outras teclas

Voz que chega pelos olhos

Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador.
Ambas me seduzem

Monet e a TV

Ela necessita da cor para sobreviver. Ele também necessitava.


monet.jpg

A TV, hoje com seus milhões de cores vindas desse mix RGB, começou a dar o ar de sua graça em 1929. Ainda muito timidamente. Cinquenta linhas de definição por fio. Nada próximo das mais de mil que você tem na sua sala. Oscar Claude Monet havia partido três anos antes.

Impressão-Nascer-do-Sol-1872.jpg Impressão, Nascer do Sol (C.Monet – 1872)

Não viu o mover-se de objetos, ainda em preto e branco. Cores, somente na década de 50, num mecanismo inverso ao seu, que as congelava.

Uma cena impossível: ele, em 2014, sentado numa sala, de frente para as bisnetas daquela de 1929. Cada dia mais esbeltas. Finas em espessura, esguias em polegadas, mas que ainda ficam longe de superar suas maiores – literalmente falando ou não – obras.

O que pensaria Claude Monet diante da TV? Contrariedade, talvez? Quem sabe não tanto pelo balanço das formas, mas pela preocupação cada vez maior em detalhá-las, distinguí-las. “Putz, pra que isso?” – ele diria. “Tive tanto trabalho em fundi-las. Suei a camisa pra desfazer o traço reto e duro. Promovi a fusão perfeita entre fundo e figura. Fui contra um monte de gente que, no início, ironicamente dizia que meus quadros eram simples borrões e agora vem esse pessoal e arruma tudo de novo? Não sei se ainda tenho forças para impressioná-los.” Acho que ele entregaria os pontos. E os pincéis.

A obra do artista francês, que apresentou ao mundo uma aquarela de tons jamais vista até então, é definitiva. Matizes escuras, contrastes pesados, cores em musgo registradas em obras concebidas em ateliers fechados, iluminados muitas vezes por uma pequena clarabóia - absolutamente significativas para a história da arte, diga-se - dão agora lugar a registros “plein air” (ao ar livre).

Claude_Monet Regatas Argenteiul.jpg Regatas em Argenteuil (C. Monet – 1872)

Desse modo, a cor não poderia faltar. Muita cor. Monet foi hipnotizado pelas cores da natureza. E passou o dedo sobre elas. Isso foi pouco depois do ano de 1862, quando cansado do ensino da pintura acadêmica, resolve abandonar a clausura das salas.

Quase sessenta anos após, em 1920, surgem de maneira ainda precária, as verdadeiras transmissões de TV. Interessante é notar que a estética de Monet – intencional, obviamente – foi percebida com alguma semelhança em transmissões ocorridas poucos anos depois, por volta de 1924. Não se podia ver nada com nitidez extrema. Apenas o contorno de objetos à distância. Fisionomia de pessoas, só em 1925. Lógico, que neste caso, por carência de recursos técnicos.

tv primeira.jpg John Logie Baird e seu invento, em 1920.

E o elo está estabelecido. Entretanto, a evolução de ambos passa a ser distinta. E inversa. Enquanto a TV caminhava (e continua a caminhar) no objetivo de tornar tudo cada vez mais nítido, Monet ia fundindo gradativamente suas cores, beirando o abstracionismo.

“Não percebo mais as cores com a mesma intensidade nem pinto a luz com a mesma precisão. O vermelho aparece lamacento para mim; já o rosa, insípido; e os tons intermediários ou menores me escapam por completo. O que eu pinto está cada vez mais escuro, mais e mais como uma fotografia antiga.” – Claude Monet.

Eram os primeiros sinais de problemas com a visão. Isso já por volta de 1908. A catarata - doença ocular que na maioria dos casos hoje é facilmente tratada, possibilitando ao paciente internação, operação e alta no mesmo dia – começava a afetar seus olhos. Causas? A idade, já um pouco avançada, mas também muito provavelmente pelas constantes e excessivas horas de exposição ao sol. Sabe-se hoje que a incidência de raios ultravioleta é fator agravante para o aparecimento da doença.

Teria, a mãe natureza, “cobrado” do homem preço alto por querer registrá-la de forma tão intensa?

Sinceramente, não penso assim. O que vejo é a entrega por inteiro, desmedida, por vezes irracional, do artista para com sua obra. Uma entrega que não impõe limites. São as dores de Franz Liszt, por sua hipermobilidade nos dedos das mãos. São os calos e as feridas na mão do escultor.

É a paixão, como causa e conseqüência comum.

Hoje, a medicina resume tudo isso numa sigla: LER – Lesão por Esforço Repetitivo. Profissionais das mais diversas áreas sofrem com isso. Bancários, metalúrgicos. Operários de uma linha de montagem que hoje produzem aqueles mesmo aparelhos de TV dos quais falei lá no começo.

A diferença é que eles, quando acometidos, param ou interrompem ainda que momentaneamente suas atividades. O artista, não.

“Quando um cantor perde a voz, ele deve se aposentar. Também o pintor que não enxerga deve abandonar a pintura, mas isso eu sou incapaz de fazer.” - Claude Monet.

E a continuidade, neste caso, ganha em dramaticidade, pois a obra passa a receber influência direta (por vezes, inconsciente) da limitação do artista. Como se ganhasse vida e fosse adoecendo junto. Os traços de Monet tornaram-se quase raivosos. A tentativa de congelar o tempo com o que seus olhos conseguiam capturar, saturava em tinta espessa e cores sólidas suas telas.

monet quadros.jpg A mesma Ponte Japonesa. Pintadas em 1899 e 1918.

Mas a TV vai muito bem, obrigado. Oferecendo-nos a cada dia experiências quase sensoriais, tirando objetos da tela e colocando-os ao nosso lado. Ou então puxando-nos pra dentro dela. É a busca pelo efeito sinestésico perfeito. Audição e visão já em estágios adiantados. Tato, quase lá. Olfato e paladar em desenvolvimento.

tvs.jpg

Perdoem o trocadilho, mas tenho a impressão de que isso não é tão real assim.

E quando eu - prestes a encerrar este texto fundamentado no abismo que hoje por vezes separa a arte da tecnologia – julgava ser pouco provável tê-las com propriedade dividindo um mesmo espaço, acabo por encontrar este pequeno vídeo. Ainda em p&b, logo, distante do que ambos (TV e Monet) gostariam e que pode colidir com a cronologia dos fatos aqui pesquisados e relatados. Mas um vídeo que diz que SIM. Com critério, com interesse, valorização e reconhecimento devidos, é possível levar ao público em geral (tarefa das novas TV’s) mais arte, mais cultura, mais paixão (tarefa dos novos Monet’s).

Fontes web: inventors.about.com tudosobretv.com.br pt.wikipedia.org

Referências Bibliográficas: Claude Monet (Karin Sagner-Duching) Ed. Taschen


Márcio Castro

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