outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

Luto pelo falecimento de um gênio

Poeta, literato, cronista, contador de histórias e causos, professor, militante cultural, apaixonado por futebol (e pelo Sport Club do Recife). São apenas algumas faces deste paraibo-pernambucano que conquistou o mundo falando de uma cidade com pouco mais de 10 mil habitantes!

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Ariano Suassuna levou ao extremo aquela máxima "quer ser universal? Seja profundamente regional!"

E foi. Poucos souberam, como ele, traduzir a imagem do matuto, do sertanejo, para olhos não acostumados às delicadezas e agruras de quem achata a cabeça carregando latas d`água na seca do sertão. 

Ariano foi Cervantes à brasileira. João Grilo, em sua luta contra moinhos de vento, absolutamente reais, como o eram também os de La Mancha, é o retrato fidedigno e fantástico do malandro carioca, e do cabra liso do sertão. Uma espécie de Garrincha da vida, cheio de ginga e cortando sempre pro mesmo lado. Mas não há como pará-lo, a não ser pela violência ou pela ignorância. Tal qual Garrincha, João Grilo segue driblando a vida pelo meio do mundo. 

Certa vez assisti uma palestra dele em que contava da situação em que um editor iria traduzir o Auto da Compadecida para francês e alemão. Contou ele que o cabra chegou e disse: 

- Mas seu Ariano, como danado eu vou traduzir João Grilo e Chicó para as línguas europeias? 

- E eu sei lá! - disse Ariano e emendou - agora se eu colocasse Pierre e Matheus em dois sertanejos paraibanos era a gota, não era?? 

- Pois eu só coloco nome em personagem que possa ser traduzido! -replicou o editor. 

-Pois você que se lasque! -disse Ariano. 

Luto pela morte de um gênio. O Brasil, e o mundo, ficam mais pobres. Se até a Compadecida chora a morte dele, choremos um pouquinho também!


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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