outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

A luta do bem contra o mal no fantástico mundo real

Circulando pela internet é possível encontrar diversos vídeos, memes, imagens e discursos aludindo a uma luta eterna do bem contra o mal. Seja por disputas políticas, religiosas ou comportamentais, há sempre a necessidade de identificar um lado bom e um lado mal. Em recente discurso contra o governo um dos líderes da oposição disse que esta luta poderia ser resumida em uma frase: "o bem contra o mal". Mas será que é tudo assim tão simples?

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Não é possível precisar o momento em que as pessoas passaram a usar esta expressão no sentido de designar a contraposição de lados em uma disputa, mas é fácil descobrir que trata-se de recurso discursivo muito antigo. Na bíblia – livro sagrado para uma parte considerável da humanidade –, são inúmeras as alusões a esta luta. Em Efésios 6:12 encontra-se: "Pois a nossa luta não é contra seres humanos, mas contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal.". Ainda em se tratando de livros sagrados temos no Alcorão: "Isso porque aqueles que não creem seguem a falsidade (mal), enquanto os que creem seguem a verdade (bem) de seu Senhor" (47:3). Poderíamos ir longe, citando as diversas religiões que baseiam seus mitos e ritos na luta do bem contra o mal, mas exemplificando com uma doutrina mais recente, vejamos o que Allan Kardec diz em seu O Livro dos Espíritos: "O bem é tudo o que é conforme a lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário."

As artes não seguiram lógica diferente, e mesmo a filosofia, aqui e acolá, também valeu-se do discurso do bem (nós) contra o mal (eles). Vejamos, por exemplo, a obra A Queda dos Anjos Rebeldes do pintor flamengo Pieter Brueghel, reproduzida abaixo.

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No centro da imagem vemos o arcanjo Miguel em sua armadura dourada, com detalhes castanhos, expulsando os anjos rebeldes e transmutando-os em criaturas híbridas e vis. As tonalidades utilizadas na tela são marcantes: o claro e resplandescente está ligado ao bem, o escuro e sombrio liga-se, por sua vez, ao mal e as coisas malignas. Enquanto o arcanjo Miguel está coberto da cabeça aos pés, os corpos híbridos de anjos-demônios estão nus, e há aqui também a ideia de honra e vileza. Poderíamos examinar centenas de obras tão belas – e tão ideológicas – quanto esta, mas o resultado seria muito parecido. Você lembra de alguma obra que trate deste binarismo?

A literatura é repleta de exemplos da luta do bem contra o mal. O trovadorismo, e também o romantismo, caracterizaram-se por uma forte oposição entre o agente da narrativa e o seu antagonista. Os contos populares – com impressionante similitude em diferentes lugares e culturas –, são absolutamente maniqueístas em relação aos personagens. Vladimir Propp escreveu um livro sobre A morfologia do conto maravilhoso (Морфология сказки em russo), em que observava 31 funções presentes em todos os 499 contos populares russos analisados por ele (leia mais aqui). Além destas funções, Propp também observou que dentro delas, apenas 7 esferas de ação eram possíveis, e dentro destas esferas os personagens ou ajudavam o protagonista a conseguir o seu intento, ou atrapalhavam. Em outras palavras, ou faziam-lhe bem, ou faziam-lhe mal.

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Neste esquema proppiano os personagens não conseguem ir muito além disso. Há certo maniqueísmo na construção psicológica e identitária das personagens, cabendo a elas o papel de mocinho, ajudante do mocinho ou vilão. Qualquer coincidência com as telenovelas brasileiras e os blockbusters hollywoodianos não é por acaso. A maioria da nossa teledramaturgia e da cena cinematográfica estadunidense obedece as funções proppianas e a construção da personagem proppiana. Pode fazer o teste.

Entretanto, não é preciso ser nenhum gênio ou grande estudioso da psicologia para saber que o ser humano é infinitamente mais complexo que o binarismo bem/mal. O que somos é produto da construção histórica de nossa espécie, da cultura do lugar em que crescemos, pulsões e desejos reais e fictícios, para além de uma dose genética incerta e nebulosa para a ciência. Dito de outra forma, o bem e o mal que há no mundo está em cada um de nós. Em todos nós. Os seres humanos constroem-se e se relacionam mediante estes precedentes. Segundo Sigmund Freud: "Os vínculos entre os seres humanos são influenciados pela medida de satisfação das necessidades pulsionais que os bens existentes tornam possível" . E o que somos nós se não a soma de nossos vínculos com o mundo?

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É absolutamente entendível que indivíduos tentem, percebendo a fraqueza de seus argumentos, induzir outras pessoas ao binarismo do bem contra o mal. Este modo de perceber o mundo está tão entranhado na nossa cultura que absorvemos estes conceitos facilmente sem questionar. Basta ver que não há grandes perturbações nas audiências das telenovelas que retratam a mocinha/mocinho como encarnação da pureza, bondade, da conduta ilibada e irrepreensível; enquanto o vilão/vilã encarna toda a maldade que há no mundo, sendo incapaz de qualquer gesto de caridade ou compaixão, mesmo em se tratando de sua própria mãe.

Isto nos faz, talvez inconscientemente, buscar um lado em qualquer situação. Antes mesmo de analisar a contenda, é mais importante identificar quem é o bem e quem é o mal, e a partir daí tomar uma posição. No mundo líquido, em rápida transformação, vamos tomando posição sobre diferentes questões sem entender a profundidade destas posições. 

Mas não é razoável trazer este maniqueísmo para dentro das atividades humanas, ou para julgar a conduta de seres humanos. Esta tática discursiva serve apenas para esconder as motivações reais dos envolvidos na disputa (ora denominados bons ou maus), pois nada há para julgar em suas condutas, muito menos naquilo que defendem, porque se há um bem e um mal, estaremos sempre do lado do bem, ou não?


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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