outras coisas na penumbra

Sob os auspícios do deus que dança

Gilberto Miranda Junior

Sob os auspícios do deus que dança...

Da Misandria, da Misoginia e o Rio das Ostras...

Misoginia é a submissão sumária da mulher ao seu papel subalterno e coadjuvante na história. A misandria é a emancipação humana da ditadura de gêneros e não, como se propaga por aí, um corporativismo de gênero: isso sim uma distorção.


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Se ser relativista é levar em conta os contextos hermenêuticos pelos quais os fenômenos ocorrem, sejam eles sociais ou mesmo físicos, então é preciso que nos tornemos relativistas. Penso ser um problema, mesmo para quem se acha humanista ou progressista (ou ambos), pensar e se expressar a partir de regras absolutas que dispensam as motivações, contextos e a própria hermenêutica que encerra toda e qualquer relação entre sujeitos e mundo. É claro que analisar contextos, motivações e construir interpretações hermenêuticas sobre formas de ser é entrar em um terreno movediço e intersubjetivo; algo que para racionalistas e objetivistas soa como heresia.

O problema é que para se distanciarem desse terreno eles não entram no mundo vivido (que encaram como incerto, perigoso e movediço), e logo concorrem a estabelecer referenciais absolutos que devam estar totalmente acima dos contextos que tornam os fatos possíveis. Não preciso dizer que as maiores atrocidades da história da humanidade foram feitas sob o pano de fundo desse tipo de pensamento. Por isso odeiam Deleuze, Derrida, Foucault, Husserl, Merleau-Ponty, etc... Por isso negam o mundo vivido, a singularidade e a diversidade; negam a condição igualitária e libertária própria do SER, pois precisam determiná-lo para apreendê-lo em um sentido, o que significa dominá-lo, controlá-lo, moralizá-lo e submetê-lo. Nas palavras de Heidegger, "entificam" o SER. Eis a causa, segundo a interpretação heideggeriana de Nietzsche, do Niilismo. Se o Niilismo se constitui o modus operandis dessa modernidade tardia (que eles insistem em profetizar como posmoderna), a causa se encerra neles mesmos.

A palavra da moda agora é "Misandria", ou seja, literalmente, "ódio aos homens". Insistem em reduzir a misandria de uma vertente feminista ao oposto equivalente à misoginia endógena de nossa sociedade. Fazem questão de desprezar os contextos em que cada um desses fenômenos (que já se mutilam ao serem reduzidos a uma única palavra ou conceito) ocorrem historicamente; suas articulações e formas de ser. A insistência de que se trata de extremos opostos, desprezando os contextos hermenêuticos em que se dão, é um desserviço à uma discussão mais do que necessária diante da configuração social em que vivemos.

Eu não escrevo essas linhas às mulheres. Elas já se articulam por si mesmas, de forma autônoma e independente, e compreendem como ninguém, mesmo em meio às divergências, a realidade em que vivem. É totalmente desprezível qualquer coisa que um homem tenha a dizer sobre isso. Tenho essa consciência e não me atreveria a fazer tal coisa, mesmo sabendo que uma parcela significativa das mulheres estejam alheias às discussões sobre sua condição existencial, limitando-se a cumprir o papel destinado a elas dentro do patriarcado. Mas duvido que elas se despertem a isso a partir da leitura do que um homem tenha a dizer. Escrevo isso para nós, homens; inclusive àqueles que simpatizam com o feminismo, mas se acham no direito de ir além do apoio e se arrogam querer participar na construção da agenda política feminista.

Essa facilidade de "biologizar" a questão de gênero se resume em duas questões: ingenuidade ou má intenção. Não há como transformar em cultura um aspecto biológico sem que se hierarquize arbitrariamente as características singulares que nos constituem. A história do capitlajismo se dá na construção de discursos de caráter metafísico que hierarquiza nossas características biológicas e as estabelece como formas culturais de conduta para que o sistema se tornasse eficiente, se mantivesse e crescesse ao ponto de subsumir a consciência de nós mesmos.

Decerto que o gênero tem a ver com aspectos biológicos, mas se não esmiuçarmos a forma social (hermenêutica, portanto) pela qual esses aspectos passam a nos determinar como seres a desempenhar um certo papel, corremos um enorme risco de nos distanciarmos dessa base biológica diversa, horizontalizada e livre, e reduzirmos nossa singularidade somente aos valores interessados que engendraram essa entificação. É um aprendizado incômodo, mas extremamente necessário aceitar a misandria como emancipação, não só das mulheres como de nós, homens. Simplesmente porque a misandria feminista quer a morte de toda hierarquização de nossa natureza a serviço de um sistema que nos coisifica e nos desumaniza. Conotar essa ideia como oposto equivalente à misoginia cai na mesma questão da biologização do gênero: ou é ingenuidade ou má intenção (talvez em muitos casos, ambos).

Misoginia é a submissão sumária da mulher ao seu papel subalterno e coadjuvante na história. A misandria é a emancipação humana da ditadura de gêneros e não, como se propaga por aí, um corporativismo de gênero: isso sim uma distorção.

Sinto muito se os absolutistas morais não vêem dessa forma, embora discursem como humanistas. Sinceramente penso ser totalmente incoerente ser humanista e desprezar a hermenêutica dos discursos que hierarquizam nossa natureza biológica em gêneros para que desempenhem papeis que beneficiam uma pequena parcela das pessoas do mundo.

Tenho plena consciência que quase a totalidade dos homens discordarão de mim, assim como uma considerável (senão a maioria) das mulheres também. Eu estou expondo minha forma de ver a questão e assumo as consquências disso.

No Rio das Ostras

No último dia 28/05 por ocasião do Seminário Corpo e Resistência cuja temática era o aumento dos estupros e da violência sexual contra a mulher, no Campus de Rio das Ostras da UFF (Universidade Federal Fluminense), houve uma performance artística como parte do evento que chocou a sociedade. Para se ter uma ideia o evento passou até a ser investigado pela Polícia Federal e pela Universidade, com grande expectativa de parte da sociedade que se coíba terminantemente que eventos semelhantes voltem a ocorrer. Nem gostaria de falar sobre isso, mas até feministas de outras linhas criticaram a performance da artista Raissa Vitral que teve sua vagina costurada em público enquanto conversava e fumava (segundo as matérias publicadas).

As fotos mais chocantes do evento foram compartilhadas viralmente nas redes sociais como que anunciando o armagedon à pacata e diligente classe média brasileira. Um escândalo. Ora, há outro motivo para se dedicar à vertente artística performática do que, justamente, escancarar seu privado em público e problematizar o que aflige (tanto pessoalmente como socialmente) o artista em questão?

Há quem diga (e é quase hilário se não fosse trágico fazer parte de quem diz: nós homens) que esse tipo de ato, aliado à misandria, acaba jogando contra o próprio feminismo. Auto-intitulados(as) guardiães ou capitães do feminismo se juntam (mais juntos do que poderíamos suspeitar) com o espectro mais conservador da sociedade para condenar, ironizar e interditar sumariamente a performance em um exercício de futorologia sobre o movimento a partir das consequências e reações sobre o ato.

Não raro a performance tem como meta justamente a queda das máscaras que revestem os discursos de consenso pequeno burguês. Não raro conseguem. Dessa feita penso que conseguiu. No entanto há de se levar em conta que a performance habita terrenos que fogem de qualquer obviedade, justamente porque mexe com coisas arraigadas em nós, causando repulsa, medo, estarrecimento, revolta, mas também empatia. A decisão de se deixar costurar uma vagina em público tem um sentido simbólico e um alvo específico. Decerto que pouco fará para que se diminua o número de estupros e abuso da mulher na sociedade, ao menos por parte de quem estupra e abusa. Mas não consigo parar de pensar quantas garotas assistindo a esse ato, pela identidade de possuírem o mesmo órgão ali exposto, conseguiram ressignificar sua relação com seu sexo a partir do que viram? Quantas vaginas costuradas socialmente assistiram chocadas, incomodadas e agradecidas aquele ato que muitos de nós abominaram em nosso consenso pequeno burguês?

Com que autoridade moral ou epistêmica alguém se arroga no direito de julgar, a partir do seu mundinho autovalorizado, as decisões de quem se dispõe a se expor em nome de uma ideia que o move por incontáveis motivos alheios àquele que julga? Há algo de muito podre no Reino da Dinamarca, já dizia Sheakspeare. E esse odor não vem da vagina de Raissa, aposto. O estupro equivale à colonização forçada e violenta do corpo alheio em benefício do atacante, como se o outro fosse uma coisa, um depósito para o descarte de energia (e muita raiva) acumulada do criminoso. É algo próprio da hierarquia das pulsões feita pelo ideário que construiu nosso gênero e que nos coloca a serviço de uma sociedade excludente, violenta e meritocrática apenas para quem compete e possui mais força que os concorrentes. Qualquer, nesse sistema, acaba se constituindo mero meio pelo qual satisfazemos nossas necessidades de homem; condutores e provedores dos bens do mundo. A lei é um mero detalhe hobbesiano para coibir abusos, mas todas as condições de possibilidade estão ali, arrefecidas e recrudescidas esperando algum descuido ou possibilidade de impunidade.

A última pesquisa do IPEA não nos deixa mentir (apesar da falha confessa em uma das questões) que a sociedade brasileira divide a responsabilidade da violência com a vítima, principalmente se ela for mulher. É o famoso: "ah foi atacada porque deu mole". Isso também equivale a costurar vaginas, porém ninguém se choca, apenas com a Raissa.

Uma performance tem estreita ligação com arte conceitual e se utiliza do próprio corpo do artista como local de experimento. Sua conotação política é uma escolha do artista, mas em geral seus desdobramentos conceituais é co-construído com o próprio público. É desumanizador querer interditar uma artista feminista (em um ato em defesa da mulher) fazer uma performance que pode somente dizer respeito a ela mesma. Quando se quer o poder político e forçar-se a ser porta-voz de algum movimento, basta transformar tudo em política e desqualificar sem enteder, ou sequer tentar entender.

Parece-me que aqueles que são a favor de um abrandamento do discurso radical feminista esquecem-se que o feminismo se constitui na ideia (radical por si só) que ser humano algum necessita da tutela de papéis sociais determinados para se relacionar. A misandria como consequência disso se constitui na morte do principal papel responsável pela opressão de todas as minorias: o homem padrão, aquele que constitui a maioria ideológica cultural. É uma ideia radical. Emancipar-se é radicalisar-se, ir à raiz do que lhe constitui existencialmente e passaar a decidir-se por inteiro, sem tutela alheia.

É inegável a proximidade entre performance artística e o movimento feminista. Recomendo a leitura desses artigos para uma ampliação ao tema:

http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/pdf/aeq/n27/n27a05.pdf

http://rccs.revues.org/3735#tocto1n1


Gilberto Miranda Junior

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