outras teclas

Voz que chega pelos olhos

Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador.
Ambas me seduzem

Diálogos Contemporâneos

Qual o tamanho do impacto sofrido em nossa comunicação verbal com o advento das redes sociais? Como são conduzidos, a partir daí, nossos relacionamentos interpessoais?


maq.jpg

Primeiro (?) foram os chats, icq's, messengers, não necessariamente nessa ordem. Ihh!, mas foram tantos... Onde isso começa? Sei lá! Se formos pensar unicamente em ferramentas de propagação da informação, estaremos falando das tábuas da lei entregues por Deus à Moisés - os primeiros tablets de que se tem notícia. Já se pensarmos na troca rápida da informação - favorecida pelas benesses tecnológicas desse nosso mundo pós-moderno - ou seja, em via de mão dupla, começaremos muito tempo depois, bem ali atrás. Aí entram os torpedos, sms's e os acidentes por estes causados, literalmente também falando, se estes estiverem sendo trocados numa via de mão dupla.

Mas deixando um pouco de lado essa não menos importante campanha de conscientização no trânsito, gostaria de voltar minhas atenções para os outros acidentes que tenho visto, dos quais por vezes também sou ora vítima, ora culpado.

É impressão só minha ou você também já reparou que com o advento das redes sociais, nossos diálogos face-a-face (quando ocorrem) foram drasticamente alterados? Antes de me ater a discussão da proposição feita, uma luz nestes parênteses. O "quando ocorrem" chegou pra ficar. Os novos, os velhos, enfim todos os dispositivos de comunicação eletrônica que nos foram e ainda são oferecidos deveriam, ao menos pra mim, exclusivamente encurtar as distâncias. Isso vale pra qualquer ambiente. Do presidente da multinacional com sede no Japão que deseja se comunicar com funcionários que se encontram no andar abaixo ou numa plataforma no meio do mar de Macaé, até a mãe saudosa do interior da Bahia que chora a ausência do filho que foi tentar a vida na cidade grande. Encurtar distâncias. Ganhar tempo. Amenizar a saudade.

Entretanto, ao mesmo tempo em que esses cumprem o propósito de encurtar, também distanciam. Ou vai me dizer que você nunca "teclou" (putz, que termo velho!) com seu amigo, parente ou colega de trabalho que estão a menos de dez metros de distância, em vez de levantar, tocar-lhe o ombro e... falar? Como o uso recorrente, hipertrofia... Sabia que empresas de telefonia realizam competições abertas de digitação em menor tempo, utilizando seus smarts? O que se digita nessas competições eu não faço a mínima ideia, mas suspeito que seja uma receita de preparo de macarrão instantâneo ou o hino do Palmeiras. O vencedor, claro, leva um smart. E se você, a essa altura do campeonato ainda não sabe o que é um smart, "dá um Google", mas seja rápido. Dica: não precisa mais de www.

Na contrapartida, o desuso atrofia. Com isso, chegamos à indagação que propus no segundo parágrafo. A habilidade cada vez maior de nossos dedos é diretamente proporcional ao atrofiamento da nossa língua. E não há nada de erótico no que acabei de dizer. Exótico, talvez. Senão, vejamos: A surpresa do reencontro não existe mais. O abraço, acompanhado das mesmas e outrora aguardadas frases, do tipo: "Nossa, como você tá diferente?" ou "Não mudou nada!" ou para delírio da amiga "Emagreceu, hein?" não surtem mais efeito, uma vez que o encanto da novidade se desfez com aquele álbum de fotos que foi postado ontem. A notícia em primeira mão também não existe mais. A propósito, o que significa a expressão "notícia em primeira mão"? Procurei, não achei, mas creio que deva se referir a algo relacionado ao carteiro ou ao mensageiro, pra ser mais preciso. Como preciso é o tiro de misericórdia que vem com aquele indefectível "Geeente, tá todo mundo sabendo, menos você?"

Assim, nossas frases são intercaladas com um "isso eu já te disse no face, lembra?", que torna o diálogo capenga, num zig-zag de informações recebidas parte pelos ouvidos, parte pelos olhos. Não é preocupante?

Uma outra observação curiosa que envolve este tema, diz respeito à coragem. As redes nos tornaram corajosos, percebeu? "Falamos" o que bem entendemos, expressamos nosso ponto de vista doa a quem doer e, auto intitulando-nos pessoas de personalidade, dizemos "na cara". Mas... onde está a cara? Nossas frases de efeito, nossos muxoxos, nossos gritos em caixa alta seriam igualmente repetidos se estivéssemos diante de seus respectivos destinatários? Ah! aí não, né? Precisamos ser educados, afinal. Com isso, digitamos para milhões o que não consegue ser dito para um. E o que poderia ser simples conflito, tende a virar confronto. Complexo confronto com ares de batalha virtual campal, com curtidores de um lado e do outro, hasteando polegares. Gente que na maioria das vezes, nada tem a ver com questões que deveriam ser de ordem estritamente pessoal, mas que graças a nossa valentia, é arrebanhada por um discurso de fúria efêmera.

É nessas horas que tenho saudade maior de meu avô. Um alguém que gostava de uma conversa e que quando tinha de dizer algo, valia-se de dois únicos instrumentos: a boca ou a caneta. Sim, ele mandava cartas. Viveu até a década passada e ainda assim mandava cartas. Nunca o vi sentado diante de um computador e, pouquíssimas foram as vezes diante de uma Olivetti (alguém sabe o que é isso? Dá um Google!) Fosse para um amigo, um parente, para o Ponto Frio ou para o prefeito, ele mandava cartas. Cartas manuscritas. Cartas com destinatário. Raciocínio contínuo, com início, meio e fim. Palavra direta, explicada, supressora de ruídos e intermediários. Palavra que, quase sempre, gerava retorno por meio de nova carta, telefonema ou encontro para um café.

Assim eu o vi cultivar muito mais amigos que inimigos, ao longo de seus mais de noventa anos. Se essa for a receita, control C + control V, no coração.


Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador. Ambas me seduzem.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Márcio Castro