outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

Morte Súbita, de J.K. Rowling, surpreende

A leitura de Morte Súbita (The Casual Vacancy), livro de J.K. Rowling, é uma experiência singular e surpreendente. Em começo, pela simples mania de comparação presente em nosso cérebro, que nos faz buscar similitudes entre este livro e a série Harry Potter. Por fim, pela descoberta óbvia de que Rowling não é ‘apenas’ a autora da saga de Hogwarts!

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        Pagford é um pequenino e fictício distrito da cidade de Yarvil, habitado por tradicionais famílias que lá vivem, há muitas gerações, desfrutando da bela vista e da pacata rotina de uma localidade escondida no interior da Inglaterra. Uma Morte Súbita perturba a aparente calma da localidade, dando tema para o livro de J.K. Rowling, autora da série Harry Potter.

          A morte de Barry Fairbrother, membro do conselho distrital, é o ponto de partida para o desenrolar da trama. Vítima do aneurisma que causa a morte súbita do título, e oriundo do bairro pobre do lugar, Fields, Barry traduz o maior motivo de discórdia na nobre sociedade pagfordiana. Isto porque a maioria atribui ao bairro, e aos seus defensores, alguns problemas sociais vividos no lugarejo, como a sobrecarga na clínica de reabilitação para viciados em drogas Bellchapel. Já para os habitantes de Fields, pessoas pobres e desafortunadas, a morte de Barry é uma grande perda, pois ele era um representante de seus interesses no conselho, e sua ausência os faz presas fáceis daqueles que não os querem ali, coexistindo com os bem-perfumados filhos de Pagford. 

          Aliás, a ausência é um dos grandes temas da obra. A ausência das coisas, e pessoas, que ‘deveriam’ ali estar, e não estão, e de como pessoas diferentes tratam de forma diferente as ausências. Aqui é necessário abrir um parênteses, pois a edição em língua portuguesa (tanto no Brasil quanto em Portugal) deixou a desejar. O título original, The Casual Vacancy, dialoga precisamente com este aspecto da estória, da ausência (vacância) e de como ela é desejada e ansiada anteriormente pelos opositores de Barry. A própria capa do livro, com um ‘X’ dentro de um quadrado, como em uma cédula de votação, demonstra a ansiedade por preencher essa vaga, essa ausência, através de uma eleição. Já o título em português, Morte Súbita, fala apenas do repentino falecimento de Fairbrother, dando vazão ao sentimento de ausência, presente na obra, apenas vagamente, e deixando uma capa, tão bonita, sem sentido.

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         A eleição para preencher a vaga aberta pela morte de Barry, reacende o debate apaixonado sobre “a questão Fields” e dá o tom do debate público. Enquanto isso, um perfil de Facebook, chamado ‘O_Fantasma_de_Barry_Fairbrother’, divulga verdades inconvenientes sobre os adultos que participam da disputa eleitoral. Os jovens que administram esta página, são filhos dos adultos em questão, e subvertem os ‘valores da família pagfordiana’ tão caros a seus pais.

         Morte Súbita tem seu ponto alto nas relações humanas, tão aproximadas pela geografia do lugar, tão distanciadas por uma sociedade profundamente dividida e hipocritamente unida. Rowling mergulha fundo na psicologia das personagens, deixando entrever todo o tempo, uma guerra velada, uma falsa paz existente entre aqueles que necessitam efetivamente do Estado e de suas instituições, e aqueles que apenas querem utilizar essas instituições em benefício próprio. A mesquinhez das relações humanas, em Pagford, é inversamente proporcional ao tamanho do distrito.

         Com uma ironia cuidadosa e uma crítica social contundente, J.K. Rowling deixa para trás, definitivamente, a marca de ser “apenas” a autora mais lida e famosa de nossa geração, e conquista seu lugar, como uma das melhores escritoras de nossa época, com ritmo, enredo e trama comparáveis aos grandes nomes da literatura mundial. O livro é bem escrito e carrega o leitor do início ao fim com suavidade e apreensão ao mesmo tempo. Entretanto, para aqueles que seguem comparando-a com J.R.R. Tolkien, “devagar, que o santo é de barro.”


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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