outras coisas na penumbra

Sob os auspícios do deus que dança

Gilberto Miranda Junior

Sob os auspícios do deus que dança...

Para a Morte da Filosofia

Gosto mesmo quando dizem que a Filosofia morreu. Inescapavelmente começo logo a filosofar sobre essa arrogante sentença. Se mais acima eu disse que o desencantamento é a condição de possibilidade da Filosofia, seu móbil, então quando vaticinam sua morte é quando se começa a dar vida a Filosofia.


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Eu ouço muitas pessoas falarem do caráter inútil da Filosofia como algo que a desabonasse de alguma forma. Penso que se há esse caráter de inutilidade na Filosofia isso se constitui justamente seu maior trunfo diante de uma realidade que se reduz totalmente à sua utilidade para nós. Se as pessoas tem realmente essa percepção é sinal de que há esperança na Filosofia não só como campo de saber, mas, sobretudo como desencantamento de todo mundo dado. Mas não se enganem, pois quando falo da Filosofia enquanto desencantamento, não falo sobre algum caráter funcional dela. A Filosofia não serve para ou ao desencantamento, mas sim o desencantamento serve a ela como condição de possibilidade. O gérmen do desencantamento é o terreno fértil da Filosofia: o desencantamento que é útil. E como esse desencantamento acontece por diversos motivos e por diversas perspectivas, a Filosofia nunca acontece de forma única, por isso é tão rica e de espectro tão amplo, inclusive contraditório. De fato, não há algo que possa ser útil se em seu bojo há uma contra-adição.

Ademais, para aquilo que é útil de alguma forma, a Filosofia também está lá, dando corpo, explicação, visões, perspectivas e rigor nas considerações que o caracteriza e justifica sua existência. Por ser inútil, ela serve também a tudo, o que a torna também perigosa em certo aspecto de seu fazer. Não precisamos da Filosofia para dar voz à nossa necessidade de expressão daquilo que nos atravessa esteticamente; temos a Arte para isso. Não precisamos de Filosofia para obter conforto diante do imponderável e construir sentidos para nossa existência; temos a Religião e o Misticismo para isso. Não precisamos da Filosofia para descobrir o mundo em sua máxima funcionalidade e eficiência no que atende nossos interesses de domínio, controle e submissão de todo não-homem; temos a ciência e a tecnologia para isso. No entanto não teríamos nada dessas coisas sem que, em algum momento, a Filosofia rompesse a barreira da práxis e questionasse/colocasse conceitos pelos quais o homem pôde se expressar em suas potencialidades, seja através de um pincel, de um som, do êxtase de ligação a algo maior que ele, ou mesmo através do método de falseamento empírico de nossas tão importantes verdades provisórias. É na sua inutilidade que a Filosofia torna útil todo o resto, inclusive questionando logo em seguida o utilitarismo como alienação.

Gosto mesmo quando dizem que a Filosofia morreu. Inescapavelmente começo logo a filosofar sobre essa arrogante sentença. Se mais acima eu disse que o desencantamento é a condição de possibilidade da Filosofia, seu móbil, então quando vaticinam sua morte é quando se começa a dar vida a Filosofia. O desencanto pode desembocar na Filosofia ou pode desembocar no que Nietzsche conceituou como niilismo passivo, aquela nostalgia do sentido: apatia que nega a vida tanto quanto a desilusão da Vontade de Verdade que moveu a metafísica e a ciência antes da Filosofia do Martelo. O desencanto que leva à Filosofia é o niilismo ativo do qual também Nietzsche falou, não necessariamente como re-encantamento, mas como responsabilização e projeto. Usando de simbolismo, o necrotério da Filosofia funciona como o Arcano XIII do Tarô de Marselha: é morte e renascimento, renovação, re-significação compulsória para novos ciclos; a essência da dialética como ontologia da realidade. Uma ontologia não necessariamente objetivista, nem tampouco mística, talvez quase alegórica como arte, mas eminentemente filosófica.

Para terminar deixo uma pérola de Maturana:

Toda vez que queremos convencer alguém a agir de acordo com nossa vontade, e não podemos ou não queremos usar a força bruta, nós damos aquilo que afirmamos ser um argumento racional objetivo. Fazemos isso sob o pretexto implícito ou explícito de que o outro não pode opor-se a nosso argumento, porque sua validade é garantida por sua referência ao real. Fazemos isso também sob a afirmação adicional explícita ou implícita de que o real é universal e objetivamente válido, porque é independente do que fazemos, e uma vez apontado, não pode ser negado. Com efeito, dizemos que quem quer que não se renda à razão, ou seja, quem quer que não ceda aos nossos argumentos racionais é arbitrário, ilógico ou absurdo, e ao mesmo tempo afirmamos implicitamente que temos um acesso privilegiado à realidade que faz com que nossos argumentos sejam objetivamente válidos. Além disso, também afirmamos, implícita ou explicitamente, que é esse acesso privilegiado ao real que nos permite construir nossos argumentos racionais. Mas é essa atitude sobre a razão e a racionalidade racionalmente válida? Podemos de fato afirmar que é a conexão com uma realidade objetiva independente que dá à razão o poder de convencimento que afirmamos que ela tem ou deveria ter? Ou, inversamente, a razão nos dá acesso parcial ou total ao real, a ponto de nos permitir exigir para ela a validade coercitiva e universal que pretendemos que ela tenha ao tentarmos forçar, com um argumento racional, a agir de acordo com nossa vontade? (MATURANA, 2014)

Ou seja, toda pretensão de objetividade não passaria da procura de um argumento coercitivo em terceira pessoa. Talvez a agoniação constante da Filosofia não passe da não aceitação intermitente de todo tipo de coerção. Logo, toda afirmação ontológica que não leve em conta sua gnosiologia constitui-se em farsa a ser desmascarada pelo desencanto que ela provoca, emergindo assim a Filosofia em sua plenitude maldita e essencial inutilidade. Amém.

Referência:

MATURANA, H. Ralidade - a busca da objetividade, ou a procura de um argumento coercitivo. In: MATURANA, H. A Ontologia da Realidade. 2ª. ed. Belo Horizonte: Humanitas, 2014. p. 290-291.


Gilberto Miranda Junior

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