outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

O feminino no cinema e o teste de Bechdel

É fato que, em sua luta por igualdade de gênero e por mais direitos, as mulheres conquistaram mudanças significativas no mundo inteiro. Entretanto, como anda a representação do feminino nas artes? Como o cinema vê a mulher nos dias atuais? Foi para responder a esta pergunta que, recentemente, foi lançado o estudo do Center for the study of Women in Television & Film.

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       Na última cerimônia de entrega do Óscar, Cate Blanchett, eleita a melhor atriz pelo longa-metragem Blue Jasmine (Woody Allen), apontou que a indústria cinematográfica continua a acreditar que “os filmes femininos, com mulheres no centro, são experiências de nicho.” A declaração da atriz australiana levantou polêmica: será, que em pleno século vinte e um as mulheres ainda são secundarizadas na telona?

    É exatamente a esta pergunta que o estudo do Center for the study of Women in Television & Film busca responder. Segundo apontamentos da organização, a relação de gênero em Hollywood ainda é profundamente desequilibrada, com as mulheres ocupando papeis secundários e sem importância.

       O estudo baseou-se nos cem filmes mais assistidos no ano de 2013, que em seu total contaram com pouco mais de 2300 personagens masculinos e femininos. Sobre estas, o estudo aponta que “as personagens femininas continuam mais jovens do que as masculinas. A maioria das personagens femininas está na casa dos 20 (26%) e dos 30 (28%)”. Apenas 30% dos papéis foram interpretados por atrizes com mais de 40 anos, enquanto as personagens masculinas com mais de 40 anos totalizaram 55% dos papéis. Além da representação etária, também salta aos olhos a composição étnica das películas, que traz um estado de completa sub-representação de negras, asiáticas e latinas, sendo as mulheres brancas nada menos que 73% das personagens. A disparidade entre personagens masculinas e femininas nas telonas é, também, gritante: para cada mulher há dois homens em cena.

       Apesar destes dados, que demonstram claramente a disparidade de gênero em Hollywood, o filme mais assistido em 2013 nos Estados Unidos, foi Jogos Vorazes: Em Chamas, que é protagonizado pela atriz Jennifer Lawrence. O que demonstra que tal não se deve ao gosto do público, e sim a uma clara escolha e visão de mundo de roteiristas, produtores, diretores (quase todos homens) e estúdios cinematográficos.

       Outro estudo, este divulgado no ano passado, é ainda mais profundo que a questão da desigualdade de gênero no cinema. Realizado entre 2007 e 2012, analisou os 500 filmes mais vistos no período, e deixou mais evidente a hiperssexualização do corpo feminino no cinema. Um terço das atrizes (28,8%) aparecem com roupas mínimas ou íntimas, enquanto isto acontece com apenas 7% dos atores, além de 26,2% das atrizes estarem nuas ou com alguma parte do corpo nua, isto ocorrendo com apenas 9,4% das personagens homens. 

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        Segundo os últimos dados da ONU (2010), a população feminina no mundo é menor que a masculina por uma diferença de apenas 57 milhões de indivíduos É justo dizer, portanto, que metade da população mundial é composta de mulheres, o que suscita a pergunta: porque tão sub-representadas na sétima arte?  

PORQUE A VISIBILIDADE FEMININA NO CINEMA NÃO É UMA QUESTÃO EDITORIAL

         Criado em 1985 pela ilustradora e quadrinista Alison Bechdel, o teste, que leva seu nome, consiste em três perguntas que demonstram o protagonismo feminino no filme em questão. As perguntas são: a. O filme tem pelo menos duas mulheres? Elas possuem nome próprio?; b. Essas mulheres conversam entre si?; c. Conversam sobre assuntos que não sejam homens ou relacionamentos amorosos? Se para alguma destas perguntas a resposta foi ‘não’, o filme não tem protagonismo feminino.

          A questão é saber se, no filme, as mulheres tem interesses e objetivos próprios, ou orbitam em torno do mundo masculino. Perceba que estas perguntas são transversais a todas as temáticas e podem ser aplicadas a qualquer filme que não se passe inteiramente dentro de um monastério ou um internato só para garotos.

           Fique dito que isto não é um questionamento a qualidade ou beleza dos filmes que são reprovados no teste de Bechdel. Há filmes sensacionais que são reprovados, como por exemplo Pulp Fiction e Django Livre. Por incrível que pareça, Tomb Rider, que tem por personagem principal a arqueóloga Lara Croft, também não diz sim a todas estas perguntas.

           Muito mais que uma visão editorial, esta é uma questão que envolve a visão de mundo dos que fazem cinema, e consequentemente dos que a ele assistem. Não se trata aqui de exigir preponderância de temas do “universo feminino”. Trata-se apenas de demonstrar o protagonismo feminino em qualquer estória, deixando evidente que as mulheres são as senhoras de sua própria trajetória no “mundo real”, tendo interesses, objetivos, sonhos e desejos que não dependem de um homem. Ou seja, trata-se apenas da arte conseguir imitar a vida. 

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Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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