os ruídos do mundo.

Comumente silencioso para seus ouvintes, o mundo só produz ruídos.

Leonardo Quinebre

Da fala à escrita, da escrita às lentes

Antes, ninguém se entendia muito bem, depois, as histórias se alteravam no tempo e, agora, as diferentes interpretações são os "problemas". Passados 60 mil anos do surgimento da fala, veio a escrita a e agora, após 6 mil anos, vivenciamos um novo marco da comunicação humana.


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Se os cachorros latem cada uma em um idioma próprio, com poucas semelhanças entre si, um dia também éramos assim. Aí começamos a criar expressões cada vez mais específicas para o que era preciso transmitir. Acredita-se que tenha surgido naturalmente e estima-se que esse período tenha ocorrido antes de nós sermos nós. Surgiu assim o primeiro marco histórico da comunicação humana, a fala, pois foi a partir daí que começamos a compartilhar ideias mais complexas, algo necessário para a construção da nossa sociedade. Depois vieram os desenhos, uma evolução das formas de transmissão de pensamentos. Foi com eles e em seguida com a escrita que garantimos mais veracidade nos fatos que sobreviviam há muitas gerações, sem sofrer as alterações que fala poderia resultar, exceto de interpretação. Alguns milhares de anos se passaram e ela evoluiu, não tanto quanto se propagou e se diversificou, garantindo mesmo assim um vasto conhecimento sobre nós e sobre o mundo, tornando viável a construção de saberes sobre o passado da sociedade e o surgimentos e evolução de incontáveis ciências.

Mas e agora, o que vem depois?

Reparo que cada uma das fases não substituiu a outro, mas apenas surgiram no "ponto fraco" da anterir. Antes, ninguém se entendia muito bem, depois, as histórias se alteravam no tempo e, agora, as diferentes interpretações são os "problemas". Além de um conhecimento prévio, a melhor forma de se entender uma ideia é consultando o próprio autor e o contexto em que foi elaborada, mas nem um, nem outro, estão à disposição, pelo menos não de forma completa, uma vez que o transmissor responsável de agora não é o mesmo de antes, muito menos o contexto. Assim, um texto escrito tornase vivo e independente, podendo ser capaz até mesmo, vejam só, de produzir ideias além daquelas que seu criador pretendia. Estudando isso como um erro de linguagem, qual seria a utilidade prática buscada pela análise detalhada das formas de expressão? Ou melhor, por que é preciso descobrir o objetivo fundamental de uma ideia? Dentre todos, para mim, melhorar e compreender a situação atual da sociedade, que na maioria das vezes segue um discurso manipulador proferido pelas classes dominantes.

Deixando de lado isso, talvez estejamos vivendo e já há algum tempo a nova geração de comunicação. Sendo mais claro, para que dizer ou tentar lembrar dos fatos se podemos gravar? O sintético contexto é captado perfeito e frequentemente pelos tais pseudo-olhos-ouvidos, que não esquecem e não dão margens a interpretação. Cada vez mais difundida e integrada, estamos construindo uma linguagem unificada, na qual a precisão da escrita é garantida pelo armazenamento dos aparelhos e a versatilidade da fala e expressões corporais são mantidas pelas microlentes do "Terceiro Olho" humano. A geração que delegou suas lembranças às máquinas já vive entre nós e prefere ela, muitas vezes, acompanhar o "inesquecível" momento atual por meio da tela de seu smartphone.


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