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Tudo que ouço, me identifico, consumo e admiro; transformado de música para palavra

Murillo Jorge

Jornalista e apaixonado por música desde sempre. Flerta com cinema e cultura em geral. Ouve muito mais música do que é recomendado.

O Tyler Durden que todos nós temos

Até que ponto as nossas decisões são apenas nossas? Podemos escapar dos modelos de vida que nos são impostos? Tyler Durden teve sua resposta e nós também temos as nossas.


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Tyler Durden é uma personagem muito conhecida por apreciadores do cinema e de livros. Protagonista de “Clube da Luta”, nas telas e no papel, ele é um híbrido de herói, vilão e anti-herói.

Questionador da sociedade, ele mostra uma postura de revolta com relação a tudo que a sustenta. Tentando quebrar as correntes que são impostas por ela, Tyler faz uso da violência e anarquia, deixando de ser um questionador, para derrubar um sistema que o sufoca. Com um projeto que cresce de modo gigantesco, ele deixa de ser apenas um cidadão comum para ser um líder que acredita que o caos é a melhor resposta.

A questão que quero levantar não envolve os meios usados, principalmente por se tratar de um roteiro irreal, ou até as visões políticas, mas sim as afirmações feitas pela personagem em relação ao que o “sugerem” a consumir e ser. “Você não é o seu emprego, nem quanto ganha ou quanto dinheiro tem no banco, nem o carro que dirige e nem o que tem dentro da carteira, nem o uniforme que veste”.

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A ideia de sugestão na sociedade atual é controversa. Até que ponto nós temos tantas opções e ao mesmo tempo não temos nenhuma? A personagem acredita que somos livres, mas a liberdade nunca é plena. Desde quando beleza (que já é relativa por si só), dinheiro e empregos com cargos de importância são condições básicas para a felicidade? Diz ele. Com isso, caímos na armadilha de sermos supostamente livres para seguirmos o que nos é estipulado como o caminho para a felicidade.

Mas a sociedade de Tyler, que não coincidentemente é igual à nossa, esquece que a felicidade é relativa. Ela varia de pessoa para pessoa. A minha felicidade não é a mesma que a sua, e isso é normal. Acontece porque somos únicos.

Nós somos bombardeados diariamente com estereótipos em todos os meios nos quais convivemos. Existem conceitos de beleza, de cultura, de conhecimento, de família, de carreira profissional, de sucesso e de qualidade. Mas nós (ainda bem) não seguimos todos eles.

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Caso não tenha sentido claro, todos nós temos um pouco de Tyler Durden em nosso interior. Isso acontece também, porque somos seres de opinião. Mesmo com diversas fórmulas já estipuladas, fazemos as nossas próprias. Sendo assim, a nossa felicidade, de fato, é nossa. Ela foi produzida por nós mesmos seguindo nossos critérios, não os impostos.

De muitas personagens que conheci, Tyler foi uma das mais fascinantes. Ele mostra o conceito de não haver conceito. O fato de você ser único (do pior modo possível, segundo a opinião dele) e abre nossos olhos para algo que muitas vezes não percebemos.

Até que ponto as minhas escolhas são minhas e de que modo sou afetado por elas? Apesar disso, ele esquece que também há uma influência em não sermos influenciáveis. Só de tomarmos a atitude de resistir ao que nos é colocado como certo a ser seguido, estamos sendo influenciados por esse discurso. E tudo isso apenas nos levará a uma discussão filosófica que não tem fim.

Na minha simples opinião, o segredo é fazermos tudo que quisermos. Simplesmente por não haver certo ou errado, bonito ou feio. O que importa realmente é o que levamos conosco e podemos chamar de “nosso”, mesmo que este “nosso” possa estar um pouco presente em todo mundo.

Resta agradecer a Tyler por expor a linha de pensamento e filosofia que nos mostra que seguir é errado e só nos leva ao lugar comum e à frustração. E que mesmo sendo únicos, temos sempre algo em comum. Devemos lembrar que assim como ele, temos todo o direito de ir contra a “vida comum”, errar muito e com isso construir nosso próprio caminho.

Como está o Tyler Durden que você tem?


Murillo Jorge

Jornalista e apaixonado por música desde sempre. Flerta com cinema e cultura em geral. Ouve muito mais música do que é recomendado..
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