outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

Capitães de Abril é a beleza de uma revolução nos olhos de uma menina

A Revolução dos Cravos é provavelmente a revolução mais bela e envolta em poesia da segunda metade do século XX, que foi cheio delas. A saída às ruas do baixio das tropas, com o clamor popular que o acompanhou, cativou corações e conquistou simpatia no mundo inteiro. Um grito de liberdade no país que primeiro se lançou ao mar.

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Portugal vivia o quadragésimo primeiro ano do Estado Novo, uma ditadura autocrata e conservadora que tinha no professor universitário Antônio de Oliveira Salazar a sua figura de maior expressão e referência, pelo que o regime também ficou conhecido pela alcunha de Salazarismo. À época do movimento dos capitães de abril, Salazar já havia morrido, e o poder era exercido pelo também professor Marcelo Caetano.

Entretanto, Capitães de Abril não conta esta história. A película se passa nas vinte e quatro horas que antecedem o movimento militar que depôs o regime salazarista e instituiu a democracia em Portugal. O Movimento das Forças Armadas (MFA) era composto por militares, em sua maioria capitães, que ansiavam por profundas mudanças na sociedade portuguesa. Isto se deu em 25 de abril de 1974, e completa 40 anos este mês.

E o que uma menina que vive a separação dos pais tem a ver com isso? Absolutamente tudo. Uma revolução, sendo uma profunda e radical mudança, revolve todo o tecido social e faz pulsar sentimentos e arte, onde antes reinava a apatia e a solidão. E é exatamente pela ótica falsamente inocente e profundamente poética, de uma criança, que Maria de Medeiros (também sendo a protagonista, Antónia) nos conta esta história em um filme comovente, belo e demasiado humano.

Quando uma estação de rádio toca Grandôla, Vila Morena (Zeca Afonso) música proibida pelo regime salazarista e que em seus versos traz o belo, singelo e direto “O povo é quem mais ordena, dentro de ti ó cidade!”, dá-se o sinal para que os militares tomem os quartéis e saiam em direção ao poder central para devolvê-lo ao povo, que mais ordena.

 

Foi com cravos espetados nas armas e canhões, distribuídos por uma florista lisboeta, que Salgueiro Maia (Stefano Accorsi o interpreta no filme) e os capitães adentraram o centro da capital portuguesa, com ideais democráticos nos corações e com um sorriso e uma simpatia popular que lhe abria as ruas e os caminhos em meio a uma imensa festa do povo português. Ao fundo da trama, a relação do casal protagonista, ele um militar revolucionário, ela uma professora de esquerda, pais da menina que nos conta a história, dá o toque pessoal aos dramas políticos e sociais da época, em uma intensa liberalização dos costumes e hábitos na sociedade lusitana. Representam em si, enquanto casal, a própria divisão que existia dentro do movimento entre trabalhadores e soldados socialistas e comunistas, e militares e intelectuais liberais. 

Pontuado por cenas de comédia, claramente inspiradas no melhor do realismo italiano, o lirismo infantil da película é uma tradução livre do que aconteceu naqueles dias de abril. Chico Buarque, o gênio da música brasileira, depois de perceber o desvirtuamento de alguns ideais iniciais dos cravos, muda a letra de Tanto Mar, onde fala da Revolução de 25 de abril de 1974, mas também do pior momento da ditadura militar brasileira que prendia, torturava, assassinava e buscava calar o povo brasileiro. E Chico disse assim:

   

 Mas disso o filme já não dá conta, pois se encerra com a menina, que nos empresta sua visão dos acontecimentos, dizendo que os pais separaram-se. O triunfo da revolução não lhes salvou o casamento, apesar de reunir a sociedade portuguesa em um dos capítulos mais belos da história da humanidade. A película é dedicada a Salgueiro Maia, este capitão que foi o centro das simpatias do povo português, que negou o poder pessoal quando lhe foi oferecido, e morreu muito jovem, desgostoso dos rumos que tomaram os governos depois de abril.

E é com esta esperança, de que esqueceram uma semente nalgum canto de jardim, que deve ser visto o filme (que é um de meus preferidos), em um momento em que a juventude de Portugal clama por mudanças sociais e políticas, ainda embalados pelos ideais de que é o povo, de fato, quem mais ordena, ou assim deveria ser!

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Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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