outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

Há 45 anos um terraço abriu-se para o mundo!

A última apresentação dos Beatles aconteceu há exatos 45 anos. The Rooftop Concert, de cima do prédio da Apple Corps abriu um terraço para o mundo. Foi antológico, mágico. Era o começo do fim de uma era!

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Era uma fria manhã de janeiro, mais especificamente do dia 30 de janeiro de 1969. Um vento insistente cortava o rosto e assanhava os cabelos de quatro rapazes que faziam sua última apresentação pública, no terraço do topo do prédio da Apple Corps. 

Pela primeira vez eram acompanhados, numa apresentação ao vivo, por um quinto elemento. Billy Preston, que já havia gravado algumas músicas com o Fab Four, arrancava notas de seu teclado.

A região em que ficava o prédio era uma região comercial. Escritórios de advocacia, consultórios médicos, escritórios executivos de grandes empresas, bancos, erigiam-se em grandes e pequenos prédios por todas as quadras. Mesmo em se tratando dos Beatles, alguém com certeza iria denunciar os acordes de George, a voz de John, o ritmo de Paul e a batida, precisa como nunca, de Ringo. A música incomodou, a polícia foi acionada, e o agente número 503 da delegacia de Westminster se imortalizou na história, por ter interrompido uma apresentação da banda que era mais famosa que Jesus Cristo.

Aquela gélida manhã londrina entrou para a história ao som de Get Back, Don't let me down e I've got a feeling. A ideia era tocar num lugar inusitado. As ruínas de Pompéia foram rejeitadas por Lennon e sobretudo por Harrison, por motivos óbvios. O terraço do prédio da Apple foi a solução. Michael Lindasy-Hogg foi o cineasta responsável por colocar a ideia de Paul na prática. instalou câmeras nos prédios vizinhos, preocupado com a iluminação natural e o mau tempo londrino, filmou de diversos ângulos para a futura edição. 

Uma curiosidade sobre a filmagem é a influência que sofreu do filme One A.M. (American Movie) de Goddard e Pennebaker. Ao prestar atenção a uma filmagem e outra, vê-se cópias fidedignas de alguns planos e contraplanos. 

O áudio não foi apenas capturado das caixas de som e amplificadores. Gravadores de áudio foram espalhados pela calçada em frente ao prédio para captar a reação do público. Há mesmo algumas imagens vindas das calçadas. Lennon parecia feliz, fazia paródias e contava piadas sarcásticas entre uma música e outra. Harrison estava veloz e ágil na sua Telecaster Rosewood, muito sério, mas milimétrico nos acordes, mesmo para o seu estilo.

"Algum morador ligou para a polícia e quando subiram eu estava tocando e pensei: 'Tomara que me prendam!' Estão filmando e teria ficado genial se os policiais tivessem carregado a bateria. Mas, naturalmente, não fizeram nada disso" - Conta Ringo no livro Antologia. E seria mesmo antológico!

Talvez nenhum deles soubesse que aquela seria a última apresentação pública dos Beatles. Um ano depois os quatro poriam fim ao Fab Four. Talvez não imaginassem que encerravam consigo toda uma era, que mudou a forma como o mundo escuta e vê a música popular.


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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