outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

Quem matou João Antônio Donati?

João Donati foi assassinado em Inhumas (GO) entre terça e quarta (9 e 10). O crime, com claras motivações homofóbicas, chocou a cidade e o país. Não sabemos quem são os assassinos, mas é fácil identificar os culpados!


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Quando a polícia chegou, encontrou-o estendido no chão, com as duas pernas quebradas, com o pescoço torcido, e com um bilhete na boca, em que estava escrito: "vamos acabar com essa praga!". João Antônio Donati contava dezoito (18) anos quando foi brutalmente assassinado por mãos, ainda, desconhecidas. A barbaridade do crime revolta, comove, explode.

O corpo foi encontrado ontem (10.09), e as fotos da cena circulam pela internet. João era bonito. O sorriso de João impressiona nas selfies que ele gostava de publicar nas redes sociais. As imagens de seu corpo vilipendiado formam um contraste triste com a alegria que os amigos de João compartilham na internet, dizendo, do amigo: "sempre foi feliz."

A polícia declarou ao jornal que "suspeita" que o crime está relacionado a homofobia. João era homossexual. João assumia sua sexualidade publicamente. "Suspeita"? Resta alguma dúvida? Parece que sim.

E quem matou João? Ainda não se sabe, não há sequer "suspeitas". 

Mas a culpa pela morte de João é fácil de identificar: tem culpa as pessoas que acham que a sexualidade humana pode ser aprisionada em manuais; tem culpa aqueles que fazem piadas homofóbicas; tem culpa aqueles que se omitem, ajudando a invisibilizar a questão; tem culpa quem acha que há "direitos humanos" mais importantes e outros menos importantes (que quantificam sofrimentos); tem culpa você, que diz-se de esquerda, e acha que essa é uma "pauta" pequeno-burguesa; tem culpa você que "perdoa" a perseguição sexual quando é operada por governos "aintiimperialistas"; tem culpa quem fala em cura gay; tem culpa o político que usa os direitos humanos como moeda de troca com pastor fundamentalista; tem culpa quem veta kit anti-homofobia; tem culpa o autor deste texto que, imbecilmente, ainda se flagra "xingando" o juiz de futebol de "veado"!

João podia ter um futuro brilhante. Não terá mais. João podia ser um jovem cientista, professor, ator, escritor, jornalista, jogador de futebol, podia não ser nada disso, podia ser muito mais. Nunca saberemos. João foi abortado em vida, por uma sociedade que invisibiliza seres humanos. 

Mas a ameça "vamos acabar com essa praga" não é apenas para a comunidade LGBTTT. Não. Esta ameaça é para a humanidade que escondemos dentro de nós. A praga, a que os assassinos de João referem-se, é o sentimento humano, a dor pela perda de uma vida, a solidariedade com a família. Não deixaremos... não passarão: essa "praga" chamada humanidade sobreviveu ao nazifascismo, a santa inquisição, a diásporas e genocídios; continuará capaz de sobreviver enquanto alguém, em algum lugar do mundo, for capaz de chorar por João...

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Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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