outras coisas na penumbra

Sob os auspícios do deus que dança

Gilberto Miranda Junior

Sob os auspícios do deus que dança...

Fenômenos mentais, comportamento e linguagem (esboços)

É possível esgotarmos o que seria a mente a partir dos comportamentos oriundos dos estados mentais?

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A neurofisiologia acredita que é possível estudar a mente humana a partir do estudo do cérebro, porém até o presente momento não conseguiram ligar um estado cerebral ao conteúdo de um estado mental, muito menos explicar o que causa esse estado mental. Isso não significa, porém, que não será feito algum dia equipamentos capazes de traduzir as sinapses em imagens ou sentimentos que, hoje, atribui-se apenas a um mundo privado e subjetivo. A grande questão a ser respondida é que tipo de ligação há entre um estado mental e a configuração cerebral do indivíduo. E, sobretudo, se é possível figurar esses estados mentais em terceira pessoa para analisá-los. Portanto, a meu ver esse assunto não pode ser reduzido a um âmbito apenas materialista ou dualista, pois talvez estejamos tratando de um falso dilema a partir de definições estritas que não fazem mais sentido diante do problema exposto, mesmo que tenha sido a questão desde a era moderna com Descartes.

Quando Teixeira afirma que o “monismo é a tese que sustenta que só existe um tipo de substância no universo, seja ela material ou espiritual” (TEIXEIRA, 1994, p. 5), a meu ver ele alimenta esse falso dilema. Não há razões (que não sejam por uma tendência mística) para considerarmos que há substâncias distintas dentro de uma mesma realidade. Pelo menos, metodologicamente, não deveria haver esse pressuposto. Pode-se, por outro lado, encontrar evidências concretas da existência de substâncias distintas, mas para isso é preciso encontrar até que ponto não se constitui de nossa própria maneira de pensar a ideia de que seja necessário o dualismo. Dessa forma, a necessidade do dualismo pode estar ligada a um problema de linguagem ou de categorias lógicas equivocadas que transformam o gerúndio que indica o estado de uma relação em substantivo.

Nesse aspecto Ryle, em 1949, tenta desfazer a ideia da substancialidade da consciência a partir de uma refutação ao argumento cartesiano. Segundo Ryle, Descartes teria criado o mito do Fantasma da Máquina ao representar “os fatos da vida mental como se fossem pertencentes a uma categoria ou tipo lógico, quando na verdade eles pertencem a outro” (RYLE, apud in ZILIO, 2010, p. 30). Esse erro categorial cartesiano teria surgido quando “termos mentais no gerúndio passaram a ser usados como substantivos” (ZILIO, 2010, ibidem), fato que teria facilitado a crença em uma entidade mental que passaria a ser tratada e entendida como uma substância. Por exemplo, podemos dizer que estamos pensando em algo ou sentindo alguma coisa, ou seja, estamos falando de um ato; sentir ou pensar. Porém logo estamos falando em pensamento e sensação, e dessa forma, transformando um ato, uma forma de ser, em uma substância através do mau uso de uma categoria lógica a partir de uma ilusão criada pela linguagem.

Embora essa perspectiva coloque em cheque a argumentação cartesiana para enxergarmos a mente como uma substância, não oferece, assim como a própria neurofisiologia, uma explicação plausível de como o cérebro causa um estado mental. Inclusive, não era esse o intuito de Ryle:

Os argumentos filosóficos que constituem esse livro [The Concepto f Mind] são projetados não para aumentar o nosso conhecimento sobre a mente, mas para corrigir a geografia lógica do conhecimento que já possuímos. (RYLE, apud in ZILIO, 2010, p. 32)

De qualquer forma Ryle inaugura uma abordagem lógica-linguística a partir da análise do volcabulário cartesiano, dando continuidade ao trabalho de Wittgenstein e influenciando pensadores como Carnap e Hempel que compuseram o Positivismo Lógico. A partir da assunção de Ryle foi possível traduzir os estados mentais ao comportamento do sujeito, tornando esses estados verificáveis. Esse empreendimento foi chamado de Behaviorismo Filosófico.

Porém, assim como a neurofisiologia possui seus limites a partir dos equipamentos que podem produzir para fazer a ligação definitiva entre estados mentais e atividade cerebral, o Behaviorismo Filosófico parece enfrentar algumas questões limítrofes. Seriam os comportamentos observáveis constituintes da mente ou meramente efeitos dela? É possível esgotarmos o que seria a mente a partir dos comportamentos oriundos dos estados mentais?

Referências:

MARACA, R. J. Filosofia da Mente. Batatais: Claretiano, 2013.

TEIXEIRA, J. D. F. O Que é Filosofia da Mente? Coleção Primeiros Passos - nº 294. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

ZILIO, D. A Natureza Comportamental da Mente: behaviorismo radical e filosofia da mente. São Paulo: Cultura Acadêmica - Editora UNESP, 2010.


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