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Murillo Jorge

Jornalista e apaixonado por música desde sempre. Flerta com cinema e cultura em geral. Ouve muito mais música do que é recomendado.

Álbum da Semana - Almanaque (Chico Buarque)

"Almanaque" é o relato de várias personagens em um trabalho só. É a prova que um grande músico não precisa ser apenas ele mesmo e pode sim projetar-se em outras situações, sem perder sua essência e genialidade.


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Chico Buarque é um expoente da música popular brasileira. Sua discografia é completa e diversificada. Suas canções foram regravadas por inúmeros intérpretes e em diversas línguas, mas as versões originais, com a voz aparentemente fraca e frágil de Chico, tem sua magia e carregam toda sua essência. “Almanaque” foi lançado em 1981 e teve participação de grandes nomes da música brasileira, como Toquinho, Francis Hime, Edu Lobo e Miúcha. É um trabalho com nove faixas mais do que agradáveis de se ouvir. No álbum antecessor “Vida”, Chico já havia explorado diversos estilos e viajou entre bossa nova, choro e samba. Teve sucesso. A faixa homônima ao álbum era o carro chefe de um trabalho premiado que fez parte de trilhas sonoras cinematográficas, emplacou o topo das paradas e contou com regravações de vários músicos.

Sendo assim, a expectativa para o álbum seguinte era grande. E Chico Buarque conseguiu produzir em um tempo curto outro álbum excelente. Além de ter um encarte bem trabalhado, “Almanaque” é caracterizado por possuir músicas marcadas por personagens, muitas vezes ordinárias ou pitorescas. Chico faz isso magistralmente por ter experiência em obras teatrais, como é o caso de “Roda Viva”, “Gota D’Água”, “Ópera do Malandro” e “O Grande Circo Místico”. Essa mescla entre músicas, roteiro e personagens faz com que haja identificação. Todas as faixas possuem histórias e dramas. Chico transforma-se em várias pessoas que cantam para um álbum só. Ele é um homem apaixonado e não correspondido que segue sua amada pelas galerias, em “As Vitrines”. Depois, é um funcionário apaixonado por uma dançarina, em “Ela é dançarina”. Passa a ser mãe inocente, em “Meu Guri”. Relata as brigas e traições envolvendo “A Voz do Dono e o Dono da Voz”. Passa a ser questionador de tudo “Almanaque” e interage com uma menina que nunca lhe dá respostas. Transforma-se então no amor de uma mulher que é, minimamente, diferente em “Tanto Amar”. Volta a ser mãe em “Angélica”, e canta para o filho que lhe foi levado. Ama desesperadamente em “Moto-Contínuo” e termina sendo um homem cantor e sincero que compõe sobre seu “Amor Barato”. Chico é completo em “Almanaque”. Ele surpreende e passar a não ser mais um cantor, apenas. Com isso, o trabalho passa a ser referência como interação do autor com sua obra. Um autor que é mutável e indefinível, colaborando para que o resultado final seja algo diferente e inovador. Na discografia do músico, são comuns as personificações e projeções, mas em nenhum deles são tão bem feitas, envolventes e marcantes como neste álbum. É realmente um almanaque. Que representa uma parte pequena mas importante da grande obra de Chico Buarque.


Murillo Jorge

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