outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

A Rua é Pública é uma crônica das nossas cidades

"Eles tinham a bola, o time e nenhum lugar pra jogar. Sem campo, quadra ou rua, algumas crianças do assentamento Eliana Silva, não acham que disputa de pênaltis seja uma grande aventura, mas isso está prestes a mudar."

A Rua é Pública from Under Son L'ima on Vimeo.

É com estas palavras que a equipe do cineasta Anderson Lima nos convoca para assistir o curta-metragem A Rua é Pública. Filmado na ocupação urbana Eliana Silva em Belo Horizonte (MG), o curta tem como pano de fundo um grave problema brasileiro. Sob a ótica de crianças que jogam futebol, disputam pênaltis, e se divertem com este esporte tão caro a formação cultural do país, desenlaça-se uma chaga social que nos acompanha.

O déficit habitacional é um dos mais graves problemas brasileiros, e é estimado em 6,940 milhões de habitações. O contraste é gritante com o crescimento vertical das capitais e grandes cidades, onde prédios com centenas de apartamentos possuem edifícios-garagens com milhares de vagas, cercados de grades e cercas elétricas, construídos sem nenhum respeito ao planejamento urbanístico, entupindo as vias e o esgoto da cidade. Esta contradição aquece uma pergunta: a cidade tem dono?

A-Rua-é-Pública-1_.png

Acontece que as empreiteiras e construtoras investem milhões de reais na campanha de vereadores, deputados, prefeitos, governadores e presidente da república. Em todas as esferas de poder há a poderosa influência deste setor da economia que se favorece de editais sob medida, vista grossa sobre licenças ambientais e o completo desrespeito às leis que regem o planejamento urbano das cidades. O resultado é que as pessoas tornam-se cada vez mais habitantes e cada vez menos cidadãs.

E o que crianças jogando futebol em uma ocupação urbana tem a ver com isso? Absolutamente tudo. O olhar da criança, já acostumada com as agruras de uma vida sem moradia digna, de difícil sobrevivência, de uma luta cotidiana pelo básico, é revelador. Revela uma obviedade que os donos da cidade teimam em não enxergar, e tentam nos convencer do contrário. 

Na brincadeira de dono da rua, aquele que ficava no meio da rua era o dono, e ao ver as outras crianças correndo tentava tocar em uma delas para assim abandonar a condição de dono da rua, tornando a criança alcançada a nova dona. A criançada sabe das coisas. Ninguém quer ser dono de algo que é de todos. A rua é pública, a cidade é pública, e apenas um adulto avaro e arrogante é capaz de arvorar-se dono da cidade e da rua, lucrando com a miséria alheia.


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hp, @obvious, @obvious_escolha_editor //Yuri Pires