os álbuns nossos de cada dia

Tudo que ouço, me identifico, consumo e admiro; transformado de música para palavra

Murillo Jorge

Jornalista e apaixonado por música desde sempre. Flerta com cinema e cultura em geral. Ouve muito mais música do que é recomendado.

Revolver e minhas lembranças

Revolver foi mais do que um álbum dos Beatles, para mim. Teve influência na minha paixão pela música e nas minhas lembranças.


Revolver.jpg É sempre complicado falar de Beatles. São inúmeras as críticas, resenhas e estudos com argumentações e dados levantados por especialistas. Por isso, esta não é uma resenha com argumentações e estudos relacionados a linhas melódicas, contextos históricos, curiosidades etc. É um relato feito por uma pessoa apaixonada e que teve seu primeiro contato, pelo menos o que se lembra, com a música justamente por um álbum dos Beatles. Eu tinha perto dos meus seis anos quando meu pai colocou o álbum azul, coletânea de 1967 a 1970, na vitrola empoeirada que tinha. Era um final de tarde e o apartamento que morávamos tinha uma sala relativamente espaçosa. “Ouça com atenção, filho. Essa banda tem músicas lindas”.

Meu pai sabia o que falava naquela hora, e lembro que a música que mais me atraiu a atenção, sob meu olhar crítico-musical-infantil, foi “Hello, Goodbye”, a segunda faixa do lado dois. Meu velho tem vários vinis, que influenciaram diretamente em meu interesse musical. Mesmo pequeno, pegava os “bolachões” na estante e colocava na vitrola. Principalmente os dos Beatles e, principalmente, o álbum azul. Depois disso, fui crescendo e aprendendo/descobrindo a música. Já não era mais criança e tinha tido o privilégio de ouvir muita música desde muito cedo, mas minha paixão desde sempre foi o quarteto de Liverpool. Passei por Help, Rubber Soul, Let it Be e Abbey Road (bem nesta ordem, e infelizmente não mais em vinil)... E quando já tinha meus 16 anos tinha ouvido tudo deles, e não falo isso para me vangloriar. O fato de sempre estar acompanhado de meu pai me orgulha sim; e demais. Ouvíamos tudo dos Beatles, preferencialmente nos finais de semana, e o tempo parecia interminável. Por isso digo que a música vai além de ouvir: é interagir, é viver e lembrar-se de momentos vividos que foram embalados por elas. Lembro que entre essas idas e vindas pela discografia do grupo, me deparei com um álbum que me chamou a atenção mais do que todos os outros e coincidentemente era o último que me faltava na época para completar os álbuns de estúdio dos Beatles: Revolver. Lembro-me de ter ouvido algumas faixas que foram colocadas em coletâneas, mas confesso que o efeito delas, contextualizadas e naquela ordem, me encantaram e me encantam até hoje. De todos os trabalhos feitos por eles, o álbum com a capa em preto e branco com os rostos desenhados dos membros da banda e colagens de suas fotografias é meu grande amor. Meu pai discorda e define dois como seus preferidos: Abbey Road e Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. O último “é um divisor de águas; é genial e uma obra-prima incontestável”, segundo meu velho especialista. Concordo. Não há como negar. Mas sempre fui do parcialmente do contra. Por isso escolhi Revolver como meu exemplo de genialidade dos Beatles. E acredite: muitas pessoas concordam comigo. E pasmem: as opiniões variam, pois eles foram tão bons que não é incomum você perceber que em um grupo de dez fãs, sete tenham álbuns preferidos diferentes. O baixo de “Taxman” é a representação clara da qualidade, agilidade e destreza de Paul. “Eleanor Rigby” é o encontro perfeito entre vozes, harmonia, melancolia e melodia. “I’m only Sleeping” é uma grande viagem musical, ora alta, ora baixa; como uma grande montanha russa até chegar ao refrão. “Love you To” é o início do flerte com o misticismo, psicodelia e a cultura indiana, tão presente depois na vida de alguns Beatles. “Here, There and Everywhere” é uma música que todo marido/noivo/namorado deveria mandar/cantar/tocar para sua companheira; delicada, simples e puramente romântica. “Yellow Submarine”, é uma música feita para todos: para crianças, para cantar com os amigos, para os momentos de felicidade compartilhada e de alegria. “She Said she Said” é potente e marcante, foi escolhida por mim como minha segunda música preferida dos “meus amigos que nunca conheci”. Tudo nela soa maravilhoso: desde a guitarra no início, até as vozes se juntando nos pontos altos da música. “Good Day Sunshine” e “And Your Bird Can Sing” passam os mesmos sentimentos de “Yellow Submarine”. Poderiam ser até a mesma música. E então vem a faixa que realmente confirmou que aquele seria o meu álbum preferido dos Beatles: “For no One”. Por diversos motivos, levarei algumas frases por toda minha vida. Pensei na hora: “ela sim, merece ser a minha faixa preferida no meio de tantos trabalhos geniais”. Ela não é uma faixa que foi super produzida, e é justamente isso que a torna especial. A letra melancólica e o ritmo leve, me passa a impressão de que toda tristeza é passageira (principalmente a amorosa, como é abordado) e que tudo irá se dissipar levemente, como no final da música. Me marcou e considero aquela música que todos temos como “uma (música) feita pensando em nós”. O álbum segue com “Doctor Robert” e sua multiplicidade de interpretações, característica que o grupo gostava muito. “I want to tell you” é agradável pela sobreposição de vozes e pela linha de baixo firme e precisa. A faixa seguinte, “Got to get you into my Life”, passa a mesma impressão, porém com os metais fazendo um grande trabalho ao fundo. Fechando, vem “Tomorrow never knows”, que também segue o princípio da psicodelia, até então pouco experimentado pelo grupo. É uma faixa de encerramento. Vai a ritmo lento até ter um final que passa de confuso, parecido com interferências e colagens musicais, até o algo leve e marcado por um piano. E assim termina o Revolver e sua jornada. Toda vez que o ouço, é como se fosse a primeira. Pode ser porque ele condensa todas minhas lembranças em relação ao grupo, porque remete ao gosto musical de meu pai, por ter sido feito pela primeira banda que fui realmente fã, por ter marcado minha adolescência... São diversos fatores. Só tenho que agradecer por poder ter encontrado um álbum com o qual me identifico tanto e que praticamente fala por mim. Ironicamente, é o que menos ouvi com meu velho. Talvez, por marcar uma fase na qual deixei de ser a criança que simplesmente ouve música, para ser o homem que ama e aprende com ela.


Murillo Jorge

Jornalista e apaixonado por música desde sempre. Flerta com cinema e cultura em geral. Ouve muito mais música do que é recomendado..
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