outras palavras

História, cinema e música... Não necessariamente nessa ordem, ou nesse mundo!

Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra.

Diário de uma Revolucionária retrata Pagu para além do óbvio

Cinco atrizes, um relato, a devoção frustrada, o intento irrealizado, o desígnio vão. Todos esses elementos estão dispostos no pequeno palco da Companhia do Feijão, na montagem da Cia às Favas sob direção de Pedro Pires. Diário de uma Revolucionária é o relato de Patrícia Galvão (Pagu) sobre seus sonhos e frustrações. O recorte e a interpretação podem ser resumidos em duas palavras: pujança e entrega.


Baseado em Paixão Pagu, texto autobiográfico produzido no intuito de servir de carta para o seu marido à época, o espetáculo O Diário de uma Revolucionária está em cartaz na Companhia do Feijão, Rua Dr. Teodoro Baima 68, República, São Paulo.

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As atrizes Inês Soares Martins, Mila Fogaça, Natália Xavier, Thais Podestá e Vanessa Garcia se desdobram e suam bastante para fazer ver, no palco de arena, a infusão da sensibilidade Pagu na aridez fervente de sua época. Patrícia Galvão, em geral vista como excêntrica e tresloucada, se mostra em linhas de profunda convicção e combatividade ante o arbítrio dos poderes de então. A descrição do comício em Santos – cidade em que o PCB (Partido Comunista Brasileiro) teve muita influência na primeira metade do século XX –, que terminou desfeito pela polícia com truculência e terror, resultando no falecimento do dirigente local do partidão, é forte.

A pluralidade na interpretação – as cinco atrizes revezam-se entre Pagu e seus interlocutores – carrega possibilidades de leitura: seria uma mulher de mil faces? Seriam todas as mulheres uma Pagu? Seria, muito pelo contrário, uma simbologia da coletividade a que Pagu dedicou toda a vida, na luta política ou na divulgação artística? O que fica evidente é que essa pluralidade não apaga a singularidade das interpretações individuais. O paralelo entre a carga pesada nas empresas de teleatendimento dos dias atuais e as agruras vividas pelas operárias fabris do início do século passado, por si interessantíssimo, não seria tão impactante sem o riso dolorido de Natália; tampouco as loas lusitanas seriam tão comoventes ou as ordens arrogantes do arbítrio seriam tão asquerosas não fosse a dicção exata e a voz poderosa de Inês. Thais Podestá é segura em sua atuação e atrai a atenção para a movimentação em cena. O jogo com os caixotes, quase dança, simétrico, quase luta, é muito bem executado. Mila e Vanessa, em sendo Pagu, comovem profundamente. A expressividade das duas cativa desde os primeiros minutos, a força das expressões faciais vem direto dos desenhos de Patrícia para a face iluminada das duas atrizes. A sensação, para o expectador (para mim, pelo menos), é de mergulho nos olhos marcantes de Mila Fogaça. As brincadeiras rigorosas que ela faz com as tonicidades de sua fala são ponto alto da peça. Vanessa, juntamente com Inês, é a gravidade da leitura que a peça propõe sobre os diários de Pagu. Se o texto não fosse bom, a interpretação valeria.

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Apesar das tragédias que se sucedem no palco, há espaço para o humor – sem que ele dilua a tensão da narrativa, tendência tristemente comum na dramaturgia atual – e aqui percebemos o dedo do diretor. O equilíbrio entre forma e conteúdo é essencial para que a arte se realize como reflexão e ressignificação de sentidos. Apesar do enredo se encerrar no momento em que Patrícia viaja para a União Soviética, é possível antever os elementos todos de sua futura desilusão com o PCB. O (s) recorte (s) do texto é uma escolha. Escolha essa que pode resultar em descontinuidade ou em reinterpretação do texto, e, para um leigo nas artes cênicas, como é o meu caso, Diário de uma Revolucionária é uma reinterpretação fundamental do texto de Pagu.

Recomendo fortemente.


Yuri Pires

Poeta nas horas vivas, estudante nas horas vagas, professor de português nas horas pagas. Autor de O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014). Atualmente no exercício de aprender a ser pedra..
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