os filhos de eva

Sobre aquelas odisseias onde eles se envolveram

Eva Coelho Díaz

"Quem falou que a boca é tua?". Quem falou, estava certo

25 de Abril: crónica de uma revolução musicalmente portuguesa

Já dizia um libertador: "Quando a tirania se converte em lei, a rebelião é um direito" (Simón Bolivar). Esse “direito” durante a História foi exercido de muitas maneiras: ora pacífica ou violentamente, ora com ou sem estratégias. Mas é sobretudo nas estratégias que reside o sucesso de qualquer revolução. Em 1974, um grupo de capitães portugueses procuraram na música a primeira táctica que seria a chave para fechar um ciclo da História do país.


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Antes do adeus

Estavam cansados. A decadência económica de Portugal era eminente, a repressão e a censura não cessavam e a guerra colonial, que levava anos, parecia não chegar a lado algum. Enquanto os guerrilheiros de Moçambique, Angola e Guiné-Bissau estavam irredutivelmente determinados a conquistar a independência, os militares portugueses defendiam sem convicção e já sem forças uma posição que lhes era, de certa forma, alheia. Em 1973, Chico Buarque e o poeta português Ruy Guerra compuseram a música Fado Tropical, onde é possível perceber, através de uns versos citados com sotaque português, o desgosto que certamente muitos dos militares sentiam com a sua participação na respectiva guerra.

FADO TROPICAL

(...)

Sabe, no fundo eu sou um sentimental. / Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo (além da sífilis, é claro). / Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar / Meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora…

(...)

Meu coração tem um sereno jeito / E as minhas mãos o golpe duro e presto / De tal maneira que, depois de feito / Desencontrado, eu mesmo me contesto.

Se trago as mãos distantes do meu peito / É que há distância entre intenção e gesto / E se o meu coração nas mãos estreito / Assombra-me a súbita impressão de incesto.

Quando me encontro no calor da luta / Ostento a aguda empunhadura à proa / Mas o meu peito se desabotoa.

E se a sentença se anuncia bruta / Mais que depressa a mão cega executa / Pois que senão o coração perdoa.

As imagens que se seguem no fundo do video-clip (recentemente gravado) correspondem aos acontecimentos do 25 de Abril.

E Depois Do Adeus

Os capitães já tinham planeado a operação nas vésperas do 25 de Abril. Foi tudo silenciosa e friamente calculado, apesar do calor que portava a vontade de derrubar o regime. Tinham combinado que deveria ser uma operação exclusivamente executada por militares, mas optaram por não poupar alguns locutores da rádio. Um capitão da Força Aérea tinha negociado, dias antes, com o locutor João Paulo Diniz dos Emissores Associados de Lisboa para colaborar com a operação, a qual não lhe tinha explicado muito bem em que consistia mas sim qual era o seu objectivo: instaurar a democracia. Temendo uma futura repressão, o locutor hesitou inicialmente, mas depois decidiu colaborar através da emissão de sinais radiofónicos, como lhe tinha sido proposto. É aqui, então, que a música entra como soldado camuflado pronto para dar o primeiro sinal de avance: o locutor deveria colocar no ar a discografia de Zeca Afonso, que compunha músicas com conteúdo político, mas para que fossem evitadas as suspeitas, sugeriu um tema que no seu julgamento passaria por desapercebida, já que foi a música que Portugal levou ao Eurofestival e que, por isso, estava muito em voga. Faltam cinco minutos para as 23 horas. O Paulo de Carvalho com o Eurofestival de 1974: “E Depois do Adeus”. Estas teriam sido as palavras que o locutor, no dia 24 de Abril, usaria para sinalizar o início das operações militares na madrugada de 25. Sendo assim, enquanto as rádios dos quartéis faziam ouvir partir é morrer como amar é ganhar e perder, os militares se preparavam para fazer partir o regime e ganhar em nome da pátria que amavam e da democracia.

Uma senha não bastou. Tinha que haver uma senha que confirmasse a primeira. Sim… A operação também foi cuidadosa e meticulosamente calculada. Nada podia falhar. Mas desta vez Zeca Afonso não podia faltar: Grândola, Vila Morena fez-se presente às 00h20 do dia 25 na Rádio Renascença. Ela sinalizava o espoletar definitivo e simultâneo em todo o país do golpe de Estado. Já não se podia voltar para atrás.

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Assim como Os Lusíadas estão para a literatura portuguesa, E Depois do Adeus e Grândola, Vila Morena estão para a liberdade do país. Estas músicas tornaram-se em elementos épicos da nação portuguesa. Marcaram a viragem histórica de Portugal em 1974, no entanto, para os que hoje em dia consideram o actual governo um tanto ditador, elas mudam de táctica e se convertem em instrumentos de contestação quer na Assembleia da República, quer em manifestações de rua.


Eva Coelho Díaz

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