outras coisas na penumbra

Sob os auspícios do deus que dança

Gilberto Miranda Junior

Sob os auspícios do deus que dança...

Kaspar Hauser – Natureza Humana e Conhecimento como Etnocentrismo

A civilização determina a natureza humana e a cobra coercitivamente para que se exerça em direção à conservação de seus pressupostos. A civilização não é a convergência de uma expressividade plural da diversidade do que nos distingue como humanos, mas sim a superestrutura moldada por uma classe para que o ser humano se enquadre a ela como ideal de ser humano.


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É difícil falar de uma história, mesmo que ela seja real (como de fato essa é), sem também passar pela forma que ela nos chegou, ou seja, o conteúdo da história sempre será enriquecido por sua narrativa. Por mais que possamos tentar reconstruir os fatos desde os documentos que restaram, há também um prazer incontido em apreciar a forma como ela nos chega. É o caso da incrível história de Kaspar Hauser. Eu não vejo como falar dela e fazer qualquer análise sem ao mesmo tempo considerar de que forma ela chegou a mim narrada pelo fantástico filme de Herzog.

Por mais que o próprio Herzog declare que sua preocupação principal seja contar uma história tão fielmente quanto possível, é perceptível sua mão, sua história, seu olhar enriquecendo tudo o que conta. E isso acontece porque ele próprio tem uma história sui generis, tanto quanto seu ator principal, Bruno S. Talvez por isso tenha sido escolhido apesar das dificuldades que o próprio Herzog declarou ter com o ator.

Para termos uma ideia, Bruno foi espancado diversas vezes por sua mãe até os três anos de idade (uma prostituta que não pretendia ter filhos) e por conta disso ficou temporariamente surdo. Até os vinte e três anos percorreu diversas instituições psiquiátricas e então fugiu para nunca mais voltar. Herzog por sua vez, após ter crescido em uma pequena aldeia nas montanhas da Baviera, percorreu Munique, Iugoslávia, Grécia e Inglaterra indo depois para EUA através de uma bolsa de estudos. Quando todos pensavam que seu futuro estivesse garantido, Herzog foge para o México e vive um bom tempo como contrabandista da fronteira ou peão de rodeio. A partir daí iria viajar constantemente e alimentar o sonho de fazer filmes. Como se vê uma história e tanto de ambos, cinematográficas, aliás.

Mas estamos aqui para falar de Kaspar Hauser. Pretendo abordar essa excelente história por dois vieses: um epistemológico e outro antropológico, porém interligados por uma questão etnocêntrica inescapável.

A questão da Natureza Humana

Kasper chega à cidade de Nuremberg, na Alemanha, do nada, abandonado por seu “cuidador” que o deixara enclausurado por muitos anos, sem andar, sem falar, apenas comendo no chão, sem sequer saber como era o mundo lá fora. Sua chegada à cidade em uma época que, claramente, aspirava à ordem, faz um alvoroço. Como compreender um ser humano histórico se a concepção de Humano na época era essencialista, mesmo que em pleno iluminismo alemão? Herzog sempre se mostrou em seus trabalhos um crítico ferrenho da modernidade e um dos problemas da modernidade é exatamente a eleição arbitrária de categorias e conceitos que organizam a compreensão da realidade sob um pano de fundo de interesses dissimulados em discursos de liberdade, fraternidade e igualdade. Kant se encantara com a Revolução Francesa e seu ideário, construindo sua filosofia crítica sob os auspícios de toda uma argumentação que visava dar à racionalidade um primado que ela não tem, pois que ela é fruto, justamente, daquilo que a possibilita: um modo de vida, o mundo vivido.

É preciso, pois, inquirirmos a que problema se refere à necessidade de se definir uma Natureza Humana? Desde Scheler a Lima Vaz procura-se direcionar a Antropologia Filosófica a uma definição de homem que capte, para além de todo fenômeno, um fundamento, uma essência. E assim se faz também com a própria realidade. As diversas concepções e definições que tentam dar conta de forma fragmentada de nossa natureza, na concepção desses pensadores, constituem-se numa crise de identidade de um homem que precisa se tornar objeto de conhecimento a todo custo:

"A história da filosofia nos mostra que a ideia unitária foi também constituída, elaborada por filósofos para fazer frente a determinados problemas, e tal posição coexistia com outras concepções divergentes que antecederam ou que se seguiram. Trata-se, então, de mais uma concepção ao lado de outras. Pode-se perguntar: por que razão dar primazia a esta em vez de qualquer outra? A que problema se defronta a resposta que se apresenta como a busca da essência-universal e necessária -- de homem? Deve mesmo a Antropologia Filosófica defrontar-se com a questão da "natureza humana", da essência humana?" (ZUBEN, 1993)

Entendo que abrir mão dessa concepção unitária e universal de homem que sempre se buscou seja, na realidade, compreender o homem em suas múltiplas facetas, de forma a conceber sua fenomenologia uma questão de Condição Humana ao invés de Natureza Humana.

A interrogação que se impõe, então, é: será que sem a necessidade e sem a autorreferência chegaríamos à ideia de uma essência ou mesmo a ideia de Deus, que é corolário do essencialismo? Que nos diga Kaspar Hauser: a certa altura do filme de Herzog, tomando chá com os clérigos, estes tentam averiguar se no seu tempo de cativeiro Kaspar teria pensado em alguma entidade superior:

- [Clérigos] Kaspar, o que mais nos interessa saber é: já tinha alguma noção de Deus? No cativeiro, não pensou em algo que elevasse seu espírito?

- Eu não entendo essa pergunta. No cativeiro eu não pensava em nada e não consigo imaginar que Deus do nada criou tudo, como vocês disseram! [responde Kaspar]

- Não adianta, ele não entende.

- Vamos fazê-lo entender.

- Tem que acreditar Nele.

- [virando-se para Kaspar] Deve admitir o mistério da fé sem procurar entender.

- Primeiro preciso aprender a ler e a escrever melhor para compreender o resto. [replica Kaspar]

- Não Kaspar, as questões de fé são mais importantes.

(O Enigma de Kaspar Hauser, 1974)

O grande problema na ideia de Natureza Humana é a considerarmos de forma a-histórica, pré-existente ao próprio homem. Estamos inseridos em uma cultura cujos signos linguísticos referem-se ao mundo vivido, os quais desde tenra idade fazem parte de nosso cotidiano. Porém somos levados a crer que os signos se referem às próprias coisas, suas naturezas mais íntimas e que as definem totalmente. Esse mundo é vivido como dado e pré-existente, é reconhecido continuamente desde que nascemos e nossa consciência atua nele desde nossa intencionalidade; consciência que é simplesmente a hipóstase de nossa relação imediata de necessidade física e dimensão estética (prazer/desprazer). Como Kaspar Hauser poderia conceber a ideia de um Si Mesmo ou de Deus? Ele dá indícios disso nesse diálogo emblemático com seu tutor em frente à torre onde ficou confinado após ter chegado na cidade:

- Isto é muito alto [Kaspar olhando para a torre]. Só um homem muito grande poderia ter construído isso. Eu gostaria muito de conhecê-lo.

- Não, Kaspar, não é preciso ser tão grande para construí-la, pois existem andaimes. Entenderá quando eu o levar a uma construção. Você morou nessa torre, atrás daquela janela. Não se lembra?

- Isto não é possível [replicou Kaspar], pois o quarto só tem alguns passos de largura.

- Não entendo.

- Quando estou dentro do quarto e olho à direita, à esquerda, à frente e para trás, só enxergo o quarto. Quando olho para a torre e me viro, a torre desaparece. Então, o quarto é maior que a torre.

- Não, Kaspar, não é isso. Tem que pensar melhor, ainda não entendeu.

(O Enigma de Kaspar Hauser, 1974)

A questão do signo, do significado e da percepção da realidade está discutida no filme de Herzog na medida em que a socialização de Kaspar se dá por intermédio de signos sem referentes, ou seja, por uma ausência de práxis social. É através da práxis social que o referente faz sentido diante do signo que o representa. Sem ele os signos não promovem o entendimento, mas confusão. Por um esforço próprio, sem entender os referentes dos signos que lhe são impostos, sem ter vivenciado na práxis essa significação, Kaspar tira suas próprias conclusões racionais sobre o que vê a partir da necessidade que lhe é imposta no momento em que passa a fazer parte da cultura de sua época. Da mesma forma que ele poderia ver uma montanha e querer conhecer quem a fez, atribuindo ao construtor poderes sobrenaturais, ele olha a torre e tira suas conclusões. Na cena seguinte, com os clérigos, já lhe é imposto uma interpretação daquilo que ele, racionalmente, havia concluído. Não há práxis social que ligue aquilo que concluiu ao que os clérigos querem que ele acredite:

"O referente é uma entidade que supõe a práxis social, como discutida por Blikstein (1995), à luz da análise do caso de Kaspar Hauser, e essa práxis é formada na relação que o sujeito estabelece com o mundo e com os outros, na realidade. Desse modo, o significado de algo não está relacionado apenas com o sistema de signos linguísticos comunitariamente ligados, mas depende também das relações que os homens estabelecem com as coisas significadas." (SOUZA e ALMEIDA, 2002, p. 28)

Não conhecemos as coisas da realidade sem um contato com o referente, assim como não as conhecemos sem o signo que se refere a elas. Portanto se quisermos falar sobre Natureza Humana, precisamos colocar o homem na história, pois ele só é o que é dentro da cultura e da alteridade, por mais determinações que tenha em seu aspecto biológico e instintivo. Pressupor conceitos inatos, que na verdade não passam de uma interpretação de nossa capacidade de transcendência (interpretações muitas vezes apressadas) é reduzir a Natureza Humana às respostas que construímos para nos relacionar com um mundo que nos é puro mistério antes da cultura.

Logo no início do filme, Kaspar é mostrado em seu cativeiro numa condição semelhante ao que a civilização faz com os animais: confinado, comendo, bebendo, coçando-se e rosnando a expressar apenas sensações físicas; natureza ainda não domesticada pela cultura. Por que Kaspar seria, nessas condições, menos humano do que qualquer outro ser humano? Em Kasper inexistia uma consciência reflexiva, quiçá uma autoconsciência que lhe desse culpa, desejo, ou qualquer sentimento ditado pelo combate entre o necessário e o possível. Por isso, talvez, não foi necessário usar sua capacidade cognitiva para se colocar para além de si (transcender) e explicar o mundo à sua volta. Nada lhe oferecia, dentro do cativeiro, um mistério digno de ser entendido ou ser admirado, ao passo que ele próprio era inteiro, solipsista, integral como nenhum de nós poderíamos nos imaginar.

Não seria o caso, a meu ver, de falarmos sequer de uma Natureza Humana, mas sim de Condição Humana? Falarmos de como essa condição trata a relação com o Outro parte integrante dessa condição; seja ele a Natureza ou a Sociedade? Não nos é lícito supor que o ser humano “possui a intuição de que o mundo está ordenado, de que existe uma ordem de ser, uma causalidade que confere beleza, que desperta admiração, êxtase, e que toda essa afirmação não discorda da capacidade racional de pensar o mundo” (ACHA e PIVA, 2013, p. 167). Essa é uma pressuposição que impede uma metodologia que investigue como o fenômeno humano se dá em sua totalidade, pois não temos como afirmar que essa intuição seja estritamente ligada à natureza da Physis ou se se refere à resposta para uma necessidade humana de que seja assim e não de outra forma.

Não há incompatibilidade pressuposta entre causalidade e a liberdade humana. Causalidade não pressupõe determinismo. O homem não se satisfaz com o conhecimento racional do ser sensível na medida em que, também, precisa criar modos de ser para atender projetos políticos e transformar outros homens em seus instrumentos. Kaspar Hauser não desenvolveu seu raciocínio simbólico e nem se antecipava ao futuro via projeções de si mesmo em situações possíveis. O homem tem uma dimensão espiritual na medida em que é um ser aberto ao mundo que se faz a partir da alteridade; eis a causalidade humana. Não me parece epistemicamente lícito, porém, tirar disso qualquer distinção substancial que o faça à parte da natureza, ou como diz Juan Manuel Burgos:

"O que nos interessa é o fato de que o mundo grego gera uma primeira concepção do termo natureza que é, por outro lado, a mais difundida atualmente, e que se identifica com o mundo configurado pelos seres materiais e biológicos e pelas leis que os governam. Assim, em boa medida, natureza é o mundo específico do não humano, ao qual o homem pertence somente identificando-se com ele (perdendo desse modo sua humanidade)." (BURGOS, J.M. apud in ACHA e PIVA, 2013, p. 169)

Como podemos afirmar que ao nos identificarmos com a natureza perdemos nossa humanidade? Que tipo de evidências, que não estejam eivadas de pressupostos não enfrentados, sustentariam uma afirmação dessa? Não se trata aqui, porém, de uma defesa do naturalismo, mas não podemos reduzir a visão naturalista (muito menos a que se restringe apenas metodologicamente) ao ideário fisicalista ou fisiocrata que inspirou em grande medida o liberalismo econômico e o iluminismo.

Trata-se, sobretudo, de suspendermos certas afirmações ou argumentar a favor delas a partir de evidências em terceira pessoa, pois disso depende a credibilidade da própria reflexão Filosófica. Afirma-se que o homem é um ser totalizado por dimensões biopsicossociológicas, como se essa condição o tornasse mais que um animal, mais que mera psique e mais que um ser eminentemente social (ou espiritual): um ser espiritual por excelência, aberto ao mundo, feito na alteridade e comandante supremo de sua vontade que, via liberdade, o faz potência para construir o melhor futuro possível. Afirma-se isso, arrisco-me, com certo cinismo ou inocência diante das recorrentes e hediondas barbáries que o homem comete contra seu semelhante e contra a natureza. Não... O homem é um ser totalizado por dimensões biopsicossociais que não deixa de ser animalesco, nem neurótico nem genocida quando se compraz a ser. Não houve nenhuma superação nas dimensões constitutivas humanas, nem tampouco sobreposições, mas apenas coexistência de influências múltiplas e complexas.

Urge, portanto compreender o homem em sua totalidade, contudo, abarcando nessa totalidade a dimensão ambiental, pois que não se pode entender mais um organismo vivo sem sua ligação intrínseca com o ecossistema que o abriga e interage substancialmente com ele:

"Deste modo, a nova consciência ecológica deve modificar a ideia de natureza, tanto nas ciências biológicas (em que a natureza era apenas a seleção dos sistemas vivos, e não o ecossistema integrador desses sistemas), como nas ciências humanas (em que a natureza era amorfa e desordenada). [...] o ecossistema é co-organizador e coprogramador do sistema vivo que nele se integra (Morin, 1972).A proposição tem uma enorme consequência teórica: a relação ecossistêmica não é uma relação externa entre duas entidades isoladas; trata-se de uma relação integrativa entre dois sistemas abertos, em que cada um deles é parte do outro, embora constitua um todo." (MORIN, 1973, p.10-11)

Não é possível entender o ser humano desvinculado do ecossistema (leia-se sociedade, leia-se, substancialmente, MODO DE PRODUÇÃO) que o abriga e o define como o que é. Quando privado dele o homem não só não se reconhece como não é reconhecido, como Kaspar Hauser não fora apesar de todo o aprendizado que tivera. Logo, falar de Natureza Humana é falar de uma Condição que se dá dentro da sociedade, assim como a possibilidade do conhecimento. É dentro da cultura, portanto, que o homem se dá enquanto tal. Fora dela, sua natureza autorreconhecida, ele é algo aquém ou além do que se concebe como homem dentro da era moderna. Porém essas aproximações e caracterizações não podem ser estritas ou redutoras: homem é homem mesmo criado por lobos, pois que identificamos como ente pertencente à nossa espécie, embora fora das condições em que nos constitui naquilo que reconhecemos no outro e que nos reconhecemos com outro. Ademais, a sociedade e a cultura nos integram e nos co-organizam (como diz Morin), sem que esqueçamos que muitas práticas culturais se constituem na dissimulação valorativa dos nossos mais baixos instintos; traduzido pelo sistema capitalista de exploração e expropriação da condição humana a favor de interesses particulares que se vendem como públicos e sociais.

A Condição Humana está no reconhecimento do homem desde dentro da tríade Eu-Natureza-Outro, onde segundo Zuben, articulam-se dialeticamente para a compreensão de si. No movimento do homem como necessidade, cria-se o pathos da admiração que “é posto em movimento em sua própria essência enquanto é: logon echon (o que tem palavra)” (STEIN, apud in ZUBEN, 1993):

"O arcabouço desta palavra originária, ou da linguagem como arché (princípio), onde estão vazadas as relações Eu-Mundo-Outro, definirá a "condição humana" como situação e transcendência. Sobre esta palavra originária que caracteriza o ser humano irá constituir-se, hoje, a linguagem como instrumento de conhecimento e como comunicação." (ZUBEN, 1993)

Portanto boa parte que caracteriza a Condição Humana é o que irá constituir o fundamento do conhecimento humano, pois que conhecer, para o homem, é também conhecer a si mesmo e modificar-se, como nos diz Merleau-Ponty:

"Se o homem é o ser que não se contenta em coincidir consigo, como uma coisa, mas que se representa a si mesmo, se vê, se imagina, se dá de si mesmo símbolos, rigorosos ou fantásticos, é evidente que em contrapartida, toda mudança na representação do homem traduz uma mudança no próprio homem." (MERLEAU-PONTY, apud in ZUBEN, 1993)

A Questão do Conhecimento

Em Antropologia Filosófica é afirmado que “o conhecimento humano possui dois níveis: o sensível (nível do fenômeno) e o intelectual (nível do fundamento)” (ACHA e PIVA, 2013, p. 172). Ainda afirmam que a potência do conhecimento intelectual não está estabelecida em nenhum órgão específico. Com isso procuram afirmar o dualismo cartesiano, o que não explica absolutamente nada para a questão do conhecimento, fazendo-nos aceitar pressupostos que não se colocam à prova ou questionamentos.

Ao menos desde Kant o conhecimento se restringe ao fenômeno, seja ele intelectual ou sensível. Aliás, desconheço para que serve a distinção entre eles, já que conhecer só pode ser dito a nível intelectual: quando se atribui um significado ao que se percebeu pela sensibilidade. Dizer que o conhecimento intelectual está ao nível do fundamento requer partir de que aquilo que nos fundamenta é tão somente nossa capacidade racional, o que, parece-me, já há muito está superada nas teorias epistemológicas vigentes. O que funda o objeto diante de nosso escrutínio é seu significado diante de todo um sistema de valores que nos coloca intencionalmente diante de um fenômeno; que é o objeto enquanto acontecimento para mim, sujeito do conhecimento.

Voltemos a Kaspar Hauser nos referenciando a mais uma passagem emblemática do filme de Herzog, quando um lógico e matemático inquire Kaspar para testar seus conhecimentos:

- Kaspar, o professor veio de longe para lhe fazer algumas perguntas. Ele quer analisar sua capacidade de pensar. Ele quer ver o que aprender nesses dois anos e se você é capaz de pensar. Vai responder suas perguntas? [pergunta a governanta de seu tutor]

- Sim. [diz Kaspar]

- Muito bem. Kaspar imagine que esta é uma aldeia [representada por um bule em cima da mesa]. Nesta aldeia moram pessoas que dizem a verdade. Esta é outra aldeia [indicando uma xícara e posicionando-a no outro lado da mesa]. Nesta aldeia moram pessoas que mentem. Desta aldeia sai uma estrada que leva até você. E desta aldeia também sai uma estrada que leva até você. Você está na encruzilhada e chega um viajante e você quer saber se ele veio da aldeia onde dizem a verdade ou se ele veio da aldeia onde mentem. Para resolver esse problema com lógica só há uma pergunta a se fazer ao viajante. Por favor, diga-me qual a pergunta?

- Isso é muito difícil para ele, ele não saberá responder. [diz a governanta]

- Admito que não seja fácil. Pois se perguntar se ele veio da aldeia da verdade e ele vier da aldeia da verdade, ele dirá que sim. Mas se ele vier da aldeia da mentira, de qualquer forma, ele responderá que sim. Mas existe a possibilidade de uma única pergunta resolver esse problema.

- Acho isso muito difícil, muito complicado. [tenta socorrer a governanta]

- Você tem a possibilidade, Kaspar, de resolver esse problema lógico com uma única pergunta. [...] Já que não sabe, vou lhe dizer. Se você viesse de outra aldeia você me responderia “não” se eu lhe perguntasse: “você vem da aldeia que mente?”. Com a dupla negação podemos força-lo a dizer a verdade. Por intermédio da dupla negação ele revelará sua identidade. Isto é lógica: argumentação para o total absoluto.

- Eu conheço outra pergunta [afirma Kaspar].

- Não há outra pergunta. Segundo as leis da lógica, não há outra pergunta. [afirma o Lógico]

- Sim, eu conheço outra pergunta [reafirma Kaspar].

- Então nos diga.

- Eu perguntaria ao viajante se ele é uma rã. Se ele viesse da aldeia da verdade, diria: “Não, não sou uma rã”, pois ele não mente. Se fosse da aldeia da mentira, ele diria: “Eu sou uma rã”, pois ele mentiria. Então eu saberia que ele vinha da aldeia da mentira.

- Não é essa a pergunta. Não posso admitir isso. Não tem nada a ver com a lógica. A lógica é a dedução, não a descrição. Isto é apenas uma descrição, nada tem de lógico. Ele não entende isso. O raciocínio tem que ser construído, a lógica é essencial. Como professor de lógica e matemática não compreendo, eu deduzo. Não posso aceitar sua pergunta.

(O Enigma de Kaspar Hauser, 1974)

O conhecimento humano não se funda numa tendência para o bem, mas diante de uma necessidade que lhe solicita uma resposta, uma solução. É diante do problema da própria existência que o homem passa a se interrogar e a interrogar o mundo. Toda forma de restringir o conhecimento a um determinado “método infalível” é tirar do homem essa capacidade imensurável de reconstruir-se como tal. A apreensão da realidade tem fins práticos, mas se constitui também enquanto pathos de admiração diante da necessidade e se transforma em conhecimento na medida em que resolve os problemas que se colocam diante do homem e se torna reprodutível socialmente. É na dimensão social do que se sabe que se funda o conhecimento e, por extensão, a verdade. No entanto, é também na dimensão social que os jogos de forças acontecem e a verdade é afirmada em quanto organização do mundo para cumprir os interesses dessas forças.

Conhecimento e Natureza Humana como Etnocentrismo

Ao longo da história contada no filme, embora Kaspar Hauser seja considerado humano, jamais foi liberto da tutela de outro para se manter, sendo obrigado até a apresentar-se em um circo para ajudar custear sua permanência na comunidade de Nuremberg. A visão que o homem construiu historicamente de si sempre foi etnocêntrica, relegando ao outro, o estrangeiro, um estatuto menor e uma oposição compulsória para sua existência plena.

Um ser capaz de cometer as maiores selvagerias contra seu semelhante constrói valores que lhe dá respaldo dentro de um estado supostamente civilizatório. O Homem que nega a natureza inscrita em seu ser e se dualiza ou se fragmenta para se constituir objeto para si e para outrem ao invés de se ver totalizado em suas diversas dimensões reunidas nas relações coletivas e socais e, assim, se fazendo em prol de algo transcendente a si, estará à mercê de seus instintos como o mais selvagem predador, porém com o cinismo daquele que engendra valores e falsa consciência coletiva para cometer o que lhe apraz.

Ser humano converge com a ideia de que ele se faz a partir da civilização, mas, sobretudo, deveria convergir com a ideia de que ele faz a civilização a partir de si e de como se define na relação com seus semelhantes. Como diz Sartre “somos o resultado do que fazemos com aquilo que fazem de nós”. Contudo, é inegável que o homem foi pródigo em construir a civilização para a resolução de seus problemas existenciais e passou a ser determinado por ela, pelo sistema de valores pelos quais ela foi erigida e, principalmente pela estética de um sistema de produção, cujo modo de ser se dá enquanto crise, desigualdade e desumanização sistemática na instrumentalização de outros seres humanos.

A civilização foi um processo gradual de adestramento do homem para a submissão de sua potencialidade a interesses específicos de determinadas classes privilegiadas e seu ideário “humanizador”. A civilização determina a natureza humana e a cobra coercitivamente para que se exerça em direção à conservação de seus pressupostos. A civilização não é a convergência de uma expressividade plural da diversidade do que nos distingue como humanos, mas sim a superestrutura moldada por uma classe para que o ser humano se enquadre a ela como ideal de ser humano. É com pesar que sou obrigado a admitir que o Ser Humano converge com a ideia de Ser Civilizado, quando na verdade deveria ser o contrário: ser civilizado deveria convergir com a ideia de ser humano; um ser aberto ao outro que se define enquanto relação entre Eu-Natureza-Outro.

Se hoje nosso modo de vida se encerra na civilização e se advogamos pelo existencialismo que alega a existência precedendo a essência, não ficaria difícil explicar como a civilização nos molda e nos moldou para que cheguemos ao estado atual das coisas. A questão não se reduz apenas a políticas de Estado ou Leis, mas na própria vida em sociedade, no cotidiano e até nas regras de etiqueta, pois segundo Norbert Elias:

"[...] o controle efetuado através de terceiras pessoas é convertido, de vários aspectos, em autocontrole, que as atividades humanas mais animalescas são progressivamente excluídas do palco da vida comunal e investidas de sentimentos de vergonha, que a regulação de toda a vida instintiva e afetiva por um firme autocontrole se torna cada vez mais estável, uniforme e generalizada. Isso tudo certamente não resulta de uma ideia central concebida há séculos por pessoas isoladas, e depois implantada em sucessivas gerações como a finalidade da ação e do estado desejados, até se concretizar por inteiro nos “séculos de progresso”. Ainda assim, embora não fosse planejada e intencional, essa transformação não constitui uma mera sequência de mudanças caóticas e não estruturadas." (ELIAS, 1990, p. 193-194)

A ideia-chave desse notável pensador é a de que a Condição Humana é um processo contínuo de construção do próprio homem, o que exclui a ideia de uma natureza fixa e dada (que não seja estritamente uma natureza plástica de ordem biológica e psíquica) ou até um fundamento último que nos distingue enquanto seres. Embora seja possível concordar que essa construção não seja planejada estritamente, ela reflete em grande medida e tem como condição de possibilidade valores que uma determinada classe engendra na sociedade a partir de um jogo contínuo de poder e tentativa de mantê-lo.

Herzog sabia disso. Usou sabiamente Kaspar para nos mostrar.

Referências Bibliográficas

ACHA, J. A.; PIVA, S. I. Antropologia Filosófica. Batatais: Claretiano, v. Unidade 2, 2013.

ELIAS, N. O Processo Civilizador. Tradução de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, v. II, 1990.

MORIN, E. O Paradigma Perdido: A Natureza Humana. 4ª. ed. Portugal: Publicações Europa-América, 1973.

O Enigma de Kaspar Hauser. Direção: Werner Herzog. Intérpretes: S. Bruno; W. Landengast; B. Mira e H. Musaeus. [S.l.]: Werner Herzog Produktion. 1974. 110 min.

SOUZA, B. P. D.; ALMEIDA, C. C. D. Um Olhar Semiótico sobre o Processo de Indexação: a questão da representação e do referente. Informação & Sociedade: estudos, João Pessoa, v. 22, n. 2, p. 23-24, Mai/Ago 2002. ISSN 1809-4783. http://www.ies.ufpb.br/ojs/index.php/ies/issue/view/982.

ZUBEN, N. A. V. A Filosofia e a Condição Humana. Reflexões, Campinas, v. 4, n. 3, Novembro 1993.

Filme no Youtube completo: http://www.youtube.com/watch?v=MxpuYFouR70


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