outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

Dimonólogo: arte ou esporte?

Você conhece o Dimonólogo? Talvez não, mas certamente já presenciou praticantes deste esporte em plena ação. Debater com outra pessoa sem levar em conta a opinião dela, e imputando-lhe afirmações sem que ela as tenha afirmado é uma arte, e há usuários das redes sociais que são inigualáveis nesta prática.

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Uma dúvida crepita em mim há muito tempo: o futebol é arte ou esporte? Já ouvi excelentes argumentos, tanto em defesa da primeira opção, quanto em defesa da segunda. Entretanto, ainda não cheguei ao ponto de professar uma certeza sobre esta atividade humana. Assim como não cheguei a nenhuma conclusão no que se refere ao dimonólogo.

O dimonólogo é um fenômeno de massas, tanto na apreciação, quanto na prática, assim como o futebol. Consiste em um princípio simples: não é porque um diálogo exige a participação de duas pessoas que elas precisam, necessariamente, interagir. E baseado neste princípio, a arte (ou esporte) do dimonólogo está em debater determinado assunto (que pode variar entre política, arte, cultura, aspectos da vida cotidiana, futebol...) com outra pessoa, sem levar em conta o que ela diz (ou escreve), e tentando provar sua superioridade. Não entendeu? Talvez um exemplo prático ajude:

– Eu acho a Marina muito parecida ao Aécio, principalmente no programa econômico, que é, no final das contas, o que interessa..."

"Vocês petralhas jogam sujo... querem colar a imagem da Marina na do Aécio!"

"Eu não sou petista, inclusive não vou votar na Dilma, mas acho que o que está aí é melhor que este 'novo'!"

"Vocês petistas tem medo do novo... porque vão fazer as malas do governo no dia 1 de janeiro!!"

"Não sou petista, nem moro no governo... só estou dizendo que 'dar autonomia ao banco central' e 'incluir os bancos privados na gestão da economia do país' não tem nada de novo, inclusive, nunca os bancos privados estiveram fora da gestão da economia do Brasil, inclusive nos governos petistas"

"Lá vem... está vendo?? Vocês petistas querem ser pais de tudo! Agora são pais da proposta de incluir os bancos na economia?"

"Não sou petista... e não pode ser uma 'proposta' algo que já acontece!"

"Claro... pois para vocês petistas, o mundo começou com o Lula não é??"

"É! Eu sou petista... Lula é Deus... e eu vou votar na Dilma só de raiva de você, seu descerebrado!"

"ESTÁ VENDO???? É SÓ APERTAR QUE OS PETRALHAS SE DENUNCIAM!!!"

É realmente uma técnica bastante apurada, sendo necessário ignorar completamente o que o outro está dizendo, e nem sempre isso é fácil. Mas os maiores expoentes desta prática se notabilizam por conseguir isto, e muito mais, com maestria e firmeza. O blogueiro e jornalista Leonardo Sakamoto é da opinião de que isto deve-se a fraca interpretação de texto. Eu sou da opinião de que isto é um esporte, mas às vezes acredito que é uma arte, e que a sua prática tem se difundido com particular eficácia na modernidade líquida das redes sociais. 

Sempre que eu vejo estes dimonólogos pela rede, ou quando acontecem comigo, eu imagino que o praticante do dimonólogo está, do outro lado da tela do computador, rindo alto com as mãos na barriga. Às vezes, quando vejo indivíduos rindo no metrô, com o celular na mão, imagino sempre: "ele está praticando dimonólogo com alguém... certeza!".

Mas o mais fantástico é quando o dimonólogo é praticado pelos dois lados ao mesmo tempo. São momentos raros, mas são épicos. Claro, que também há quem o pratique monotonamente, e aí é um tédio assistir ou participar. Mas em geral é bastante interessante, seja por diversão, ou para estudo antropológico. Eu recomendo fortemente, mas cuidado para não ficar contagiado e sair praticando por aí...


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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