outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

Kon Tiki e as verdades improváveis

Seis homens em uma balsa de madeira na imensidão do mar por quase duas horas de filme. Parece, mas não é nada entediante. É um relato sobre uma história real que nos mostra que o improvável pode ser verdade.

       A lista de concorrentes, ao Óscar de filmes estrangeiros, é tão entusiasticamente vista, por nós brasileiros, como é rapidamente esquecida após o anúncio do filme vencedor. A verdade é que, quase a totalidade dos filmes concorrentes, em todas as categorias, são estrangeiros para nós. Principalmente o melhor filme, que em geral é o mais estrangeiro de todos.

      O vencedor do Óscar de filme estrangeiro de 2013 foi Amor (Michael Haneke), que é um belíssimo filme. Entretanto, o que me chamou mais atenção entre os concorrentes foi Kon Tiki da dupla norueguesa Espen Sandberg e Joachim Rønning. Primeiro por tratar-se de um filme com toda pinta de monotonia, pois mais da metade da trama se passa em alto mar, com seis homens dentro de uma jangada feita de pau-de-balsa (material mais leve que cortiça). Em segundo lugar porque, à primeira vista, dá todos os indicativos de ser um filme mais apropriado ao Discovery Channel. Nem uma coisa, nem outra. O filme é repleto de cenas de suspense e ação, além de demonstrar como é plenamente possível que o improvável seja real. 

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       Thor Heyerdahl (interpretado no filme pelo ator Pål Sverre Valheim Hagen), entre as décadas de trinta e quarenta do século passado, viveu em Fatu Hiva, na Polinésia Francesa. Estudando a cultura local, ele percebeu que havia dessemelhanças enormes entre esta e as culturas asiáticas, de onde sempre se acreditou ter vindo o povoamento da Polinésia. A partir de aproximações e estudos culturais, Thor chegou à conclusão de que os primeiros povos a habitar Fatu Hiva haviam chegado pelo leste, provavelmente vindos da América do Sul. 

       Não é preciso dizer que ele foi ridicularizado. Como é que povos originários da América do Sul pré-colombiana, sem bússolas, astrolábios e embarcações de porte oceânico, conseguiram atravessar mais de 8000 km? Era improvável. Mas as evidências eram impressionantes. Desde semelhanças entre a fauna e a flora das duas regiões, até a idolatria ao Deus Sol e criador do mundo, Kon Tiki, que os Incas chamavam Viracocha.

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        A genialidade, e loucura, de Thor consiste na sua não limitação aos debates teóricos, acadêmicos. Jogou-se ao mar com outros cinco, para provar que era possível atravessar o Oceano Pacífico em uma jangada rudimentar. E assim foram 101 dias em alto mar, enfrentando tempestades, paredões de corais, ventos contrários ao destino e tubarões à espreita. Tudo baseado nos diários dos tripulantes desta aventura que parece saída da imaginação de algum literato realmente inspirado, mas que é pura realidade.

        Apenas um detalhe foi modificado, da realidade para o filme, a personalidade do engenheiro Herman Watzinger (interpretado por Anders Baasmo Christiansen). Na expedição real, ocorrida em 1947, Herman era o número dois na hierarquia da jangada, sendo conhecido por ser o mais destemido e entusiasmado, depois do próprio Thor. Entretanto, como recurso de contraposição do argumento, o engenheiro é retratado como alguém reticente, despreparado e deslocado no contexto da aventura. São os diretores tentando dar verossimilhança a uma história real, que não o parece. 

          A expedição rendeu a Thor e seus amigos um museu na Noruega, além do status de heróis nacionais. Provaram que a teoria de Thor era possível, mesmo que ainda haja discordâncias sobre ela. E para, além disto, em um campo tão marcado pelas probabilidades e aproximações, demonstraram que o caminho pode estar no impossível, que a verdade e o conhecimento podem vir do improvável. Não ganhou o Óscar, mas merece não ser esquecido!

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Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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