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Murillo Jorge

Jornalista e apaixonado por música desde sempre. Flerta com cinema e cultura em geral. Ouve muito mais música do que é recomendado.

"I drive" - Drive (2011)

Drive é o filme de um protagonista bem desenvolvido e misterioso dentro de uma trama que mescla gêneros e te surpreende. Agrada e ao mesmo tempo impressiona.


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Um filme que te surpreende é sempre lembrado.

Recentemente, alguns títulos podem fazer parte da seleta lista dos que possuem essa habilidade, mas nada se compara com Drive.

O diretor Nicolas Winding Refn fez um trabalho excelente quando construiu o enredo do filme, lançado em 2011. Uniu uma história sem rodeios – que cresce e ganha profundidade a cada minuto passado – e apoiou-se em uma personagem principal memorável.

O dublê misterioso vivido por Ryan Gosling é que dá ainda mais brilho e vida ao projeto. Principalmente por acompanhar as mudanças e evoluções da trama.

Ele pouco fala, não tem nome, não tem passado e pouco ri. Tudo o que sabemos sobre ele é que ele dirige. E só.

Fazendo o trabalho de motorista em alguns assaltos, ele tem condições que devem ser seguidas por quem o contrata:

“Você me diz a hora e o lugar e eu te dou cinco minutos. Eu estou com você em qualquer coisa que acontecer nesse meio tempo. Não importa o que aconteça. Para qualquer coisa que ocorrer depois dos cinco minutos, você está sozinho. Entendeu? Eu não pego em armas e não me envolvo. Eu dirijo.”

Os termos são tão claros quanto eficientes.

A verdade é que ele é bom em tudo que faz. Dirige muito bem e é a personificação de um rapaz que é quieto, mas que sabe agir com firmeza quando precisa ou quando é pressionado.

Nesse cenário ocorre o cruzamento entre ele e Irene, vivida por Carey Mulligan. Eles moram no mesmo prédio, mais especificamente no mesmo andar.

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No início, trocam olhares e se cumprimentam, mas são devidamente apresentados quando o carro dela quebra e ele se propõem a ajudar.

Porém, e não menos importante, Irene é casada e tem um filho chamado Benício. O marido dela está preso. Mesmo assim, de um modo diferente, eles se aproximam e começam a mostrar que se gostam. Ele se sente bem ao lado dela e ela aparenta se sentir segura com ele.

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Com isso, a relação entre a personagem de Gosling e a criança também ganha destaque. É outro ponto muito bem trabalhado. O garoto lhe arranca sorrisos e ao mesmo tempo, tem curiosidade sobre quem é aquele homem de agasalho prata, com um escorpião amarelo bordado nas costas, que entrou na vida de sua mãe.

É importante ressaltar que não há nada forçado. O dublê e Irene se respeitam muito e há uma linha que temem cruzar. Chegam até a sair juntos, mas é algo velado.

Tudo vai muito bem, mas o marido de Irene sai da prisão. Esse é o início do crescimento e evolução da trama. Depois disso, o filme é outro e é ainda melhor.

Confesso que quando vi pela primeira vez, não esperava uma transformação tão surpreendente e radical no roteiro. Não mesmo.

Os períodos sem fala dos personagens persistem e junto deles a trama fica imersiva. A roupagem passa a ser outra, completamente diferente, e gira em torno de um homem que quer proteger a mulher que ama e o filho dela, não importa como.

Daí então nós vemos quem realmente é e o que é capaz de fazer aquele rapaz quieto e tranquilo. Tudo que ele precisava era de um catalisador para despertar o que estava latente. Um herói, com traços de anti-heroísmo, mas que tem uma missão nobre.

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Mesmo com essa descrição, a melhor parte é que o filme foge de clichês. Todos devem imaginar o motivo disso tudo ocorrer na trama: o marido volta, é violento, arruma briga com ele... Não. Não é nada disso. E é justamente esse cuidado tomado em fugir de um enredo batido e repetido incontáveis vezes no cinema que faz com que o filme ganhe respeito.

Personagens secundários também são bem desenvolvidos. Não há nada no filme que deve ser descartado: um palito ou o simples piscar dos olhos terão grande importância no fim. Nas cenas, diversas nuances e mensagens sutis são escondidas e fazem todo sentido no final. Elas acrescentam símbolos e significados ao enredo.

Há um clima de tensão por todo o filme, principalmente pela ausência/economia nos diálogos os cenários são marcantes. A iluminação é muito bem feita e a mescla entre cores fortes e fracas cai bem.

A fotografia – coberta por essas mensagens implícitas -, além da trilha sonora impecável, compensam todos os momentos de silêncio. Muitas vezes, a própria música fala pela personagem. A escolha das faixas colaboram no clímax e também engrandecem a trama.

Na ambientação, não sei por qual motivo, senti que foram usadas algumas referências ao saudoso game GTA Vice City. Pode não fazer sentido, mas acho que o uso da tipologia e alguns cenários da cidade rodados na trama, fizeram com que eu traçasse alguma relação em minha cabeça.

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Além disso, a escolha de Ryan Gosling para o papel foi muito feliz. Mesmo com outra excelente atuação em “Blue Valantine”, digo que Drive extraiu seu melhor. Não vejo outro ator para viver a trama.

No fim, Drive deixa aquela sensação nostálgica entre um romance e um filme de ação pesado. E é justamente essa mistura que o tornou interessante.

Um enredo que evolui e que consegue, como poucos, retratar o amor com brutalidade.

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Murillo Jorge

Jornalista e apaixonado por música desde sempre. Flerta com cinema e cultura em geral. Ouve muito mais música do que é recomendado..
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