outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

Macunaíma: duas obras tristes à procura do Brasil

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, foi escrito em poucos dias do mês de dezembro de 1926, em Araraquara (SP), pelo gênio modernista Mário de Andrade; Joaquim Pedro, no ano de 1969, releu Macunaíma no cinema. Macunaíma é a procura pelo Brasil que todos nós deveríamos estar fazendo agora!


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No livro Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade, e no filme homônimo de Joaquim Pedro, o grande tema é o Brasil, sua cultura, sua gente. Entretanto, não é o mesmo Brasil, e isto é percebido rapidamente ao comparar as duas linguagens artísticas.

A obra literária e a cinematográfica buscam dar conta de uma ideia de identidade nacional, desencontrando-se no momento histórico em que acontecem, unindo-se em torno de um humor melancólico cujo futuro não pode deixar de ser uma tragicomédia, seja nos braços de uma lírica moderna, seja nos braços de uma alegoria que dialoga com a guerrilha pós-AI-5 e com a pornochanchada.

Colaboram para esta análise duas passagens, uma da rapsódia e outra do cinema. No livro, Mário assim descreve o encontro do herói sem nenhum caráter com a Cotia:

"Então pegou na gamela cheia de caldo envenenado de aipim e jogou a lavagem no piá. Macunaíma fastou sarapantado mas só conseguiu livrar a cabeça, todo o resto do corpo se molhou. (...) Porém a cabeça não molhada ficou pra sempre rombuda e com carinha enjoativa de piá." (pág. 19)

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No filme, o fim de Macunaíma é significativamente diferente da obra em que se baseia. Se no livro Macunaíma cai nas garras da Uiara, mas não se acaba ali, pelo contrário, briga com ela e retoma tudo o que é seu (à exceção da perna e da Muiraquitã), e cansa de viver na terra, por não ter motivos (não vim no mundo pra ser pedra), no clássico cinemanovista ali se acaba o herói, nos encantos da Uiara, com um casaco verde-oliva, referência clara aos uniformes militares, banhado em sangue vermelho vivo.

A primeira citação, do capítulo A Maioridade, não está presente no filme, mas aponta na direção da visão de Mário acerca do Brasil: um adulto com cabeça de menino, um colosso irrealizado, uma obra inacabada. Na cena de Joaquim Pedro, diversa do original de Mário, a violência militar é retratada no encanto da Uiara, na contradição eterna entre segurança e liberdade. Macunaíma, mesmo só, abandonado pelos irmãos cansados de sua desfaçatez, não pensa em se redimir, buscar um "caminho" diferente; tudo que ele quer é seguir brincando, gozando a vida como antes, e por isso cai nas garras da Uiara e morre.

Mário procurava uma síntese do Brasil, um caminho pelo qual a nação pudesse realizar-se, mas ao fim de sua obra, o herói sem nenhum caráter desiste "dessa terra". Na volta para o mato virgem, onde foi parido, Macunaíma não se reconhece mais, sozinho, com a lembrança da metrópole dentro de si, nas memórias do amor por Ci, mãe do mato/guerrilheira - Qual, manos! Amor primeiro não tem companheiro, não! -, na Muiraquitã achada e perdida novamente. Assim também na obra de Joaquim Pedro.

A última perda da Muiraquitã é, para mim, a chave para decifrar as diferenças entre filme e rapsódia em favor da unidade das obras. Discordo frontalmente daqueles que advogam a obra de Joaquim Pedro como sendo uma leitura antropofágica, oswaldiana, da obra de Mário. Se em Mário a Muiraquitã é perdida finalmente na luta de morte contra a Uiara, em Joaquim Pedro o herói se desfaz da Muiraquitã voluntariamente, para mergulhar ao encontro da Uiara e de seu canto. Aqui a leitura do momento, em que foi escrito o livro e de sua adaptação/releitura para o cinema, é fundamental. A morte de Macunaíma em Joaquim Pedro é recado claro, objetivo, militante: ou o povo mantém sua essência (Muiraquitã) e combate, ou se deixa levar pelas ilusões de uma vida só de gozo, abandona sua essência, e morre. Em Mário esta preocupação inexiste, ele apenas constata: o herói cansou, destinou-se ao céu para a eternidade e pode ser visto na constelação de Ursa Maior.

Entretanto, nas diferenças de leitura entre as duas obras, uma semelhança sobressai: o pessimismo tragicômico. Macunaíma é vítima e algoz de si mesmo, é o pior e o melhor do Brasil, é a celebração e a derrocada de uma nação em vias de se realizar em todo o porte físico de um gigante, mas que diante de sua cabeça infantil produto de sua pusilanimidade, destina-se a sempre cair no canto da Uiara.

Macunaíma é a tapa na cara que estamos pedindo, e da qual estamos fugindo, desde sempre; é a reflexão fundamental de um povo que se nega a crescer, sempre à procura de um herói que o salve das desgraças próprias da vida adulta. De sua procura pelo Brasil, pela Muiraquitã, Mário retornou melancólico, triste, pessimista - nenhum Brasil existe, diria Drummond -, resta saber se a nossa procura resultará em algo diferente. Aparentemente dependerá da nossa capacidade de mergulhar em nossos problemas, enfiando o dedo em cada ferida, aprendendo com cada vergonha, assumindo a tarefa de realizar o Brasil.


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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