outras coisas na penumbra

Sob os auspícios do deus que dança

Gilberto Miranda Junior

Sob os auspícios do deus que dança...

As Minorias e a Esquerda (eleições 2014)

Ser esquerda sempre foi ser devir-minoria como toda minoria que a própria esquerda sempre se solidarizou. Os devires são sempre minoritários, plurais e diversos, por isso são todos. Os padrões sempre são majoritários, monolíticos, por isso é ninguém, vazio, apenas modelo. Se a esquerda se padronizar deixa de ser devir, de ser minoria e se polariza numa luta contra a direita jogando o mesmo jogo sujo desta, o que reforça a ojeriza crescente que temos presenciado.


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A disputa presidencial desse ano de 2014 veio trazer à tona o que já vivíamos há algum tempo dentro das redes sociais. E isso nos faz, talvez, alimentarmos uma sincera dúvida se o que se cristalizou nos discursos dos presidenciáveis (e em boa parte do mainstream da mídia) foi o que fomentou uma polarização mais acirrada no ambiente virtual ou se essa polarização do ambiente virtual é que cristalizou o atual discurso político. É uma análise interessante, mas ela ficará para outra oportunidade. O fato é que há uma relação complexa e de retroalimentação que recrudesce cada vez mais as polaridades, impedindo qualquer forma de diálogo. Muito disso se dá, sem dúvida alguma, via fundamentalismo religioso, mas, sobretudo, pelo medo de um devir sem controle, sem previsibilidade e que, substancialmente, nasce desafiando as seguranças do status quo.

Não seria demais imaginar a iminente possibilidade de essa polarização transcender questões cosmovisionárias ou ideológicas e passar a compor o repertório de confrontos físicos. Quer dizer, confrontos físicos maiores do que já existem quando vemos ainda jovens negros e pobres morrendo, sendo presos, mulheres estupradas e uma classe média padrão branca e asséptica horrorizada com o estado atual, assumindo discursos de ódio para tentar se defender de tudo que é desconhecido. Há uma sensação de refúgio no consenso, na maioria, no padrão e na tradição.

No entanto, o confronto físico já existe e é diário, cotidiano e já internalizado em boa parte da população dos locais à periferia dos grandes centros policiados. É uma massa de marginalizados que embora numericamente sejam maioria, são considerados minorias e almejam fazer parte do padrão social majoritário. Sim, é isso... Há um padrão majoritário, mas que dele não participa efetivamente a grande maioria das pessoas. Porém esse padrão majoritário se faz maioria porque é o local de refúgio que se encontra quando olhamos para o lado e não vemos nenhum caminho ou mesmo quando intuímos que qualquer caminho diferente tenha de ser construído por nós mesmos. Mas para que construirmos algo se já há um caminho pronto e temos que nos haver com nossa própria sobrevivência? Então nos protegemos na maioria (ou melhor, no padrão majoritário) e fingimos para nós mesmos fazermos parte de uma maioria mesmo sendo minoria. Para não haver confusão entre termos recorramos a Deleuze:

"Minoria e maioria não se opõem apenas de uma maneira quantitativa. Maioria implica uma constante, de expressão ou de conteúdo, como um metro padrão em relação ao qual ela é avaliada. Suponhamos que a constante ou metro seja homem-branco-masculino-adulto-habitante das cidades-falante de uma língua padrão-europeu-heterossexual qualquer (o Ulisses de Joyce ou de Ezra Pound). É evidente que "o homem" tem a maioria, mesmo se é menos numeroso que os mosquitos, as crianças, as mulheres, os negros, os camponeses, os homossexuais... etc. É porque ele aparece duas vezes, uma vez na constante, uma vez na variável de onde se extrai a constante. A maioria supõe um estado de poder e de dominação, e não o contrário. Supõe o metro padrão e não o contrário." (DELEUZE e GUATTARI, 1995, p. 45)

A polarização sempre será da minoria contra a maioria e a maioria reagindo, portanto, reacionária. Esse fato se dá porque as minorias (mesmo em quantidades maiores) não participam em seus devires do padrão, do consenso majoritário que reforça esse padrão. Nessa questão é emblemática a fala do candidato Levy Fidelix em que ele exorta a maioria (os que almejam ou participam do padrão majoritário) a oprimir e interditar as reivindicações da minoria em devir LGBT.

Mas pela internet ou pela política partidária de esquerda, o que vemos é uma pretensão da luta para se tornar maioria. E isso é um problema. Não há, como diz o próprio Deleuze, uma maioria alternativa. Será sempre o Devir versus o Ser. A crise decantada da esquerda se dá em grande parte porque a esquerda quer se enxergar padrão e todo padrão é vazio. Ser esquerda sempre foi ser devir-minoria como toda minoria que a própria esquerda sempre se solidarizou. Os devires são sempre minoritários, plurais e diversos, por isso são todos. Os padrões sempre são majoritários, monolíticos, por isso é ninguém, vazio, apenas modelo. Se a esquerda se padronizar deixa de ser devir, de ser minoria e se polariza numa luta contra a direita jogando o mesmo jogo sujo desta, o que reforça a ojeriza crescente que temos presenciado.

Fiquemos com Deleuze nessa entrevista que nos esclarece mais sobre essa questão:

http://www.youtube.com/watch?v=_Wer1VGBZi8

Referência:

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs - Capitalismo e Esquizofrenia. Tradução de Ana Lucia de Oliveria e Lucia Claudia Leão. Rio de Janeiro: 34, v. 2, 1995.


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