde autorizando o fechamento da Escola, a evacuação imediata de mulheres grávidas e crianças menores de 2 anos do local, uma recomendação para que os moradores não se alimentassem do que era colhido de suas hortas e não entrassem em seus porões ou passassem o mínimo de tempo, caso fosse necessário. Apenas 2 dias após a emissão da ordem de saúde, o Governo havia comprado 239 casas, localizadas no entorno do Love Canal.

O Governo montou uma força tarefa para realizar a relocação dessas famílias e dar continuidade aos estudos ambientais da região, bem como, os estudos da saúde dos moradores. O estudo envolvendo a saúde dos moradores constatou um aumento de abortos, natimortos, crises nervosas, hiperatividade, epilepsia e distúrbios no trato urinário dos moradores. O estudo envolvendo o impacto ambiental causado pelos produtos químicos, identificou mais de 82 tipos de compostos químicos, 10 desses considerados potencialmente cancerígenos.

Em outubro de 1980 foi ordenado a evacuação total da comunidade, pelo então presidente Carter, com a garantia de um local adequado para estas famílias e o valor justo de mercado pego pelos terrenos adquiridos. Aoenas 8 anos depois, a região que havia passado “por uma limpeza ambiental” já era considerada “habitável”, o que não pode ser considerada como “segura”. Muitos terrenos já estavam abertos para venda a partir deste ano.

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A história relatada acima pode nos servir como um ótimo exemplo do que acontece no nosso cenário ambiental atual. Problemas e erros cometidos no passado –nem tão distantes assim- vem à tona diariamente, como uma “bomba de chorume” semelhante ao do Love Canal. Os acontecimentos no Niágara Falls, abriram a visão do povo americano e até do mundo, sobre a forma que os nossos resíduos perigosos são despejados.

Outro fato a ser mencionado, é a forma com que os moradores foram tratados, afinal de contas, em nenhum momento a comunidade do Love Canal ficou sabendo, antes da compra dos terrenos, que o local que haviam escolhidos para fixar moradia havia sido um depósito de resíduos químicos, nem a empresa que havia vendido o terreno, nem o Governo local, que havia adquirido o terreno, mencionaram tal fato para os compradores.

Mas podemos tirar conclusões positivas dos acontecimentos em Niagara Falls. Quando há união de pessoas com o mesmo intuito e focadas no mesmo objetivo, há sim, grandes resultados. Por mais que houvesse certa negligencia das autoridades locais, ou mesmo falta de maiores interesses -para se eximir de qualquer culpa- as manifestações obtiveram efeito e foram vistos por autoridades ainda maiores, no caso, o presidente do país.

Para concluir, entendo que a mensagem do Love Canal é clara, na natureza tudo está intrinsecamente ligado, e uma ação feita agora tem resultado futuro, mais cedo ou mais tarde. Não adianta jogarmos a sujeira para baixo do tapete. Se não reciclamos nossos resíduos perigosos, a natureza encontrará uma maneira de fazer isso, mas com consequências que fogem do nosso controle. O preço de 1 dólar, gasto pelo governo para compra do terreno, tornou-se, hoje, mais de 1,6 Bilhão de dólares, gastos com limpeza do local, saúde dos moradores e compra de terrenos para realização da evacuação.

O negócio valeu a pena?


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