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Murillo Jorge

Jornalista e apaixonado por música desde sempre. Flerta com cinema e cultura em geral. Ouve muito mais música do que é recomendado.

Duas visões sobre a mesma Laranja

Laranja Mecânica carrega dois finais geniais dentro da mesma história e nós podemos escolher qual nos agrada mais.


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Laranja Mecânica é um clássico do cinema e da literatura. Lançado na Europa em 1962 e no Brasil em 1971, o livro escrito por Anthony Burgess causou grande furor na opinião dos críticos. Falava de um jovem delinquente chamado Alex que liderava seus druggies, uma gangue que furtava, estuprava e fazia uso de todo tipo de violência horrorshow. Nem é preciso falar que a temática abordada pela obra foi um golpe forte, ácido, irônico e cínico à sociedade inglesa e ao mundo da época.

Tudo no livro era diferente, incluindo o vocabulário nadsat criado por Burgess. Era uma mescla de elementos linguísticos do subúrbio inglês com a língua russa. A genialidade do enredo, das personagens e do contexto histórico, atraiu a atenção de outro gênio, mas das telas.

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Stanley Kubrick, que carregava em seu histórico da época filmes como Lolita e o premiado 2001: Uma Odisseia no Espaço adaptou o livro para o cinema em 1971. A atitude podia não ser bem vista por muitas pessoas que preferem os livros ao invés das produções cinematográficas por estes possuírem mais riqueza e fidelidade à história. Felizmente, isso não se aplica à Laranja Mecânica.

Kubrick fez um excelente trabalho com base no livro homônimo. Deu vida aos personagens e contou com a espetacular ajuda de Malcolm McDowell, que transformou-se em figura insubstituível do vilão/herói Alex DeLarge. Porém, um ponto da originalidade e fidelidade à obra literária foi violado pelo diretor.

O enredo seguia fiel até seu final. Depois de passar pelo pioneiro tratamento Ludovico, que prometia uma nova socialização ao criminoso, Alex se vê “curado socialmente”.

Exposto a filmes violentos, cenas chocantes e violência de modo geral, ele é condicionado a repelir toda manifestação vinda daquele comportamento, ficando vulnerável e passando mal toda vez que era submetido a uma pressão de cunho violento.

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Teve sua mente lavada.

Depois de adquirir aversão aos atos que cometia e até a 9ª Sinfonia de Beethoven, da qual tanto gostava, o protagonista se vê impotente ao ser aprisionado por um senhor que teve a mulher molestada por ele e seus druggies antes de Alex ser preso. A cena do estupro, uma das cenas mais chocantes do cinema por ser representada com tanta naturalidade e veracidade, é lembrada até hoje.

Buscando vingança, o senhor tortura Alex mentalmente, que desesperado, tenta suicídio e falha. Quando acorda no hospital vê que sobreviveu e agora é tido como herói.

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O Ministro do Interior, um dos que era favorável ao tratamento usado em Alex, se desculpa e oferece trabalho ao protagonista, na tentativa de apagar a má imagem por apoiar o experimento.

Até este momento, as histórias eram iguais.

No livro, o jovem sai do hospital e tem tempo para rever algumas coisas que fez durante sua pequena saga. Volta a ser líder de outro grupo, mas aparentemente perdeu sua essência. Está mais sensível, mais maduro e mais crescido, mas isso será percebido com a leitura atenta ao final do livro.

Alguns pontos são ressaltados por Burgess e, trocando em miúdos, há um arrependimento do autor que é refletido no protagonista. Chega-se a conclusão, de que foi apenas uma fase ruim, aliada à pré-adolescência, e que Alex cresceu.

É então que aparece o lado ainda mais crítico de Kubrick. No filme, não há a saída do hospital, esse regresso e esta conclusão. Alex, deitado na cama, é alimentado na boca pelo Ministro. O ato é acompanhado de perto pela mídia, que registra tudo. O ar debochado da personagem faz sentido.

Ao fundo do quarto, mesmo com uma multidão de fotógrafos e repórteres, ele se vê fazendo sexo com uma mulher, em meio a uma espécie de reunião de cavaleiros. Uma orgia ao som da 9ª Sinfonia de Beethoven, que até então lhe causava transtornos e náuseas.

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A genialidade de Laranja Mecânica está aí. Os dois finais, tanto do livro quanto o do filme, são coerentes. Mas muitos, como eu, preferem o filme por ser mais interpretativo. O ponto de vista é mais claro. É muito difícil mudar a essência de uma pessoa. No caso, Kubrick quis passar que Alex era uma pessoa violenta em todos os sentidos por natureza. A nossa essência é, então, incorrigível.

O fato de se tentar corrigir também é botado à prova pelo diretor. Se devemos ser como somos, qualquer ato que tomarmos pode ser considerado justificável. Outro ponto levantado por ele: Alex atua como pessoa boa para ser socializado novamente. Essa atitude de reprimir sua essência lhe rende frutos e status, como o que lhe foi oferecido, quando na verdade o protagonista possuiu o caráter deturpado.

Então, até que ponto todos nós atuamos? Não será comum que todos escondam suas essências para se adequar socialmente? Nós somos pessoas realmente boas? Somos totalmente verdadeiros? Se houvesse a possibilidade de expor o que pensamos e queremos, isso seria feito por todos e seria aceito?

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O livro já carrega a visão positiva de que todo mal pode ser corrigido, independente do que seja feito. Foi uma fase, que estranhamente, passou para o protagonista.

De ambas as interpretações, a de Kubrick faz mais sentido por não ter compromisso em ser politicamente correta e é mais sólida. Apesar disso, não há a menor importância em de discutir qual é melhor.

Devemos apenas concluir que só uma obra como Laranja Mecânica poderia ter dois finais tão distintos escondidos em uma mesma história.


Murillo Jorge

Jornalista e apaixonado por música desde sempre. Flerta com cinema e cultura em geral. Ouve muito mais música do que é recomendado..
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