outras coisas na penumbra

Sob os auspícios do deus que dança

Gilberto Miranda Junior

Sob os auspícios do deus que dança...

A aula da Pitty – aprendendo a ser humano

A aula de Pitty é para todos os humanos e, mais precisamente, para aqueles que se acham mais humanos que o restante ao desumanizá-los compulsoriamente desde seu próprio modo de vida imposto como padrão a todo o restante.


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Em seu artigo publicado na revista TPM em 07/03/2015 (veja link no final desse texto) nos deparamos com uma verdadeira aula da Pitty. Não uma aula tradicional onde um suposto mestre se coloca como detentor de um conteúdo que leu e nos faz reproduzir chamando isso de ensino. Uma aula de formação humana só possível para quem vivenciou a própria construção de sua humanidade. Foi essa a minha sensação. Na hora em que comecei a ler, em suas próprias palavras, como ela está aprendendo a ser mulher, deparei-me com uma trajetória muito semelhante à minha na busca de ser alguém mais humano. Se ser mulher e ser humano podem ser sinônimos no contexto crítico atual em que vivemos eu não sei, até porque penso que ambos, sinônimos ou não, lidam com uma construção constante e ininterrupta, absolutamente voltada às contingências da dinâmica social em que vivemos.

Só que, inevitavelmente, a ficha da Pitty e de todas as mulheres que percorreram esse caminho, parece cair muito mais fácil do que a ficha de nós, os caras. Nós não precisamos querer agir como homens para depois perceber que o que queríamos era a liberdade de ser homem. Ao nascermos já adequados ao paradigma que nos abriga e nos privilegia, parece que desde sempre o mundo foi, é e sempre será assim, bastando que tenhamos disposição para usufruí-lo como ele é. Não que o caminho da Pitty seja mais fácil, pois é óbvio, como ela mesma narra, que ver-se discriminando o próprio gênero não deve ser nada agradável. Mas é quase impossível, enquanto partícipe do gênero opressor, exercer uma empatia tal que nos desvele o quanto reproduzimos e reforçamos a desumanização do outro. É preciso, diria, um “click” na cabeça e uma vida inteira de luta para desconstruir a ideia de que “posso, então devo” em relação a todos que estão em situação de inferiorização social em comparação conosco.

Uma mulher ao se despertar e ver-se machista sem ter a menor noção disso causa um assombro e um “click” automático. Ao homem, mesmo que ele consiga ver-se assim em algum momento, todo um aparato social blinda sua consciência para longe de qualquer “click” possível. Pior ainda é perceber que, mesmo privilegiados, não estamos acima da opressão. Para uma mulher como Pitty isso foi automático. Para nós homens, sempre estaremos acima da opressão, mesmo que reconheçamos o outro como oprimido. Pitty reconheceu o Mesmo, nós o Outro. As mulheres contam com as memórias da própria vida para retirar o véu que encobre o quanto seu “privilégio” (quando o tem, como a Pitty) mascara a opressão da “necessidade” de escolher a “roupa certa” para ir de ônibus para algum lugar em certos horários. A nós, toda recorrência à memória não nos dará nada, a não ser a confirmação de que não temos que nos preocupar, pois somos os donos do mundo. Ou seja, no fim do dia ainda seremos homens.

A aula da Pitty, definitivamente, não foi para as mulheres. Isso ela deixou claro ao se ausentar de todo julgamento, isentando-se de se colocar como Outro e falando da luta pelo o empoderamento que não é de uma facção, grupo ou adeptos de uma das teorias de gênero, mas de todas as mulheres: sororidade. A aula de Pitty é para todos os humanos e, mais precisamente, para aqueles que se acham mais humanos que o restante ao desumanizá-los compulsoriamente desde seu próprio modo de vida imposto como padrão a todo o restante. Esse texto é para agradecer à aula de humanidade da Pitty, apoiar todas as mulheres em sua sororidade e, sobretudo, confessar que por mais empatia que nós, homens, possamos lutar para desenvolver a favor da igualdade de gêneros, jamais seremos (nem devemos ser – portanto, lutem mesmo para isso nunca acontecer) protagonistas da construção dessa “irmanização” da humanidade. Que aprendamos, nós homens, não só respeitar e apoiar a sororidade de vocês mulheres, mas abrirmos mão compulsoriamente da fraternidade competitiva e falsa que nos une contra vocês, nos irmanando a todos pelo exemplo que vocês nos dão, sem protagonismo de nenhuma espécie. A união que vocês acham que temos é ilusória. A união é para garantia de privilégios e não tem nada de irmandade nisso. É uma aliança sempre provisória para afastar o inimigo comum que, afastado, abre caminho para nos digladiarmos. Ou seja, não sabemos sequer sermos fraternos para entendermos a sororidade de vocês. Ao nos ensinar em um contexto opressivo que não vivemos, estão nos dando a chance de ajudar construir algo novo que possa englobar todos aqueles que excluímos historicamente para competirmos entre nós mesmos, mudando esse eixo para uma cooperação entre diferentes, numa única irmandade humana.

Não sei se esse aprendizado seria possível, mas a aula está dada para aqueles que querem aprender.

Referência:

http://revistatpm.uol.com.br/mulheres-que-lutam/a-luta-de-pitty.html


Gilberto Miranda Junior

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