outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

"A Grande Noite" ri do abismo econômico francês

Dois irmãos, completamente diferentes em seu modo de viver e encarar a vida, vivem numa França imersa numa de suas maiores crises econômicas. Há também uma crise existencial assolando a Europa, que deixa de ser o velho continente, paraíso de um capitalismo que 'deu certo', para conviver com problemas sociais típicos dos países economicamente periféricos. Ah, o filme é uma comédia...


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A crise econômica em que a França está imersa mudou a face deste charmoso país. Mesmo a Paris das luzes e dos amores, convive com o desemprego e a miséria cada vez mais presentes em seu cotidiano. Até aí nenhuma novidade, nada que não se possa ver nos telejornais. A questão é que uma dupla de cineastas franceses, Gustave de Kervern e Benoît Delépine, juntaram-se para rir da situação. E o melhor, nos chamaram para rir com eles, com as cenas de Le Grand Soir (A grande noite na tradução em português).

O filme tem como personagens principais dois irmãos, muito diferentes em quase tudo. Not se autointitula o punk mais velho da Europa, e vive como tal. Toma banho em fontes públicas, come quando consegue, e vaga pelas ruas afrontando a propriedade privada. Seu irmão, Jean Pierre é vendedor numa loja de colchões, e como a maioria dos trabalhadores franceses, não tem um salário que lhe chegue para viver.

Ao ser demitido, Jean Pierre vê desmoronar dentro de si várias certezas comuns aos trabalhadores médios franceses. Not vê um momento ímpar para convencer o irmão de suas convicções anticapitalistas. Dá-se uma virada completa na vida e na história deles.

A narrativa é mastigada. Os personagens são indigestos, amargos, anárquicos. O cenário é o retrato de um continente que aos poucos vai perdendo o seu charme e glamour. Ou trocando isto por austeridade e solidão. Gustave e Benôit tem o que dizer, e vale muito a pena parar para escutar e ver. Juntos, a dupla já havia assinado Mamute, que também recomendo.

Até que ponto somos donos de nossos destinos? Até que ponto nossas escolhas individuais são realmente conscientes, e até que ponto são condicionadas pelo meio? Até que ponto o nosso tempo responde pelo que somos? Estas são algumas perguntas que pulsam nesta comédia de difícil digestão.


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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