outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

Deus e o diabo na terra de ninguém

Há 49 anos José Sarney assumia o cargo de governador do Maranhão. Para a cerimônia de posse em 1966 convidou Glauber Rocha, que produziria então um vídeo publicitário. Glauber filmou e editou um documento de 10 minutos. Se tinha a intenção de elogiar Sarney, não se sabe. Mas por algum motivo, o documento 'Maranhão 66' não foi utilizado nunca por Sarney...

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Nos últimos dias o Maranhão tem sido assunto, seja na televisão ou nas redes sociais. O desastre humanitário que acontece no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, registrado em vídeo e amplamente divulgado, é o motivo. Mas poderia ser também a profunda miséria existente no estado, ou a gritante desigualdade social entre os palácios de camarões e lagostas, e as favelas de fome e violência. O Maranhão podia ser assunto ainda, pelo domínio interminável do clã Sarney, que se estende desde a década de 1960.

O primeiro a assumir o Palácio dos Leões, casa do governo do Maranhão, foi José Sarney, hoje presidente do Senado Federal. Isto aconteceu em 1965. Dois anos depois de Glauber Rocha filmar o clássico Deus e o diabo na terra do sol que concorreu a Palma de Ouro em Cannes (1964), e lhe trouxe fama mundial.

Sarney convidou Glauber para filmar a sua posse, em 1966, e dela editar um vídeo publicitário. Maranhão 66, como ficou nomeado o documento, nunca foi utilizado por Sarney para fins publicitários. Depois de exibido algumas vezes, foi esquecido.

E no entanto, esta película tem muita importância, artística e política. Foi a primeira vez que Glauber filmou com som direto, experiência que lhe seria muito útil para Terra em transe, outro clássico seu. As tecnologias desenvolvidas à época davam conta de sincronizar perfeitamente o som e a imagem. Cineastas europeus já haviam realizado em som direto alguns anos antes, satisfatoriamente. Além disso, dois planos dos negativos de Maranhão 66 foram sobrepostos em Terra em transe, utilizados justamente para a cena do comício de Felipe Vieira (vivido por José Lewgoy), um político demagogo, populista e corrupto.

Foi também no set de filmagem de Maranhão 66, que Eduardo Escorel leu pela primeira vez o roteiro de Terra em transe, filme que o iria consagrar pela montagem magistral.

As cenas do documento são impactantes, ao fundo discursa Sarney, no primeiro plano vão as imagens de um Maranhão miserável, padecente de inúmeras mazelas sociais, chagas constantes na história do estado. Se Glauber pudesse fazer o mesmo hoje, com um discurso atual de algum membro do clã Sarney, e imagens atuais do cotidiano maranhense, será que filmaria algo diferente?

As cenas brutais de Pedrinhas nos dizem que seria algo muito pior...


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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