os álbuns nossos de cada dia

Tudo que ouço, me identifico, consumo e admiro; transformado de música para palavra

Murillo Jorge

Jornalista e apaixonado por música desde sempre. Flerta com cinema e cultura em geral. Ouve muito mais música do que é recomendado.

Clube da Luta e o relato de um jornalista

O que acontece quando o jornalista encontra com personagens marcantes do cinema? O conto abaixo é um diário que narra um desses encontros inusitados, que unem a ideia de mundo real e mundo cinematográfico, convergindo e se relacionando diretamente.


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O restaurante no qual agendei minha entrevista com o idealizador do até então secreto Clube da Luta, Tyler Durden, é esfumaçado e sujo. Apesar de contar com umas 14 mesas, fora o balcão, o lugar não está tão cheio essa noite.

Assim que entro, sou recebido pela indiferença do atendente: um homem gordo, de uns 45 anos, bigode cheio e grisalho, calvo, regata manchada e com um pano na mão, que limpava o interior de um copo fosco, de tão sujo que estava.

- Gostaria de falar com Tyler Durden... – Disse eu.

O senhor não me diz nada. Apenas aponta com a mão um lugar bem ao fundo do restaurante, no lado direito. A iluminação é tão precária que só vejo um contorno nas sombras.

Agradeço de modo polido e me dirijo até a mesa. Nesse pequeno caminho, sou observado de perto pelo público do local.

Motoqueiros de cara feia, prostitutas com maquiagens borradas e mais outros tipos nem um pouco simpáticos acompanham meus passos até chegar a mesa.

- Boa noite, jornalista. – Diz a voz na penumbra. – Por favor, sente-se.

- O senhor é Tyler Durden? – Pergunto.

- Eu mesmo. É um enorme prazer. – E me estica a mão para um aperto firme quando sai dar sombras.

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Tyler é comum. Delgado e de estatura média, tem inúmeras escoriações e roxos na face e as mãos feridas, como se tivesse tomado uma surra faz pouco tempo.

- Sobre o que iremos falar? Sobre mim? – Disse ele sendo direto e levando a garrafa de cerveja ao lábio cortado. Deu uma pequena risada que quase fez com que o líquido que estava dentro de sua boca caísse.

- Quero falar com você sobre o Clube da Luta, senhor Tyler. Todos estão comentando sobre clubes clandestinos de lutas que estão sendo espalhados pela cidade.

Ele sorri e me olha demoradamente. Depois, começa a falar:

- Primeiro: não me chame de “senhor”. Não sou tão velho assim. Apenas apanhei demais da vida. Segundo: infelizmente, não posso lhe ajudar. – Diz ele, sem perder a calma e sem aumentar o tom de voz.

- Como assim não pode? Tenho fontes que garantem que o senhor é o idealizador do clube e que está até planejando algo maior!

- A segunda parte eu confirmo. – Diz ele ironicamente. – Estou com um projeto bem bacana por aí. Sobre a primeira afirmação, só digo uma coisa: alguém quebrou uma das regras.

Tyler me olha novamente por um certo tempo. Depois de refletir e avaliar, fala:

- Bem, não tenho mais como te enrolar. O evento começa em dez minutos. Vamos descer? – E se levanta rapidamente. Apenas o acompanho.

– Hei, não esqueça de pegar minha mala de sabonetes, isso é meu ganha pão. – E se dirigiu para perto do balcão.

Apanho a mala marrom que está em uma cadeira ao lado da que Tyler estava sentado o acompanho.

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Depois do balcão, onde fica parado o "simpático" homem que me recebeu, há uma espécie de porão. Tyler deixa a mala em uma prateleira perro das bebidas para ter as mãos livres. Ele então abre a porta de ferro fazendo grande força e não me espera para descer.

Lá embaixo, a iluminação é pior do que em cima. É um corredor grande e úmido, com luzes fracas a cada cinco metros, e com uma outra porta ao fundo.Só há esse caminho.

Tyler segue mudo e sinalizando com a mão que devo segui-lo. Outra porta é aberta por ele. O barulho das dobradiças é agudo, mas não tão ensurdecedor quando o de dentro da sala. Quando a porta se abre, vejo uns 30 homens, em círculo e vibrando. Todos sem camisa e usando apenas de calças de moleton.

Ao centro, dois deles trocam socos e pontapés. O cheiro de suor e sangue seco toma o lugar. Tyler segue parado na porta, como se estivesse admirando tudo aquilo. Coloca um palito na boca, vira-se para mim e diz:

- Lindo, não? Vamos entrando.

O lugar é muito fechado e a ventilação é quase inexistente, se não fosse algumas entradas de ar nas laterais superiores. As paredes suam. Os gritos são abafados pelos tijolos velhos que fazem parte da parede.

Era surreal. Como um pedaço de um universo paralelo dentro de um porão.

Tyler, percebendo minha surpresa, nos dirige pelo meio dos homens que formam a roda. Há sangue por todo o lugar, mas não há medo. Os homens sorriem, dão risadas sangrentas e trocam socos como brincadeira. Têm os rostos cheios de hematomas, cortes e pontos. As mãos são idênticas as de Tyler. Todas feridas nas articulações e com sangue pisado. De súbito, Tyler os convoca:

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- Pessoal, um minuto por favor. – Os dois rapazes que se digladiavam param a luta para olhar para ele. – Hoje, iniciamos mais uma noite do nosso clube. Posso dizer que estou feliz por ver cada vez mais pessoas. Por outro lado, isso é frustrante. Sinal de que vocês não cumpriram a primeira regra do clube que é...

- Nunca fale sobre o clube da luta. – Dizem todos, em uníssono, como no exército.

- Qual é pessoal... Não temos tantas regras assim para vocês se confundirem ou esquecerem. Mas vamos lá: Um, você não fala sobre o Clube da Luta; dois, VOCÊ NÃO FALA SOBRE A PORRA DO CLUBE DA LUTA; três, somente duas pessoas por luta; quatro, uma luta por vez; cinco, sem camisa e sem sapatos; seis, as lutas duram o quanto for necessário; sete, quando alguém desistir ou desmaiar, a luta termina e oito – disse ele olhando para mim – SE ESSA FOR A SUA PRIMEIRA NOITE NO CLUBE DA LUTA, VOCÊ TEM QUE LUTAR!

Todos gritam quando Tyler termina. Alguns batem palmas e outros erguem os braços. Tyler sai do meio da multidão ensandecida e se dirige até mim.

- É a nossa deixa, jornalista. – E me dá um tapa no ombro. – Vamos lá. Você ouviu as regras. – Fala ele enquanto tira a camisa e os sapatos.

- Tyler, não posso fazer isso...

- Você não pode; você vai.

Não há outra alternativa. Tenho que segui-lo. Fico apenas de calça e quando menos esperava, estava frente a frente com ele. Nós dois no meio de todos.

Tremo.

O tatame, está cheio de respingos sangue e Tyler nem liga. Segue pulando empolgado e cumprimentando os homens que nos cercavam.

Depois de se alongar do modo mais estranho possível, cospe o palito e me fala:

- Vamos começar então! – Ele grita e já corre em minha direção.

Tyler me acerta um direto bem no meio da cara. Com o impacto, sinto meus molares estalarem. O público grita de alegria. Tyler era incrivelmente rápido. Não tive reação.

Antes que me recuperasse, ele me disfere em chute forte na parte de fora da coxa esquerda. A dor deveria ser grande, mas a adrenalina era tanta que sequer liguei. Seguimos em posição de ataque e ele golpeia novamente, com um jab certeiro. Minha cabeça vai para trás. Depois do segundo golpe, já não tremo mais.

Instintivamente, decidi que não ia ficar apanhando. Todo o cenário conspirava para que eu lutasse. Tinha de fazê-lo.

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Reajo, mesmo que timidamente, dando um chute também na perna direita dele. O público se empolga já que o novato resolveu participar de fato da briga e não estava mais tremendo.

Logo em seguida chuto Tyler novamente. Ele também reage. Na realidade, é um luta de rua. Não há técnica. Só raiva e vontade. Uma raiva inexplicável, mas que acredito que todos nós temos.

Ele tenta então agarrar minhas pernas. Faço força e evito de cair. Como reflexo, acerto uma joelhada no ombro esquerdo dele.

Tyler se desequilibra, mas não hesite. Rápido, ele percebe meus ataques. E em um contra-golpe me joga no chão.

Ele me bate com toda a força e eu só posso me defender. Os golpes passam pelos meus braços que protegem meu rosto e me acertam com tudo. Sinto o gosto de sangue. Meus lábios já estão inchados, o nariz doi. E Tyler segue me castigando.

Aparentando cansaço, ele me acerta com tudo que tem. Percebendo que se não me movesse, ia apanhar mais ainda, tiro forças e consigo empurrá-lo para trás.

A posição muda e sou em quem tem a chance agora. Começo a golpear o rosto de Tyler. Ele se protege exatamente como fiz. Bato em suas costelas e o sangue de minha boca respinga nele a cada golpe que solto.

De costas para o chão, Tyler não consegue reagir e nem se defender. Não paro. Não consigo parar. Seu rosto já está inchado e o público grita loucamente.

Não ouço nada. Não sinto nada. Apenas um formigamento nos punhos que colidem com o corpo e rosto do meu adversário. Quando Tyler já estava entregue, com o rosto muito ferido, e eu em meu apse de raiva, ouço o grito:

- Parou! – Saindo como num gemido.

Só consigo me jogar para o lado. Meu corpo inteiro doi. Os homens que antes faziam o círculo, agora nos socorrem. Os outros aplaudem e gritam. Não entendo nada. Falam todos de uma vez. Alguns perguntam se estou bem, outros me parabenizam.

Me sento e olhando entre as pernas e corpos abaixados que agora estão preocupado, consigo ver Tyler sendo levantado do chão. De pé, ele sinaliza que está bem e caminha até mim, ofegante.

Ele ajoelha na minha frente, me segura pela nuca e fala próximo ao meu ouvido, com a boca cheia de sangue:

- Você não fala sobre o Clube da Luta.

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Murillo Jorge

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