os filhos de eva

Sobre aquelas odisseias onde eles se envolveram

Eva Coelho Díaz

"Quem falou que a boca é tua?". Quem falou, estava certo

Poesia e ousadia: os poemas que ninguém gostaria de ouvir

Enquanto alguns poetas procuraram fazer dos seus poemas grandes manifestações dos sentimentos através de uma linguagem esteticamente bonita e apreciável, outros não pouparam ofensas, palavrões e descrições impróprias para fazer dos seus os mais obscenos. Confira!


Pedicabo ego vos et irrumabo … (tradução: “Meu pau no cú, na boca, eu vou meter-vos”). Assim começa o poema cujo verso seria considerado uma das expressões mais obscenas escritas em latim. Caio Valério Catulo, poeta romano do século I a.C., escreveu Carmen 16 com o intuito de atacar os seus detractores - Fúrio e Aurélio- que o criticavam precisamente pelo modo como escrevia.

Catullus_at_Lesbia's_by_Sir_Laurence_Alma_Tadema.jpg Catulo em Lésbia (Lawrence Alma-Tadema, 1865)

Carmen 16

Meu pau no cú, na boca, eu vou meter-vos, Aurélio bicha e Fúrio chupador, Que por meus versos breves, delicados, Me julgastes não ter nenhum pudor. Ora se um autêntico poeta casto deve ser Ele mesmo, aos seus versos não há lei. Estes só tem sabor e graça quando São delicados, sem nenhum pudor, E quando incitam o que excite não Digo os meninos, mas esses peludos Que jogo de cintura já não tem E vós, que muitos beijos (aos milhares!) Já lestes, me julgais não ser viril? Meu pau no cú, na boca, eu vou meter-vos.

Pietro Aretino, italiano renascentista, foi mais além ao escrever Sonetos Luxuriosos. Sob o efeito inspirador de umas pinturas ousadas de Giulio Romano, Aretino não conseguiu evitar e rendeu-se à criação de mais de vinte sonetos obscenos.

GiulioRomano-CupidandPsyche.jpg Cupido e Psiquê (Giulio Romano, 1526)

Sonetos Luxuriosos - soneto 25

Não atires, fodido de um Cupido, Dardos maiores. Pára, duplo mulo. A cona, não o cú, é que eu postulo Desta que a vara põe-me num brasido.

Nas pernas e nos braços mal sustido, Tão descômodo estou que não te adulo. Uma hora assim matava até um mulo. Eu, no entanto, me aguento sem gemido.

E se, Beatriz, ora esperar vos faço, Perdoar-me deveis, pois mostro assim Que fodendo mal posto me desfaço.

Se vosso cú não dá-me espelho, a mim Que estou suspenso num e noutro braço, O nosso feito não teria fim.

Cú de leite e carmim! Se o contemplar-vos não me desse fé, Eu não tinha o caralho assim de pé.

O poeta português Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) abusou, da mesma maneira, de uma linguagem vulgar e impropria e focou a sua obra, sobretudo, na critica à sociedade, ao governo e às classes altas através do uso excessivo de ironia e sarcasmo. Exemplo disso são o Soneto do Membro Monstruoso e o Soneto de Todas as Putas.

Bocage e as Ninfas - Fernando Santos - 1929.jpg Bocage e as Ninfas (Fernando Santos,1929)

Soneto do Membro Monstruoso

Esse disforme, e rígido porraz Do semblante me faz perder a cor: E assombrado d'espanto, e de terror Dar mais de cinco passos para trás:

A espada do membrudo Ferrabrás De certo não metia mais horror: Esse membro é capaz até de pôr A amotinada Europa toda em paz.

Creio que nas fodais recreações Não te hão de a rija máquina sofrer Os mais corridos, sórdidos cações:

De Vênus não desfrutas o prazer: Que esse monstro, que alojas nos calções, É porra de mostrar, não de foder.

Soneto de Todas as Putas

Não lamentes, ó Nise, o teu estado; Puta tem sido muita gente boa; Putissimas fidalgas tem Lisboa, Milhões de vezes putas teem reinado:

Dido fui puta, e puta d′um soldado: Cleopatra por puta alcança a c′ròa; Tu, Lucrecia, com toda a tua pròa, O teu cono não passa por honrado:

Essa da Russia imperatriz famosa, Que inda ha pouco morreu (diz a Gazeta) Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta: Não fiques pois, oh Nise, duvidosa Que isto de virgo e honra é tudo peta.


Eva Coelho Díaz

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