outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

A incrível necessidade de contar estórias

A arte de contar estórias para as gerações mais novas é milenar. Provavelmente está dentre as habilidades desenvolvidas pelos seres humanos junto com a vida em sociedade. Atualmente temos delegado esta função ao cinema e, mais recentemente ainda, a aplicativos para celulares e tablets. O que isso diz sobre nós? O que pode causar às gerações futuras?


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Descobri um aplicativo, disponível para celulares e tablets, que conta estórias infantis e infanto-juvenis em várias línguas, e tem em sua memória centenas de estórias. Não sei se é um aplicativo recente ou antigo, mas vi recentemente e senti necessidade de arremessar o meu bedelho.

Acredito que o aplicativo foi desenvolvido na melhor das intenções: poupar tempo de pais e mães que trabalham. Quem se utiliza do aplicativo tampouco pode ser julgado, pois visa economizar tempo, o que é, certamente, importante.

Dito isto, eu afirmo que é um erro completo. Estórias e contos infantis não são apenas entretenimento e diversão. Não é à toa que o hábito de contar estórias para crianças é tão antigo quanto a vida em sociedade. Estórias infantis, quase sempre carregam forte carga emocional e ideológico-comportamental. São valores e crenças propagados de geração em geração, por séculos. É por este meio que crianças incorporam ideias abstratas como solidariedade, generosidade, sociabilidade, paciência, persistência, respeito aos mais velhos. A criança acostuma-se e assume os ideais da comunidade através das vozes paternas e maternas - ou de alguém que o valha -, o que investe o contador das estórias de autoridade e referência social. Delegar isto a uma máquina, um algoritmo frio e insensível, é a desumanização de uma das funções eminentemente humanas: ensinar.

Mais ainda, pois a contação de estórias não é um simples reproduzir. A tradição da oralidade, que repete estórias vocalmente, é responsável não pela continuidade, mas pela recriação, pela ressurreição das lendas e mitos populares. Quem conta cria, insere pessoalidade àquilo que imagina. Certamente todos nós temos uma visão absolutamente individual dos personagens das estórias infantis. Cada mãe e cada pai contam a lenda de uma forma própria, e cada criança a recebe, também, de uma forma própria.

Não se trata de um purismo. Sou da geração que vivia plugada (e ainda vive) nos videogames e jogos para computador! Estou dentre aqueles que sabe alguma coisa de inglês pela graça dos jogos da Nintendo. Trata-se de abrir caminho para a imaginação livre e desimpedida, da permissão natural de modificar e melhorar as estórias para além de seus autores.

O tempo de contar estórias aos mais novos, sejam filhos, sobrinhos ou netos, é daqueles tempos que não se deixam economizar, como o tempo de comer, dormir e ir ao banheiro. É das coisas que nos permitem, enquanto espécie, partir de um ponto zero cujo denominador tende a parecer-se.

Não entreguemos esta função a máquinas. A vida desumaniza o suficiente para que entreguemos as fábulas e fantasias à matéria fria. Como diria o genial Chaplin: "Não sois máquina, homem é o que sois!"


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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