outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

O estupro é uma arma cruel

Em discurso inflamado, no Congresso Federal, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) reafirmou que só não estuprava a deputada Maria do Rosário (PT-RS) porque ela não merecia. Isso não é novidade, infelizmente. Eminem recentemente ameaçou Iggy Azalea de estupro. Estudantes da UFMG foram flagrados cantando música em apologia ao estupro. Mas porque cultuar algo tão desumano?


Degas_Intérieur_Philadelphia_Museum_of_Art_1986-26-10.jpg

"Sua lembrança me assombra por onde quer que eu vá. Todas as vezes que eu ando sozinha pela rua e vou desviando de qualquer figura masculina que se aproxima, quando tá calor e eu prefiro não ir de shorts até a padaria, todos os dias ao passar pelo portão da UERJ eu sinto meu corpo arrepiado atordoada pelas memórias do dia que sujou a minha vida." (Carta ao meu estuprador - relato anônimo).

Este excerto foi retirado de uma carta catártica. A vítima, que não está identificada no blog, dá a dimensão do sentimento que carrega: "Sua lembrança me assombra por onde quer que eu vá.". São inúmeros os documentários e depoimentos disponíveis sobre casos de estupros, e é preciso não silenciá-los, nem invisibilizá-los. O estupro é assassino, cruel e fortemente enraizado em nossa cultura.

Sim, custa muito aceitar, mas o estupro é uma marca cultural forte e presente. Identificar o ato do estupro como proveniente de uma patologia psicológica do estuprador induz ao erro, e a perpetuação da cultura do estupro. Não é necessária uma grande pesquisa para descobrir: o estupro é algo naturalizado pela nossa sociedade.

O documentário The Invisible War traz 12 mulheres, oficiais do exército norte-americano, contando seus casos, de violência sexual, dentro da instituição militar. Segundo o documentário, uma soldada corre mais risco de ser estuprada por um colega de farda que de morrer em confronto com o inimigo. Os casos são inúmeros, mas apenas 8% vai a julgamento. “Instituição mais poderosa dos Estados Unidos, as Forças Armadas transformaram em política não oficial a negação das acusações, o descrédito das vítimas, a classificação dos críticos como antipatrióticos e a ameaça implícita de cancelamento de contratos com entidades privadas que sabem dos delitos.” afirma o diretor do documentário Kirby Dick. Estima-se que 500 mil militares (de ambos os sexos) foram estuprados da segunda grande guerra até os dias atuais.

The-Invisible-War-Movie-Poster-530x308 (1).jpg

Outro documentário fundamental para entender o tema é Weapon of war – confessions of rape in Congo, das cineastas holandesas Ilse e Femke van Velzen. Elas já tinham filmado Fighting the silence – sexual violence against women in Congo, que deu voz as mulheres (idosas, crianças e até bebês) violentadas. Mas em Weapon of War o foco se desloca para os estupradores: enquanto uns declaram, as câmeras, conviver com os fantasmas de seus atos, outros justificam que o estupro é uma arma válida para a desestabilização emocional do inimigo. Ou seja, esta é uma política de guerra, não um acidente de percurso.

Em 1965 Jean-Paul Sartre, denunciando os crimes do exército francês na guerra da Argélia, levantou a situação das mulheres argelinas estupradas pelos soldados franceses. Na Bósnia, estima-se que mais de 40 mil mulheres tenham sido estupradas sistematicamente, para fins de limpeza étnica. Os relatos mais antigos (como a Ilíada e a Odisséia de Homero) dão conta de mulheres que são consideradas prêmio de guerra, e que são levadas de suas casas pelos vencedores, para servir-lhes de escrava sexual.

Em setembro último um britânico de 33 anos, Peter Nunn ameaçou estuprar a deputada inglesa Stella Creasy pelo Twitter. Foi processado e condenado a 18 semanas de prisão. Em um dos tweets Nunn disse: "A melhor maneira de estuprar uma bruxa é tentar afogá-la primeiro e, quando ela tentar buscar o ar, então você penetra". Caso semelhante, no conteúdo, foi protagonizado por estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também em setembro. Entoando cânticos de apologia ao estupro, os jovens cantavam, entre outras coisas: "não é estupro, é sexo surpresa"; e em novembro, o cantor de rap Eminem teve vazada uma de suas músicas inéditas, em que ameaça Iggy Azalea de estupro. Ele canta: "Vadia, cala a p**** dessa boca e entra no meu carro. E chupa a p**** do meu c***** enquanto eu dou uma c*****. Eu penso com meu c*****, então vem enlouquecer minha mente. Tem gosto de torta humilde, então engole meu orgulho, você tem sorte só de poder me acompanhar no passeio, se eu te deixar correr ao lado do [veículo militar] Humvee. A menos que você seja a Nicki, te agarro pelo pulso, vamos esquiar. Então qual vai ser? Larga essa m****, Iggy. Você não quer soprar aquele apito de estupro comigo. Grita! Eu adoro"

CongoleseMarchSGBV.full.jpg

Como vemos, quando Jair Bolsonaro (PP-RJ) diz "não te estupro porque você não merece" para a deputada Maria do Rosário (PT-RS), não faz nada inédito, nem novo, nem criativo. Apenas reforça a ideia de desestabilização do inimigo pelo terror.

A perversidade do estupro está na forte carga emocional e psicológica da qual a sexualidade humana se investe. Não é uma violência simplesmente física, aliás não é nem principalmente física. A psicologia é unânime em afirmar que as sequelas de um estupro serão sentidas enquanto houver vida na vítima. Os casos de suicídios pós-estupro são altíssimos. Homens também sofrem com estupros e violências sexuais variadas, principalmente dentro dos sistemas prisionais, mas são as mulheres que mais sofrem com a cultura do estupro, sem dúvidas.

Sentir-se invadida e vilipendiada, para satisfazer um desejo egoísta e cruel, devasta a mais forte das consciências, e é por isso que a ameaça de estupro é sempre uma arma poderosa na mão de indivíduos que utilizam o terror como método de combate. O terrorista Bolsonaro não ameaça apenas Maria do Rosário, pois esta é uma ameaça que paira sobre a existência de cada mulher que precisa atravessar distâncias dentro de noites escuras, que trabalha à noite ou na madrugada, que convive em ambientes masculinos, que tem medo do seu marido ou namorado, que é violentada por pai ou por tios, que volta para casa depois de uma noite de diversão com amigos. E quem justifica, faz piada ou apoia suas declarações é cúmplice: perpetua a cultura do estupro!

E a cada 10 minutos uma mulher é estuprada no Brasil, pense nisso...


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Yuri Pires