outras coisas na penumbra

Sob os auspícios do deus que dança

Gilberto Miranda Junior

Sob os auspícios do deus que dança...

Razão e Beleza - Nietzsche e a Tragédia Ática

Está mais do que na hora de nivelarmos os estatutos de nossas características, valorizando-os onde eles possam ser aplicados fora de relações de domínio, mas na integração humana a objetivos comuns discutidos em consenso. Utópico? Decerto que sim, mas factível como busca, como tentativa, como práxis.


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O termo ático designa um período da história grega, mas também a península ocupada pelos Jônios desde o sec. X a.C. onde se situa Atenas. É também um dialeto clássico que ficou conhecido como a língua dos bem nascidos, ou seja, um dialeto de prestígio. De sua popularização posterior surgiu o koiné falado até hoje. O Período Ático se reporta ao apogeu de Atenas marcado pelas vitórias nas guerras contra os persas e seu declínio após a derrota sofrida contra Esparta na Guerra do Peloponeso, marcando o início do período helenístico. O apogeu de Atenas significou o apogeu da criatividade grega e das suas realizações artísticas, bem como o início da Filosofia. Desenvolvida a partir dos cantos corais apresentados nas festas religiosas em honra a Dioniso (RIBEIRO JR, 2013), a tragédia emerge como gênero na segunda metade do século VI a.C. atingindo seu apogeu entre 480 e 400 a.C. Seu declínio é localizado a partir do sec. IV a.C. tendo como seus maiores expoentes três grandes poetas: Ésquilo (-525/-456), Sófocles (-496/-405) e Eurípedes (-485/-406).

Devido à sua origem derivada dos coros nos cortejos a Dioniso, a tragédia é vista por Nietzsche como a catarse necessária ao enfrentamento da existência a partir da criatividade e veia artística do povo grego. Nietzsche localiza seu declínio na virada que Eurípedes promoveu no gênero e no seu distanciamento em relação aos outros dois expoentes do gênero trágico grego. O nascimento da tragédia para Nietzsche se dá na conciliação das duas pulsões que representam as forças da natureza: a pulsão apolínea de ordem, harmonia, limite, sonho, beleza, distinção e de individuação; e a pulsão dionisíaca do transbordamento, êxtase, embriaguez, delírio, dispersão, desagregação e perda dos limites. Lima nos diz:

A tragédia promove o casamento entre Apolo e Dioniso permitindo através do mito o despertar da aparência e através da música o entregar-se ao sentimento orgiástico. Na tragédia essas duas forças se completam, se reforçam e se maximizam (...) (LIMA, 2011, p. 4)

Segundo Lima, Nietzsche entende que em Eurípedes esse “casamento” se desfaz, pois passa a obedecer um “impulso racionalista” e não mais os impulsos apolíneos e dionisíacos (LIMA, 2011, p. 6). Poderíamos também, em meu entendimento, filiar Eurípedes ao impulso apolíneo ao adentrar o palco o princípio de individuação do homem cotidiano e não mais, como na Tragédia Ática, promover o reencontro do espectador no “coro de forma universal” (LIMA, 2011, p. 5). Eurípedes expulsa da tragédia o elemento dionisíaco. Assim como nos períodos arcaicos, antes do período ático, Homero produz epopeias apolíneas, Eurípedes estaria preocupado com uma função social da arte, com clareza, com a racionalidade que, segundo Sócrates é o que produz o belo:

Eurípides substitui, assim, o herói mítico, que era Dionísio sob diversas máscaras, pelo homem cotidiano, expondo um espetáculo saturado da vida privada, centrado principalmente nos pequenos dramas cotidianos, apontando para o tipo de pensamento teórico, racionalista. Ocorre, dessa forma, uma grande revolução na arte trágica. (LIMA, 2011, p. 6)

E essa revolução seria, segundo Nietzsche, o fenecimento da tragédia a partir da obra de Eurípedes, onde o belo só o é se for inteligível e a virtude está naquele que sabe, mudando as características do herói que passa, a partir disso, a expressar um laço entre virtude e saber. Destarte, só poderíamos filiar Eurípedes e o próprio socratismo ao apolíneo a partir do fundo moral das obras que cumpre uma função social nos lembrando da epopeia homérica. Porém a comparação deve parar por aí. A racionalidade também destrói Apolo na mesma medida em que destrói Dioniso, pois precisa definir o belo ao invés de definir-se nele. Nietzsche acusa Eurípedes de socratismo: aquele que promoveu a grande guinada ao racionalismo que nega a vida e cujo fim é o niilismo:

Dionísio já havia sido afugentado do palco trágico e o fora através do poder demoníaco que falava pela boca de Eurípedes. Também Eurípedes foi, em certo sentido, apenas máscara: a divindade, que falava por sua boca, não era Dionísio, tampouco Apolo, porém um demônio de recentíssimo nascimento, chamado Sócrates. (NIETZSCHE, 1996, p. 79)

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O que parece não nos permitir filiar Eurípedes à Apolo como podemos fazer com Homero é que este ainda recorria sua epopeia ao aspecto metafórico e a tudo o que representa simbolicamente os dramas míticos trazidos com fundo moral e construtor da individualidade helênica. Sócrates vai além ao eleger a racionalidade como definidora do bom, do belo e do justo, retirando a beleza da experiência natural do homem conectado às coisas, e colocando-a submissa ao conhecimento. É preciso que levemos em conta, porém, a clara predileção de Sócrates por Apolo:

Sócrates foi condenado à morte por distanciar da juventude as tradições religiosas. Em contrapartida, ele mesmo se manteve fiel ao seu grande e poderoso Deus, Apolo, tanto que em sua clausura escrevia hinos de louvor a ele e considerava o templo de Delfos (o templo de Apolo) como seu baluarte. (KOEHLER e CANDELORO, 2012, p. 131)

Em Medeia, por exemplo, fica marcado o uso da palavra, do argumento e do diálogo para convencer e desenvolver a própria trama. A nova comédia ática de Eurípedes trará o prólogo em que se contextualizará a trama e a história a ser narrada antes da representação, dessa forma preparando e educando o público.

Conclui-se que a arte passa de uma instância de catarse e expurgo das dores da existência para um caráter civilizador e doutrinador, cujo objetivo é a reconstrução da subjetividade agora relegada ao racional e aos papéis sociais que devemos desempenhar. A partir daí o homem grego não pode mais ver-se em sua dupla condição: “ser indivíduo, delimitado, fragmentado e ao mesmo tempo ser ou estar no Todo, sem delimitações, sem fragmentações” (LIMA, 2011, p. 12) e assim enfrentar existência em sua tragicidade. A partir de Eurípedes, e mais claramente com Sócrates, a existência passa a ter uma finalidade a serviço de uma racionalidade que vê a si mesma mais do que ela jamais se tornará. É um otimismo vazio, quando, na verdade, o pessimismo helênico podia “excitar, purificar e descarregar a sua existência, o que confere à arte trágica uma força de transformação necessária à vida” (GOMBI, 2007, p. 3).

Não se trata, porém, de uma apologia ao irracionalismo, mas da consciência de que quase a totalidade do que atribuímos à razão refere-se, na verdade, a uma racionalização, ou seja, decisões e impulsos irrefreáveis que depois revestimos de beleza e sentidos racionais para justificarmos. Ou para ser mais claro: uma razão instrumental que serve como instrumento de poder, domínio e controle sobre o outro. Nosso sistema racionalizou tudo. Tudo é medido, racionalizado e leva a um objetivo que é vendido como sendo de todos, quando na verdade beneficia apenas alguns poucos.

Está mais do que na hora de nivelarmos os estatutos de nossas características, valorizando-os onde eles possam ser aplicados fora de relações de domínio, mas na integração humana a objetivos comuns discutidos em consenso. Utópico? Decerto que sim, mas factível como busca, como tentativa, como práxis.

Bibliografia

DALLA VECCHIA, R. B.; KRASTANOV, S. V.; ROMEIRO, A. E. Estética. Batatais: Centro Universitário Claretiano, 2013.

GOMBI, V. B. A Estética Socrática contra a Consideração Trágica do Mundo na obra O Nascimento da Tragédia. Revista Urutágua, Maringá, n. 12, Abr./Mai./Jun./Jul. 2007. Disponivel em: . Acesso em: 06 Out 2014.

KOEHLER, R.; CANDELORO, R. J. O Problema da Origem da Tragédia em Nietzsche. Griot - Revista de Filosofia, Amargosa, v. 6, n. 2, p. 122-137, Dez 2012. Disponivel em: . Acesso em: 04 Outubro 2014.

LIMA, S. M. M. A Morte Trágica. REEL - Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, n. 9. s. 2, ano 7, 2011. http://periodicos.ufes.br/reel/article/view/3722/2948.

NIETZSCHE, F. W. O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo. Tradução de J. Guinsburg. São Paulo: Cia das Letras, 1996.

NOYAMA, S. O Mundo é um Enigma: O uso do coro na tragédia e uma visão trágica do mundo. AISTHE - Revista de Estética do Programa de Pós-Graduação da UFRJ, Rio de Janeiro, n. 3, p. 53-60, 2008.

RIBEIRO JR, W. A. O Período Clássico. Portal Graecia Antiqua, São Carlos, 18 Dez 2001. Disponivel em: . Acesso em: 05 out. 2014.

RIBEIRO JR, W. A. A Tragédia Clássica. Portal Graecia Antiqua, São Carlos, 16 Jul 2013. Disponivel em: . Acesso em: 05 out. 2014.


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