outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

A minhoca amarela e o balde d'água fria

Quais os limites do real? Quais as fronteiras da ilusão? Porque adultizamos tão cedo os meninos e meninas ao nosso redor? A poesia que há no maravilhoso que uma criança pode imaginar é ilimitada.


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– Mãe, mãe, olha lá a minhoca amarela! – apontava a criança com a estridência que apenas a voz infantil, e a Gal Costa, tem; a vergonha estampava-se no jovem rosto feminino, ante a risadaria que se instalou na plataforma.

– Meu filho, quantas vezes eu preciso lhe dizer que isso é um metrô? Que não tem nada de minhoca? – ela disse num tom baixíssimo, mas escutável, dada a minha proximidade.

Lembrei-me, quase que imediatamente, das brincadeiras que me agradavam na infância. 80% delas estavam ligadas, direta ou indiretamente, ao futebol, mas havia algumas, não poucas – eu era bastante brincador –, ligadas ao espetacular, ao fantástico, ao extraordinário. Não consigo contar as lembranças em que fingia, por um dia inteiro, que era outra pessoa, um guerreiro, ou um músico famoso, ou mesmo um craque, camisa 10 do Náutico – está bem, 89% das brincadeiras estavam ligadas ao futebol.

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Certa vez, enquanto minha mãe pegava um sol na cadeira, à beira do mar, na areia escaldante de Tamandaré (cidade do litoral sul pernambucano), eu me banhava no mar atlântico, quando lá pelas tantas, um monomotor passou dando rasantes na praia (anos 90). Eu, absolutamente fanático pelos filmes de Chuck Norris e Steven Seagal, corro em direção a minha mãe berrando a plenos pulmões:

– Todos pro chão!! Todos pro chão!!! Eles vão atirar! – e, coerente com meu alarme de guerra, atirei-me aos pés de minha mãe, enterrando braços e cabeça na areia branca.

Minha mãe não ralhou comigo, talvez menos por falta de vontade, talvez mais pela perda de voz instantânea, causada pela profunda vermelhidão que, muito provavelmente, escorria do seu rosto para a sua garganta e dali rumo a sua autoestima.

Mas voltemos para a minhoca amarela e o balde d'água fria que a mãe, dos anos 2015, jogou na criança ali, bem em minha frente. Penso que a neurose racional é uma mania, e um vício dos nossos tempos, e nutrimos seriamente a ilusão de uma existência cartesiana e retilínea, o que é absolutamente impossível, como já sabemos de há muito. Toda digressão, toda abstração, toda hipótese fantástica, deve ser submetida ao crivo racional, objetivo, realista. É a financeirização do pensamento.

As crianças se rebelam contra este método, em sua própria linguagem imaginativa, mas hora ou outra, a mãe a convencerá que o metrô não é uma minhoca. Também a convencerá que as nuvens não são de algodão-doce, e depois que os monstros não existem – ora se não! –, e que não é possível furar um túnel daqui até o Japão, e que animais não conseguem se comunicar com as pessoas, e que aquele amigo imaginário, é só imaginação.

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É óbvio que as crianças vão aprender, com a própria entrada na vida adulta, as fronteiras entre o real e o fantástico – que é uma fronteira quase invisível, facilmente ultrapassável –, principalmente naquilo que diz respeito a tarefas e funções necessárias a vida em sociedade. Mas qual o interesse em empaletozar o imaginário infantil tão cedo? Porque amordaçar o mundo de possibilidades fantásticas que o maravilhoso desnuda?

Não fosse a possibilidade da ilusão tornar-se real, o que seria da arte? E o que seria da filosofia sem a abstração? E se a física seguisse acreditando que o único real possível é aquele que nossos sentidos limitados captam? Onde estaríamos? Ao insistir em tolher a criatividade infantil, colaboramos para um mecanicismo grosseiro, uma formatação quadrada da infância. Contribuímos sobretudo para um realismo adulto cínico, que se alastra em nossos dias: tudo o que está posto é imutável e irreversível, é o único real possível, tratemos pois de tirar o maior proveito.

Enquanto o metrô avançava com velocidade, lembrava de um causo contado por minha mãe, quando eu era criança. Dizia ela, que um poeta, tendo chegado novamente atrasado para uma sessão de fisioterapia, justificou-se com a fisioterapeuta dizendo que perdera a hora por estar na beira da praia, olhando o vento beijar os cabelos dos coqueiros. Ela riu, e disse que coqueiros não tinham cabelos; ele riu, e disse que a doutora não tinha poesia!

E lá se ia, a mãe carregando o filho pela mão, para a escola – a julgar pela farda –, e eu ficava para trás, sentado no estômago da minhoca amarela. Queria ter cochichado para ele, queria ter dito que também via uma minhoca amarela, mas não o fiz. Talvez ele se risse, e a mãe também, e os que estavam ao redor. Certamente ririam, mas que fazer? O poeta é uma criança, brincando de cor, no mundo cinza e empoeirado de concreto e metal.


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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