outras coisas na penumbra

Sob os auspícios do deus que dança

Gilberto Miranda Junior

Sob os auspícios do deus que dança...

Não há coincidências para 15/03...

A classe média vê o pobre crescer, os ricos se tornando mais ricos e se revolta com sua estagnação como se não se tornar rico fosse equivalente a serem roubados, já que sempre foi a promessa meritocrática capitalista que um dia chegaria a sua vez.


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Em junho de 2013 um movimento ligado à esquerda do espectro político-ideológico promoveu uma manifestação sem líderes e sem ligação partidária com uma agenda clara que reivindicava o Passe-Livre em protesto não só ao aumento da passagem de ônibus, mas em protesto ao que, segundo pensavam, era direito básico e inalienável das pessoas: o ir e vir sem que isso tivesse que gerar lucros astronômicos a empresas que prestam um péssimo serviço à população.

Atônitos, empresas, governo e imprensa titubearam e demoraram a entender a amplitude do ato. O movimento catalisou os ânimos de uma população adestrada e letárgica que acostumou-se a aguentar tudo em silêncio e a se submeter a todo tipo de poder. Essa catalisação inaugurou um segundo ato nas manifestações e assistimos todos uma multidão apoiando e participando das manifestações a partir de julho de 2013.

Quase refeitos do susto, governo, imprensa e a direita tentaram encontrar formas de capitalizar em cima das manifestações e cada um, a seus modos e caráteres, agiram. As manifestações, até pelo menos ao meio do seu segundo ato, tinham muito a ver com o "querer mais", daquilo que é direito numa população que percebeu que crescia, evoluía e nunca teve tantos direitos e visibilidade social e econômica como nesses últimos 12 anos. O crescimento do Brasil chegava a um pico que impressionava ao mundo que amargava os nefastos efeitos da crise de 2008. Passávamos incólumes a ela, segurados pelo consumo interno e a ocupação de nossa capacidade ociosa na indústria.

Naquele momento confluíram três fatos que devem ser levados em conta: 1) Uma situação social sem precedentes no Brasil de quase pleno emprego e aumento real da renda e 2) Esgotamento de nossa capacidade ociosa e impossibilidade de crescimento sem investimento por parte das empresas e 3) Um cenário mundial em plena crise.

Concomitante a esses fatores, na esteira do Mensalão finalmente desmascarado como prática endógena, crônica e histórica de nossa estrutura política, o Brasil assistiu atônito a execução de um dos planos mais bem feitos de mascaramento de fatos e denuncismo vazio de nossa história, criando no imaginário das pessoas algumas ideais que mudaram o eixo da catarse promovida pelo MPL. Inaugurava-se o terceiro ato das manifestações, o antipetismo, agora não nas ruas e feito espontaneamente pelas pessoas, mas feito por uma rede de financiamento midiático e manipulador aludido como um grande locaute que dura até os dias atuais, véspera da manifestação marcada para o dia 15/03.

Assistencialismo barato e demagogia no lugar de visibilidade social e resgate da dignidade. Economia em crise por incompetência quando o mundo todo agoniza pós-crise de 2008. Escândalos jamais vistos no Brasil de forma partidarizada bem ao estilo maniqueísta, ao invés do desmascaramento da corrupção crônica que assola o país há pelo menos 500 anos. Empresas e a livre iniciativa como vítimas diretas da corrupção do poder, ao invés da percepção de que foi exportado para o poder público as práticas milenares que estão no próprio DNA do capitalismo como sistema de "vantagens competitivas".

Essas mesmas forças ocultas destruíram Getúlio Vargas, defenestraram Jânio Quadros e depuseram em golpe João Goulart, legitimadas pela consciência sequestrada de pessoas que batem panelas contra a ameaça comunista. Para essa gente, mexer no fosso que separa os "Homens de Bem" e o resto trata-se de uma ameaça comunista, justamente em um momento que, pela primeira vez, o capitalismo dava certo no Brasil e fazia capitalistas ganhar rios de dinheiro.

A classe média vê o pobre crescer, os ricos se tornando mais ricos e se revolta com sua estagnação como se não se tornar rico fosse equivalente a serem roubados, já que sempre foi a promessa meritocrática capitalista que um dia chegaria a sua vez. Inadmissível. Junta-se ranço, falta de estudo crítico e manipulação, o resultado é, necessariamente, impeachment e/ou a "proteção" militar.

Decerto, para a classe média tradicional, pouco importa seus direitos civis serem sequestrados por um regime militar. Esse tipo de preocupação pueril não lhes atinge na medida em que suas vidas medíocres de trabalho de 8 a 10 horas por dia só lhes dão tempo de pensar fora do sistema quando estão em trânsito para a casa e enquanto se lavam para assistirem o Jornal Nacional e a novela das nove. Os vagabundos que devem se preocupar com esse tipo de coisa são essa corja que acha que a vida é mais do que aquilo que fazem para sobreviver e ficam perdendo tempo pensando na vida miserável dos outros enquanto poderiam estar contribuindo para o crescimento do país.

Amanhã, dependendo da quantidade de pessoas que estiverem nesse lamentável ato golpista com claras intenções que a ditadura militar volte ao Brasil, estaremos diante da vitória da desinformação e da manipulação contra a legítima vontade e luta necessárias para que o país melhore, haja governança séria no poder público e a manutenção de nossa tão sofrida democracia. Não é necessário concordar com o governo e nem morrer de amor pelo PT (coisas a que me desalinho totalmente), mas é necessário, mais do que nunca, escolher suas batalhas e formas de lutá-las.

Portanto, cuidado...


Gilberto Miranda Junior

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