outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

Eventos fake, um doping e a Lei de Godwin

A internet é terreno fértil para discussões inférteis, duradouras e raivosas. Dizem os mais cautelosos: "não leia os comentários", mas a interação não é justamente o diferencial das redes sociais?


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Grande parte dos usuários do Facebook reclama dos eventos falsos que se proliferam pela rede - no momento já começam a perder força -, enquanto outra grande parte confirma-os quase automaticamente, desde que haja graça na piada do evento. As timelines andam tomadas por eles, e dia desses surgiu um cujo título era o poema Os Lusíadas, de Camões, inteiro! Houve desfazimento de amizades depois da confirmação neste evento fake, com certeza!

As trivialidades engraçadíssimas destes eventos já não trazem o riso tão fácil, pois um dos pilares do humor, que é o surpreendente, o fantástico, já não acontece: todos nós esperamos ver um evento engraçado na timeline a qualquer momento. Isto foi trocado, nesta quarta-feira (04.02), pela discussão sobre doping, depois que o ídolo do MMA, Anderson Silva, foi pego em um exame. Claro que ainda cabe recurso, novo exame, revisão e etc, mas o Tribunal do Facebook - como bem nomeou Tom Zé - não quis saber disso e declarou: vergonha para o esporte brasileiro. Houve alguma discussão sobre o esporte de alto rendimento e os limites físicos dos seres humanos? Alguém esperou uma declaração de Anderson Silva, ídolo, até o dia de hoje, dos fãs deste esporte? Nada disso, é necessária a máxima urgência para o Tribunal do Facebook, pois, ao contrário da morosa justiça brasileira, ele não acumula processo e, amanhã, já crucificará outra pessoa.

E nem tente ponderar questões deste tipo, é inútil. Qualquer comentário que levante dúvidas sobre o exame, ou pondere que a substância utilizada pelo Spider é um fortificante ósseo, que pode ter sido usado no próprio tratamento ao qual ele foi submetido nos últimos meses, obterá logo respostas raivosas e imediatas: cúmplice, drogado, nazista!

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Não, não é exagero. Na década de noventa do século passado, um advogado estadunidense disse: "À medida em que cresce uma discussão online, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou o nazismo aproxima-se de 1 (100%)". Mike Godwin, autor desta frase, não conhecia o Facebook, nem o campo de comentários dos portais de notícias à época, mas ficaria espantado com a verdade contida em sua frase, décadas depois. Logo esta sentença ficou conhecida como A Lei de Godwin, que sinaliza que uma discussão está acontecendo apenas em torno de si mesma, sem nenhuma preocupação com a questão inicial que a motivou.

Depois de tantos anos, uma coisa é óbvia: isto é inevitável. Hatters gonna hate ou trolling for suckers, diriam os falantes da língua inglesa. Não importa onde, nem quando, os trolls de internet (que nada tem a ver com os gigantes mitológicos) estarão em seus postos para achincalhar, vociferar, escrever em caixa alta e odiar com todas as forças, algo ou alguém. Desta forma, rapidamente o assunto chegará a Hitler, extermínio em massa, nazismo, fascismo ou apocalipse, pouco importa se é um texto sobre a Petrobrás ou sobre o Estado Islâmico.

Agora pergunto: não era muito melhor todo mundo ocupado confirmando presença em eventos engraçados?

E segue o baile...


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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