outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

E se o sinal azul do Whatsapp grudasse em você?

O desespero tomou conta das redes sociais quando do anúncio, há alguns dias, da nova atualização do Whatsapp que avisa quando uma mensagem foi visualizada pelo destinatário. E se, fora do ambiente virtual, um sinalzinho azul grudasse em nós sempre que ignoramos uma situação que merece intervenção? Seria, no mínimo, constrangedor.

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Na última semana as redes sociais incendiaram-se com a mais recente atualização do Whatsapp, que avisa ao destinador da mensagem quando o destinatário a lê, através de um símbolo azul de confirmação. Topo do Trending Topics do Twitter, o assunto também movimentou o Facebook, e o próprio aplicativo de mensagens. Mas será que isto é realmente algo muito preocupante?

É óbvio que esta nova funcionalidade - que já conta com tutoriais para bloqueio -, causou desconfortos e desavenças. Nada que alguém sincero não possa contornar com um simples: não respondi porque estava fazendo algo mais importante. Afinal, qual o medo que a sinceridade causa nas pessoas? Qualquer um de nós pode elencar, em menos de um minuto, mais de duzentas e cinquenta e uma coisas mais importantes que responder um "migoooo, cm vc tah??". Óbvio que isto não se encaixa em situações de emergência. Portanto, se alguém enviar uma mensagem no Whatsapp dizendo que está com falta de ar, febre, vomitando em meio a uma convulsão, a água fervendo para o café não é desculpa para não acudir em socorro.

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Ou seja, em condições normais de temperatura e pressão, todo este alvoroço é descabido, mas facilmente poderíamos imaginar situações em que não seria. Já imaginou se aquele sinalzinho azul ficasse grudado na pessoa sempre que ela visse algo e lhe virasse as costas? Seria, no mínimo, constrangedor.

Digamos que esta pessoa, chegando ao escritório, viu o supervisor estacionando o carro na vaga de deficientes do prédio. Olha para um lado e para o outro, e apenas as duas estão ali. Por conveniência, não repreende seu superior - capaz de aliviar a consciência com o pensamento de que todos fazem este tipo de coisas -, e dirige-se ao elevador. Pronto, lá estaria grudado em sua testa o sinalzinho azul, e todos ficariam sabendo que ela viu, e não falou nada.

Ou então naquele almoço de domingo com toda a família. O primo deste indivíduo, naquelas conversas de canto de parede, onde apenas os dois interagem, afirma: eu votei em Fulano de Tal, porque ele dará um emprego para meu filho. Esta pessoa é contra a corrupção, mas para evitar uma rusga familiar - podendo até ser acusado de apátrida -, transige e nada fala. Pronto, lá está grudado em sua bochecha o sinalzinho azul. E para onde ela for, lá percebem que viu uma corrupção e não falou nada (Tudo isso na frente da vovó!).

Sem dúvidas que nestas situações, e em muitas outras imagináveis, o constrangimento é o mínimo incômodo possível. Mas parece que este horizonte está distante, pelo menos por enquanto... sigamos nos desesperando com as amizades desfeitas pelo sinalzinho azul do Whatsapp. 


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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