outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

A internet e a Erística moderna

Você já presenciou (e/ou participou) na internet de uma discussão interminável que termina por debater coisas absolutamente diferentes do tema proposto inicialmente? Quem nunca? Os gregos sabiam a causa disto, e chamavam-na de Erística.

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Basta percorrer algum fórum online, ou as redes sociais – e desconfio que em algumas trocas de e-mails também –, para perceber discussões intermináveis sobre assuntos variados. Seja sobre a melhor cor de uma determinada camisa, ou sobre o Big Bang, a discussão parece nunca morrer, perder força ou resolver-se pelo consenso. Nos bares isto também acontece, mas o efeito do olho-no-olho inibe os arroubos filosóficos mais profundos. Por isso é que a internet, onde você não está olhando para a pessoa com quem está falando, é um território propício e incentivador da Erística.

Mas o que é Erística? Em poucas palavras, trata-se da técnica de vencer um debate através da argumentação. Platão, em seu diálogo Eutidemo, faz uma crítica feroz a este método. Afirmava o filósofo grego que todo diálogo deve ser empreendido em busca da verdade (ou o algo que mais se aproxime dela), e que não necessariamente deve sagrar-se alguém como vencedor.

Até aqui, nenhuma questão a ser levantada, pois quem argumenta (teoricamente) acredita que é verdade aquilo que afirma – quem argumenta aquilo em que não acredita tem problemas de outra ordem, que não serão tratados aqui –, e defende que o outro está equivocado. Entretanto, quem entra em um diálogo no intuito de vencê-lo, ou provar-se mais sábio que o outro, não está interessado em descobrir a verdade sobre o objeto inicial da discussão, na verdade o objeto inicial da discussão é apenas um pretexto para a própria discussão.

É óbvio que uma discussão que não se baseia na busca da verdade sobre o objeto discutido apenas serve como exercício de retórica, ou passatempo. Aqui reina o parecer ser ou invés do ser. À priori, um debate deste interessa apenas se levarmos em conta uma plateia, que ao final julgará (com aplausos ou likes) o vencedor do debate. Aí é que reside o problema.

Como os gregos antigos já tinham observado, a tendência deste debate é que se desenrole sem nenhuma atenção ao objeto e suas evidências, mas voltado aos argumentos e seus brilhantismos. Daí se multiplicam frases como: "todo mundo sabe que", "sempre foi assim e não há motivos para mudar", "a verdade está aí para quem quiser ver". Ao final, já não se sabe o motivo da discussão, pois os argumentos giram em torno de coisas completamente alheias ao objeto inicial.

Os Sofistas, mestres na Erística, diziam que os Retores (aqueles que dominavam a retórica e dela faziam profissão) estão um degrau acima das demais profissões, pois conseguiriam convencer qualquer um de qualquer coisa. Górgias diz a Sócrates, no diálogo que leva o seu nome, que um médico que não seja capaz de convencer seu paciente a ingerir determinado remédio, mesmo sabendo cientificamente da eficácia do fármaco, perderá o paciente para a morte. Em contrapartida ele, um rétor, conseguiria convencer o paciente a ingerir qualquer remédio, fosse cura ou veneno.

Entretanto, o uso da Erística, antes da internet, estava limitado as possibilidades físicas dos debatedores, pois não é possível discutir por tempo ilimitado sem dormir, comer, trabalhar e etc. Na internet já presenciei discussões que foram retomadas depois de um ano, e outras que duraram longas semanas. Isto porque as pessoas podem discutir enquanto fazem outras coisas necessárias. Invariavelmente estas discussões foram concluídas com tópicos e temas absolutamente estranhos ao objeto inicial proposto.

Como contraposição da Erística dos sofistas, Platão propunha o raciocínio dialético como método de investigação da verdade, pois mesmo não obtendo mais aplausos era o único que poderia aproximar-se dela. Na internet, aparentemente, o mais racional é evitar a aproximação de pessoas que tendem à Erística e ao truísmo.


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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